Poema de Fim de Semana: Migalhas

tamboril-arvorePoema e Foto de Luiz Martins da Silva

Sejamos maritacas, periquitos, caturritas.
Sequer leram “A aula de canto” ( * ),
Mas, como se desembestam,
Sobretudo, mantidos a castanhas
Da espécie Livre para voar.

Galinhas, também sábias.
Até as prefiro às águias.
Contentam-se com ciscos e ciscar,
Tomam banhos de terra e, depois,
Penas a se coçar.

Aulas de pranayama?
Basta um gato em casa.
Eles sabem das manhas,
Contorces e alongamentos.
Dão-lhe colo, dormindo no seu.

Não fique num canto a solo.
Inscreva-se na gratuidade das coisas.
Não se afaste do seu cão.
A não ser, por telepatias.
Dias antes, ele sabem da chegada.

E o tamboril? Não é, mas parece.
É o Brasil. Outro dia, no quintal,
Um broto, nem se sabia feliz.
Hoje, simplesmente aconselha:
Olha pro céu, aprendiz!

* Conto de Katherine Mansfield (1888-1923)
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Estrutural: uma cidade com medo do amanhã

estrutural-catadores-foto-de-ronei-alves-silvaPor Chico Sant’Anna

 

17 de janeiro marca o fim do Lixão da Estrutural, considerado o maior da América do Sul. A Estrutural não mais receberá resíduos sólidos e toda a coleta do Distrito Federal será destinada ao aterro sanitário de Samambaia. O fechamento do lixão é comemorado por ambientalistas, mas preocupa lideranças comunitárias da Estrutural. A interrupção dos descarregamentos pode representar mais que o fim do lixão, pode ser também a falência da cidade.

O lixão nasceu há quase 50 anos. Deu guarida a uma pequena vila de catadores, que na década de 80 enfrentou a Polícia Militar do governo Cristovam e, depois, com Roriz, conseguiu a fixação. Hoje, com uma população de 40 mil pessoas, a Estrutural detém os mais baixos indicadores socioeconômicos do DF. Vive essencialmente da sucata. Segundo a Pesquisa da Codeplan, a renda familiar é a mais baixa da Capital: em 2015 era de R$ 2.004,00, equivalentes, a época, a 2,54 salários mínimos: um ganho per capita pouco superior a meio salário mínimo (0,66 SM). O desemprego, em 2015, era de 9,6% e dos que trabalhavam, apenas 52% tinham carteira assinada e benefícios previdenciários.

Publicado orig

Publicado originalmente na coluna Brasilia, por Chico Sant’Anna, no semanárioo Brasília Capital

Lixo que sustenta

Com a interrupção do fornecimento da principal matéria prima, todo esse quadro socioeconômico tende a se agravar. Não apenas para os 2700 catadores e centenas de carroceiros, que garimpam as riquezas jogadas fora pelo brasiliense e fazem o transporte miúdo. Estudos da Associação Comercial da Estrutural indicam que a renda que circula na cidade, em seu comércio, é essencialmente proveniente da sucata. Não por menos, a Estrutural abriga hoje a segunda maior empresa brasileira de reciclagem. Na cidade, tudo que é rejeitado por outros moradores vira dinheiro: garrafas pet, latinhas de alumínio, sucatas metálicas. Já existiam até projetos de se criar ali o maior centro de captação de vidro do Centro-Oeste.

Foto de Alexandre Bedran

O trabalho dos catadores é severo e chega a ser desumano em vários momentos. Cada um desses catadores consegue fazer cerca de R$ 1.500,00 mensais. Foto de Alexandre Bedran.

Segundo a Codeplan, a maioria dos trabalhadores tem baixa qualificação profissional. A poucos quilômetros do ministério da Educação, o nível escolar da população é baixíssimo: 45% não terminaram o ensino fundamental e diploma de ensino médio só é portado por 16,60% dos moradores. Pelo perfil dos moradores, são pequenas as chances de realocação dessa mão-de-obra. O medo é que o desemprego campeie e atrás dele a violência, como roubos e assaltos.

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Mobilizada, a comunidade da Estrutural foi unida até o Buriti. Catadores,micro empresários, lideranças comunitárias marcharam do Lixão da Estrutural ao Gabinete de Rodrigo Rollemberg. Uma caminhada de cerca de 10 km. O salão nobre do palácio foi totalmente ocupado. Eles foram dizer a Rollemberg que não querem bolsa catador de R$ 300,00. Querem condições dignas de trabalhar na triagem dos resíduos sólidos conforme prometido. A Estrutural teme a falência econômica da cidade com o fechamento do lixão. Fotos de divulgação.

Catadores

O trabalho dos catadores é severo e chega a ser desumano em vários momentos. Trabalham dez, doze horas por dia, sob sol escaldante ou chuva. Não existe feriado. Mas o retorno parece ser atraente. Segundo o presidente da Associação das Micro e Pequenas Empresas da Estrutural, Alexandre Bedran, cada um desses catadores consegue fazer cerca de R$ 1.500,00 mensais. Alguns, quando dão sorte e se dedicam mais tempo, chegam a R$ 3 mil. Em média, injetam na economia local mais de R$ 4 milhões mensais, sem computar os negócios realizados pelas empresas recicladoras e depósitos de ferro-velho.

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Bolsa

O DF produz 2,8 toneladas de lixo cotidianamente. Metade é material orgânico, que pode virar fertilizante. Da outra metade, composta por resíduos sólidos, 700 toneladas são passíveis de reaproveitamento. No final das contas, se bem gerido, apenas 700 toneladas não são passiveis de reaproveitamento e deveriam ir para o Aterro. Entretanto, o DF não conta com coleta seletiva e nem foram construídos os centros de previa triagem. Assim, tudo irá pra Samambaia como “lixo indefinido”. Essa medida, além de prejudicar os catadores, fará com que o novo aterro tenha sua vida útil reduzida dos 25 anos projetados para apenas nove anos, a um custo anual de cerca de R$ 17 milhões, informa Ronei Silva, do Movimento Nacional dos Catadores.

O projeto do GDF previa a construção de 12 galpões de triagem, onde o lixo inicialmente depositado seria triado pelos catadores. Eles não mais atuariam no lixão. Haveria mais qualidade de vida e proteção social a esses trabalhadores. Nenhum galpão foi feito.

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“Com o fechamento do lixão, se encerra um ciclo de quase 50 anos de prestação de serviços, sofrimentos, mutilações, doenças e mortes. E inicia-se um novo ciclo de lutas por respeito, dignidade e reconhecimento perante a sociedade, sociedade essa que sempre excluiu e ignorou a classe de catadores” – resume o líder comunitário Paulo Batista, o Paulão da Estrutural. Foto de Ivaldo Cavalcante.

Compensação

O GDF oferece agora como compensação uma bolsa de R$ 300,00 mensais, durante um ano a um grupo de 900 catadores. Ou seja, para a terça parte dos que lá trabalham. O governo Agnelo também cogitou essa bolsa, mas para 2.054 profissionais. Depois da marcha ao Buriti, o governo já fala em 1.500 bolsas.

“Com o fechamento do lixão, se encerra um ciclo de quase 50 anos de prestação de serviços, sofrimentos, mutilações, doenças e mortes. E inicia-se um novo ciclo de lutas por respeito, dignidade e reconhecimento perante a sociedade, sociedade essa que sempre excluiu e ignorou a classe de catadores” – resume o líder comunitário Paulo Batista, o Paulão da Estrutural.

A comunidade da Estrutural está unida. O Conselho Comunitário tenta uma conversa com Rodrigo Rollemberg há um ano, sem resposta. Eles querem que a cidade seja compensada pelo fato de estar perdendo seu ganha-pão. Querem que o GDF preveja nos orçamentos futuros verba para construção de creche, delegacia de polícia e posto policial.
Querem ainda que enquanto os centros de triagens não sejam construídos, que o Lixão da Estrutural funcione como estação de transbordo. Ali o lixo seria selecionado e só que não tivesse reaproveitamento seria encaminhado a Samambaia. Para tanto já foram ao Ministério Público e planejam pressionar o governador.

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Terceirizados do GDF fazem greve pra receber salários

greve-terceirizados-gdfCerca de cinco mil trabalhadores terceirizados na limpeza, conservação e merenda escolar da Rede Publica de Ensino do DF estão em greve, por tempo indeterminado.

O motivo: falta de pagamento de salários.

Como a volta as aulas só será em 10 de fevereiro, parece que até lá não há muita preocupação de deixar em dia salários e benefícios.

Empregados das empresas Real JG e Servegel, ainda não receberam o salário de dezembro e o tíquete alimentação e que já deveriam ter sido pagos no dia 06 de janeiro. As empresas Juiz de Fora e G & E Serviços, também não pagaram o salário e o tíquete alimentação do mês e estão inadimplentes desde o ano passado com o pagamento do 13º salário. Parte dos trabalhadores ainda não receberam as férias. Os trabalhadores vão fazer piquete de greve na manhã de segunda-feira (16/01), na porta das Regionais de Ensino do DF.

Hospitais

Os terceirizados da Saúde também passaram por constrangimento semelhante. Após cerca de cinco mil trabalhadores terceirizados na limpeza da maioria dos hospitais públicos do DF terem cruzado os braços em protesto à falta do pagamento do salário e do tíquete alimentação, que deveria ter sido pago no quinto dia útil (06/01), as empresas Ipanema e Dinâmica depositaram o pagamento e o beneficio dos trabalhadores, que já retornaram para os seus postos de trabalho.

A paralisação dos terceirizados da limpeza da Saúde afetou os Hospitais Regionais de Planaltina, Sobradinho, Brazlândia, Paranoá, Taguatinga, Guará, Núcleo Bandeirante, Ceilândia, Samambaia, São Sebastião, da Asa Norte (Hran), Materno e Infantil de Brasília (Hmib), e o Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico (Hpap),

A direção do Sindiserviços-DF, sindicato que representa a categoria, destaca que a situação dos trabalhadores no Distrito Federal tem se mostrado extremamente preocupante, pois muitos já estão endividados com os constantes atrasos nos seus salários e já não têm como pagar suas dividas que estão cheias de juros. Ou mesmo, parte da categoria já não tem o que comer em suas casas.

O Sindiserviços-DF ressalta que já formulou diversas denuncias às autoridades, sem que alguma medida mais enérgica fosse ou seja aplicada no GDF ou nos patrões que desrespeitam a Convenção Coletiva de Trabalho da Categoria e a Consolidação das Leis do Trabalho (CCT).

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Racionamento: e agora?!

torneira-2-close-com-efeitoPor Aline Guedes.* Foto de Chico Sant’Anna

 

Nunca fui ativista de nenhuma causa. Mas essa questão da economia de água sempre me preocupou. Procuro fazer uso racional dos recursos naturais, e tento transmitir esta consciência aos mais próximos, mesmo sendo incompreendida e até criticada, em alguns momentos.

Fato é que a maioria de nós só toma as devidas providências quando o caos já está instaurado. É o caso daqueles cidadãos que só vão ao médico em último caso, ou de quem acha ser preciso usar o cinto de segurança somente para não ser multado.

Certo dia, pedi a uma conhecida que fechasse a torneira enquanto ensaboava louça, porque me doeu na alma ver o desperdício. A resposta imediata dela, foi: “Aline, aqui não é o Nordeste, não”. Eu não repliquei, mas confesso que aquela ignorância me deixou estupefata. Hoje, com o Distrito Federal passando pelo primeiro racionamento da sua história, será que eu poderia me virar para aquela conhecida, e perguntar: “E agora, é?”?

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Infelizmente, algumas pessoas não agem com a devida responsabilidade, muito menos pensam em favor do conjunto. Vi, numa reportagem, que o síndico de determinado condomínio adotou medidas de reuso da água das piscinas e dos prédios, levando a conta a cair de R$ 11 mil para R$ 1.900 por mês. Mesmo assim, ele também será prejudicado com o racionamento.

Entende o que digo? Precisamos cuidar dos bens públicos e dos recursos naturais em benefício próprio, mas, também, pensando no bem comum. É fácil achar que gastar papel higiênico em demasia ou energia elétrica desnecessária no meu ambiente de trabalho é problema do chefe ou do governo. Mas é mais inteligente lembrar que quem paga a conta é cada um de nós.

*Aline Guedes é Jornalista e trabalha no Senado Federal, em Brasília.

 

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Estrutural: Moradores temem falência da cidade com o fechamento do lixão.

img-20170110-wa0065Na próxima semana, dia 17 de janeiro, o Lixão da Estrutural, considerado o maior da América do Sul, será fechado. A Estrutural não mais receberá resíduos sólidos e toda a coleta do Distrito Federal será destinada ao aterro sanitário de Samambaia. O fechamento do lixão é comemorado por ambientalistas, mas preocupa lideranças comunitárias da Estrutural. A interrupção dos descarregamentos pode representar mais que o fim do lixão, pode ser também a falência da cidade.

Preocupados com esta situação, a comunidade da Estrutural soma suas forças aos quase 3 mil catadores e centenas de fretistas (carroceiros ou não) que tiram sustento na triagem e reciclagem de resíduos sólidos.

Manifestação

Está marcada para esta sexta-feira, 13/1, às 6 horas da manhã, uma caminhada da Estrutural ao Palácio do Buriti. Os quase três mil catadores não aceitam a proposta do GDF de conceder a 900 deles uma bolsa de R$ 300,00. Lembram que a renda média mensal é de R$ 1.500,00.
À manifestação dos catadores somam-se entidades como o Conselho Comunitário da Estrutural, o Movimento Nacional dos Catadores, a Associação Comercial da Estrutural, Associação de Pequenos e Micro Empresários da Estrutural, Conselho de Segurança – Conseg, prefeituras comunitarias, além de igrejas e movimentos sociais.
O temor é que o comércio da Estrutural venha  a ser afetado com a perda de renda dos catadores, que gira na casa de R$ 4 milhões mensais, toda ela consumida na própria localidade.
Além disso, várias empresas de reciclagem, ferro-velhos e assemelhados poderão fechar sem a existência da matéria prima ou se mudar para Samambaia, para ficar mais perto do novo Aterro Sanitário.
Com perda de renda, comércio afetado, o temor é pela geração de mais desemprego e com ele a violência.

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Reivindicações

As entidades já conversaram com o Ministério Público e tentam há mais de um ano serem recebidas pelo governador Rodrigo Rollemberg. Elas cobram do GDF a promessa da construção de 12 galpões de triagem, para onde os catadores e suas cooperativas seriam transferidos para a realização da triagem dos resíduos. Nada disse foi feito e o lixo irá de forma integral para o aterro sanitário de Samambaia.
Enquanto os galpões não são construídos reivindicam que o lixão da Estrutural funcione como uma estação de transbordo e triagem, permitindo o trabalho dos catadores. Somente depois desta triagem é que o lixo iria pra Samambaia.
Reclamam também de compensações sociais.
Querem a implantação de creche, delegacia de polícia e de batalhão da Polícia Militar.

SLU

Repercutindo as informações acima, a Comunicação Social do Serviço de Limpeza Urbana enviou os seguintes esclarecimentos ao blog Brasília, por Chico Sant’Anna:

fluxograma-do-lixoPrimeiro, é importante considerar que os catadores, mesmo em condições melhores de trabalho, como acontece nas usinas de Ceilândia, Brazlândia e L. 4 Sul, conseguem separar de 3 a 5% de material reciclável. Média até superior à do resto do país. No lixão, onde as condições são muito piores, retiram em torno de 1%.

Os volumes de resíduos que irão para o aterro sanitário por dia são os seguintes:  (veja desenho ao lado)

Ceilândia:     450 ton/dia
Sobradinho: 390 ton/dia
Brazlândia: 50 ton/dia
L.4 Sul:  50 ton/dia
Total:  940 ton/dia

Para o Lixão:

Várias cidades: 550 ton/dia (direto, sem passar por outras instalações)
L.4 Sul: 830 ton/dia
Transbordo Gama: 830 ton/dia
Total: 1.760 ton/dia.

O material reciclável  retirado diariamente nas unidades é  o seguinte 

P-Sul: 130
ton/dia compostagem
20 ton/dia: recicláveis secos

Brazlândia
2 ton/dia recicláveis

Sobradinho:
5 ton/dia

L.4 Sul:
20 ton/dia recicláveis

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Poema de Fim de Semana: Praias Extremas

1-parnaiba-barra-grande-pi-dez-2013-4Por Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna

Rever lugares, teimar bucolismos.
Indagar dos sonhos passados
Futuras memórias do imprevisível.
Certeza jovem, só as dos plátanos.
Agora urbanos, eles, sim, permanências.

Árvores frondosas fruem estações.
Nós é que somos mimetismos no gerúndio.
As casas antigas se estiolaram.
Letreiros mais vivos assumiram os de outrora.
Novos negócios remodelam-se nos calçadões.

A modernidade contagiou os ambulantes.
O décor de uma certa civilidade, novos estilos:
Os carrinhos de milho e picolés frutas vermelhas diet.
Insistentes, as populares pastelarias e creperias
Disputas de filas com os food trucks.

Cedo, o minuano e seus perdidos pinguins.
Esquecidos os estoques de conchinhas.
Os patinetes, hibernando nas garagens.
Obsoletos carrinhos de bebê
Cederão lugar a bicicletas e reboques.

Acnes anunciam:  o colo do mundo está próximo.
Esparsas notícias de férias muito distantes.
E nós, o que nos mantêm no apegos da província?
O estresse cosmopolita dos aeroportos?
Um dia, por afetos atávicos, os esmaecidos álbuns.

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Máfia da Sucata em ação na Estrutural

sucata-exercito4Na Estrutural, sucatas metálicas de propriedade do Poder Público são comercializadas diretamente a empresas de ferro-velho. E a receita da venda não reverte ao Estado. Trabalhadores terceirizados, servidores de instituições do GDF, do Governo Federal e até militares participam do esquema.

Por Chico Sant’Anna. Fotos de Alexandre Amaral Bedran.

Um verdadeiro esquema de vendas paralelas de sucata metálica de propriedade do Poder Público veio à tona na Estrutural. Ele envolve seis empresas de ferro-velho, trabalhadores terceirizados, servidores de instituições do GDF, do Governo Federal e até militares. Veio à tona a partir de queixas de catadores do lixão da Estrutural. Denunciam que sucatas metálicas (o filé mignon dos catadores) não estavam sendo despejadas no lixão e que iam direto para as empresas que compram e vendem ferro-velho.

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Dois caminhões com a logomarca da Novacap foram fotografados comercializando sucata metálica. A Novacap alegou tratar-se de caminhões terceirizados e que já não mais prestavam serviço a empresa, embora ainda estivessem portando “irregularmente” adesivo da empresa.

Documentação fotográfica feita pelo presidente da Associação das Micro e Pequenas Empresas da Estrutural – Ampec/Scia, Alexandre Amaral Bedran, flagrou a comercialização de metais recicláveis de diversos órgãos públicos. A meta de Bedran não era denunciar o desvio de patrimônio público. A preocupação era mostrar o prejuízo dos catadores. Segundo ele, esse esquema de receptação de sucata pública representaria cerca de R$ 18 mil a cada dois dias. Ao longo do mês, representaria quase R$ 300 mil, já que o negócio não parou nem pro Natal. Os recursos não iriam para os órgãos públicos.

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A Comunicação Social da Caesb alegou que a Kombi fotografada é de empresa terceirizada e que pediu à contratada que apurasse o ocorrido.

Bedran flagrou caminhão do Exército, veículos com logomarcas da Caesb e da Novacap, do Ministério do Planejamento e da própria Valor Ambiental, contratada pelo Serviço de Limpeza Urbana – SLU. Eles vendiam sucatas metálicas e a receita da venda não reverte ao Estado nem às empresas públicas envolvidas.

Somente o Exército reconheceu o ocorrido e disse que tomaria as medidas necessárias. Nas fotos o material comercializado seriam ferraduras velhas do Regimento de Cavalaria de Guarda, mas em nota, a Comunicação do Exército afirma tratar-se de “material inservível” recolhidos no interior do Setor Militar Urbano numa ação de prevenção da Dengue.

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant'Anna, no semanário Brasília Capital

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, no semanário Brasília Capital

“Imediatamente, ao tomar ciência do fato, o Comando da Unidade determinou que o valor arrecadado, R$ 183,00, fosse recolhido ao Fundo do Exército, como regem as leis e normas que regulam esse tipo de ação. O Comando do Regimento, também, determinou a elaboração de orientações sobre como proceder em ações dessa” disse em nota.

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Consultado, o Ministério do Planejamento sequer respondeu por que e como veículos de sua propriedade estavam comercializando sucata metálica.

Os demais órgãos não assumiram responsabilidades. O Ministério do Planejamento sequer respondeu à consulta formulada. A Novacap alegou tratar-se de caminhões terceirizados e que já não mais prestavam serviço a empresa, embora ainda estivessem portando “irregularmente” adesivo da empresa. Na Caesb, que teve registrada a ação de uma Kombi e de um caminhão, nos dias 23 e 24 de dezembro, a história foi parecida. A Kombi é terceirizada e a empresa pediu que a contratada apurasse o ocorrido. O caminhão portaria “descarte de entulho de obra”, mas que a luz das imagens irá investigar. O SLU disse que a venda de sucata pela Valor Ambiental fere as normas internas e que “os resíduos recicláveis são encaminhados pelas empresas contratadas, de forma exclusiva e gratuita, às cooperativas de materiais recicláveis cadastradas no SLU”. Mas não explicou porque isso não acontece.

Enquanto o Poder Público fechar os olhos, os reis da sucata vão enriquecendo.

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Transporte com preço de Primeiro Mundo

brt-passageiros-09-09-2014-2A única coisa de primeiro mundo no sistema de transporte de Brasília é o preço. Rollemberg conseguiu uma tarifa mais cara do que a de Londres.

Por Chico Sant’Anna

Um dos raros governadores que enfrentou o cartel dos ônibus foi José Aparecido. Na Nova República, criou o Caixa Único e passou a remunerar as empresas por quilômetro rodado e não por passageiros carregados. A medida permitiu remunerar o transporte público pelo o que ele havia efetivamente custado. Uma linha mais rendosa subsidiava a deficitária. Pagando por quilômetro rodado, passes estudantis, de idosos e outros não eram cobrados pelas empresas de ônibus, pois pra elas carregar 200 ou apenas uma pessoa num ônibus representava a mesma remuneração, calculada numa planilha aberta à sociedade. Para as empresas era mais lucrativo colocar mais ônibus circulando e não encher poucos ônibus com milhares de passageiros.

O Caixa Único ainda podia ser reforçado com receitas de publicidades nos coletivos, terminais e pontos de ônibus, receita de estacionamento pago, além de quantias arrecadas das multas aplicadas às próprias concessionárias. Era um fundo para custear a mobilidade urbana.

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant'Anna, no semanário Brasília Capital

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, no semanário Brasília Capital

Aparecido foi sucedido por Joaquim Roriz, que acabou com o Caixa Único e restabeleceu o sistema preferido pelas empresas. Embora o método facilitasse o bilhete único e a integração das linhas, Agnelo, que teve a oportunidade de recriar o Caixa Único, preferiu manter a lucratividade das concessionárias. O então secretário de Transportes, José Walter Vásquez, alegava que o sistema de quilometragem incentivava as empresas a não pararem nos pontos para pegar passageiros. A frágil explicação não considerou que os ônibus contratados deveriam ter GPS e eram passiveis de monitoramento em tempo real.

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Rollemberg, ao receber ordem judicial para abrir nova licitação de contratação de empresas de ônibus, também teve oportunidade para criar novas regras de contratos. Preferiu insistir na licitação considerada viciada pelos tribunais. Agora, vivencia um sistema deficitário e inoperante. A única coisa de primeiro mundo no sistema de transporte de Brasília é o preço. Rollemberg conseguiu uma tarifa mais cara do que a de Londres.

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Poema no meio da semana: Singela singeleza

palmeiras-sobre-a-escuridaoPoema de Ana Rossi. Foto de Chico Sant’Anna

 

Singela singeleza
noite branca esbranquiçada
noite dormida com sono
recupero o tempo em mim mesma

Singela singeleza
olhar os outros ouvir apenas ouvir
nessa passagem de ano porvir imediato
recupero o tempo de mim mesma

Singela singeleza
dias fartos dias raros dias felizes
antecipação do dia
recupero o tempo em mim mesma

Singela singeleza
noites fortes noites adormecidas
nas estradas nomes lembrados ecoam
recupero o tempo em mim mesma

Singela singeleza
das emoções contidas da história narrada
da presença física da pulsão
recupero o tempo de mim mesma

Singela singeleza
antecipação das noites
sem fim com início
recupero o tempo em mim mesma

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Urbanismo: GDF quer adensar o Park Way

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As manchas em vermelho indicam as áreas verdes que o GDF pretende transformar em lotes comerciais. As marcas em amarelo, são os novos lotes residenciais. Nas setas em vermelho a imagem atual das áreas que passariam a abrigar comércio.

Além de amplos espaços para a instalação de comércio local e de um Polo Multifuncional, a proposta prevê a criação de cerca de sessenta novos terrenos residenciais de 20 mil metros, cada um – passíveis de fracionamento em até oito lotes, totalizando quase 500 novas residências.

Por Chico Sant’Anna

 

O Park Way, idealizado por Lúcio Costa como um cinturão verde para o Plano Piloto e garantidor das nascentes que alimentam o Ribeirão do Gama e do córrego Cabeça de Veado, bacias que respondem por um terço das águas do Lago Paranoá, corre o risco de ser adensado e perder grandes áreas de vegetação original do Cerrado. O temor de muitos moradores é que o bairro venha ganhar contornos urbanos semelhantes ao de Vicente Pires.

Simultaneamente ao debate sobre a Lei de Uso e Ocupação do Solo – Luos, o GDF deu início à avaliação popular das novas Diretrizes Urbanísticas do Park Way. A proposta prevê a criação de cerca de sessenta novos lotes residenciais de 20 mil metros cada um – passíveis de fracionamento em até oito residências – e largos corredores para comércio.

sun-park-city-2Todas estas mudanças urbanísticas se somariam a Cidade Aeroportuária, onde a InfraAmérica deseja construir o Sun Park City Center. Embora o projeto venha ocupar terras do Park Way, ao que parece não está sujeito às normas urbanísticas nem do Park Way, que não permite edifícios, nem do Distrito Federal, mas sim à regras federais.

Para mais detalhes sobre a LUOS, leia:

Na primeira audiência pública, a proposta provocou rejeição de muitos moradores e a simpatia por parte de empresários que querem atuar no local.

Com uma área de 31.598 Km², o bairro, corresponde por 68% da área da Apa Gama-Cabeça do Veado. O Park Way nasceu com a denominação Loteamento Mansões Suburbanas Gama. Eram apenas 300 lotes de 20 mil metros e a proposta visava angariar recursos financeiros para a Novacap. Posteriormente, quando registrado em cartório, em 1961, já com a denominação Setor de Mansões Suburbanas Park Way, foram previstos 1.188 lotes, cada um com dois hectares, podendo contar com até três residências, mas sem direito à fracionamento. Pelo decreto nº 18.910, de 15/12/97, o então governador Cristovam Buarque, permitiu o parcelamento de cada lote em até oito unidades autônomas, com área mínima de 1.875 m². A medida triplicou o potencial de residências no bairro: de 3.564 para 9.504.

Segundo o estudo Subsídios ao zoneamento da APA Gama-Cabeça de Veado e Reserva da Biosfera do Cerrado: caracterização e conflitos socioambientais, editado, em 2003, pela Unesco; esse crescimento foi responsável pelo soterramento de várias nascentes e drenagem do solo. “Os condomínios ao longo dos cursos d’água e nascentes, em médio prazo, causam destruição das áreas de preservação permanente, tanto por ações voluntárias como involuntárias dos seus ocupantes” – salienta o texto.

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O Park Way está inserido na APA Gama-Cabeça do Veado que abriga nascentes responsáveis pela terça parte d’água que abastece o Lago Paranoá. Foto José Joffre

Aporte superior a R$ 300 milhões.

Além da questão ambiental e de garantia d’água, o Park Way é considerado, urbanisticamente falando, o envoltório do Plano Piloto: elemento visual de proteção e articulação da paisagem da área tombada de Brasília. Os novos sessenta lotes residenciais idealizados pelo governo Rollemberg representarão, caso sejam fracionados, em mais 480 residências. Esses novos lotes estão majoritariamente localizados nas pontas de conjuntos, a forma como cada quadra é dividida. Eles foram criados como área pública e verde para assegurar manchas de vegetação natural e que funcionassem para diminuir o grau de impermeabilização do solo. A venda dessas passagens se assemelha à venda dos lotes em becos da cidade do Gama, só que em proporções maiores. Para a Terracap, contudo, a comercialização desses 60 lotes, a preços atuais de mercado, pode representar um aporte de receita superior a R$ 300 milhões.

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Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, do semanário Brasília Capital.

Comércio polêmico

A segunda novidade na proposta de Diretrizes Urbanísticas do Park Way é a introdução de áreas para comércio. Como dito, antes, quando criado, o bairro era exclusivamente residencial. Comércio só na Vargem Bonita e no Núcleo Bandeirante.

O debate sobre a introdução de comércio no Park Way é tão antigo quanto polêmico, principalmente nas redes sociais. Projetos urbanísticos passados chegaram a prever cinco áreas comerciais então denominadas supermercados. Elas não existem mais na projeto urbano, foram retiradas no governo Arruda, quando da votação do PDOT.

Na nova proposta, cujo mapa de zoneamento proposto é a imagem no alto da página, as manchas em vermelho indicam as áreas verdes que o GDF pretende transformar em lotes comerciais. Nas linhas em vermelho a imagem atual das áreas que passariam a abrigar comércio. As marcas em amarelo, são os novos lotes residenciais.

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O Park Way vem sendo local para a reintrodução de animais silvestres no cerrado da Capital.

Muitos moradores são radicalmente contra o comércio. Entendem que o bairro perderá sua personalidade e passará a vivenciar problemas comuns a outras áreas urbanas do DF, como o trânsito mais intenso, violência, sujeira, insegurança, poluição sonora e ambiental. Lembram que o Park Way não tem coleta e tratamento de esgoto, a coleta de lixo é precária e água e energia já operam no limite.
A defesa desta coletividade é por um bairro ecológico, capaz de preservar os mananciais que beneficiam todo o Distrito Federal. Ressaltam ainda que o Park Way vem sendo local para a reintrodução de animais silvestres no cerrado da Capital.

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Ilhas e galerias

Os que defendem a chegada das lojas falam em pequenas ilhas de comércio de vizinhança tipo padaria e farmácias. O certo, contido, é que qualquer proposta de comércio implica em desmatamento. Atualmente, não existe nenhuma área com previsão para tal fim. Onde não há casa, existe cerrado. Chega a ser contraditório ver de um lado o GDF fazendo um enorme esforço de reflorestamento do Park Way e de outro preparando os tratores para desmatar áreas de vegetação consolidada.

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Para evitar esse desmatamento, uma alternativa seriam galerias comerciais suspensas, passando sobre a EPIA/BR-040, nos moldes existentes de rodovias paulistas e da Europa

Para evitar tal desmatamento, uma alternativa seriam galerias comerciais suspensas, passando sobre a EPIA/BR-040, nos moldes existentes nas rodovias paulistas e da Europa.

A proposta do GDF não usa a técnica de ilhas (vide a imagem no início desse artigo), mas sim de grandes manchas e corredores comerciais.

O primeiro corredor seria próximo ao Aeroporto de Brasília, por de trás da quadra 14. Um polo Multifuncional – espécie de Setor Comercial Park Way -, também é proposto. A idéia não é nova, mas sua localização tem se alterado, governo a governo.

No governo Agnelo, o Polo Multifuncional foi inicialmente previsto para a intercessão da EPIA com a EPDB. Seria uma área circular que envolveria parte da Vila Cahui, em especial no campo de futebol utilizado no passado pelo Guará Esporte Clube, popularmente denomiada de Colina do Lobo.

polo-multifuncional-3-vista-panoramica-brtAgora indicam um longo corredor em forma de asa, margeando a antiga ferrovia da RFFSA. Inicia na quadra 6 do Park Way e termina nas imediações das quadras 17 e 26. Uma passagem subterrânea seria erguida. Ao centro um novo terminal do BRT. Pelas palavras de técnicos do GDF, o atual, próximo a Floricultura do Núcleo Bandeirante, distante a pouco mais de 500 metros, está mal localizado.

Outras duas manchas de terras comerciais são: a extensa área verde delimitada pelas quadras 9, 10 e 11; e a área verde entre as quadras 11 e 13. Na extremidade Sul da quadra 26, também foi projetado comércio. Por fim, as duas margens da via que liga a EPIA à Granja do Ipê, onde funciona a Universidade da Paz, também seriam comercializadas para instalação de lojas.

Não se falou ainda em que tipo de empresas poderão se instalar. Especialistas dizem que o Park Way sozinho não demanda tanto estabelecimento comercial e que para que haja sucesso no empreendimento, ele teria que ser capaz de atrair consumidores de outras localidades do Distrito Federal.

O certo é que o debate recém começou. Novas rodadas devem ocorrer antes do Carnaval. Ao lado da definição das diretrizes Urbanísticas do Park Way, tem a da LUOS que define se um determinado imóvel pode ter comércio, apenas residencia ou de uso misto. Os embates entre moradores GDF e empresários prometem esquentar este ano que começa. E no final, tudo vai parar na Câmara Distrital.

Como se vê, a história se repete: Agnelo se viu obrigado a retirar da CLDF os projetos de LUOS e de PPCUB para evitar desgastes ainda maiores nas eleições de 2014. Rollemberg fará o mesmo?
Feliz 2017.

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