Presidenciáveis de 2010Por Chico Sant’Anna

O mês de junho vai se encaminhando ao final e com ele as definições das candidaturas e coligações às eleições de 2010.

No cenário nacional não há grades novidades, salvo a insistência da imprensa em ignorar que existem outros candidatos além dos três reconhecidos pelo o stablishment. Para a imprensa, os nanicos não existem e ela se esquece que os principais partidos que ai estão na vitrine eram nanicos até outro dia.

Bem, em Brasília é que se desenha um cenário inovador. Inovador não significa dizer positivo, mas apenas diferente da tradição. Desde as primeiras eleições em 1986, quando Brasília escolheu seus representantes para a Assembléia Nacional Constituinte, o Partido dos Trabalhadores se notabilizou por não buscar o poder a qualquer preço. Marcou posição ao não se coligar com outros partidos que não representassem a ética na política. Lauro Campos, embora tenha sido o mais votado na cidade, chegou a perder a sua eleição para Senador Constituinte, pois o PT considerava imoral a figura da sublegenda.

Foi assim nas eleições de 1990, quando lançou Saraiva contra Roriz, na de 1994 e 1998 quando Cristovam Buarque enfrentou o petebista Valmir Campelo, apoiado pelo PMDB, e, depois, contra Roriz, e também nas últimas eleições contra José Roberto Arruda. Era melhor perder com honra do que se juntar a qualquer um.

O eleitor brasiliense, apoiando ou não o PT, sabia o que representava um candidato petista e seus correligionários, a maioria abrigada em partidos menores de esquerda, como o PDT, o PSB, PC do B e PCB. Foi assim que se criaram as frentes populares e democráticas.

Agora a realidade é outra. Dizem os jornais, que os dois principais adversários no cenário local, PMDB e PT vão de mãos dadas às urnas. O PT, que sempre se digladiou com o PMDB, a quem julgava ser o símbolo do atraso político, do nepotismo, do paternalismo político e da corrupção, escolheu o oponente para ir ao altar.

Para surpresa geral da nação, o brasiliense se defronta com um quadro eleitoral tão esdrúxulo que se Stanislaw Ponte Preta ainda estivesse vivo poderia compor uma nova versão para o Samba do Crioulo Doido.

O PT jogou às favas os escrúpulos e se aliou ao PMDB.

O PMDB de Eurides Brito, aquela que foi filmada colocando dinheiro na sacola, filippelli e arrudae de Tadeu Filippelli. Filippelli que até outro dia era braço direito de Roriz e que, no governo de José Roberto Arruda e Paulo Octávio, tinha um espaço estratégico, na Novacap, onde seus apadrinhados atuavam.

No passado, Roriz e Arruda estiveram juntos com Collor. Roriz, que afirmou em uma gravação telefônica, vazada ao público, ser Arruda o ” cara mais safado que existe na política de Brasília”, vira mexe está de conchavo com o líder da Caixa de Pandora.

arruda e rorizO PT chegou a propor CPIs contra Roriz, mas a amnésia contaminou o partido e agora os descendentes de Roriz e Arruda, que estão no PMDB, são parceiros estratégicos.

PMDB e PT marcharão de mãos dadas com o PDT, o PSB e o PCdo B de damas de honra neste casamento que tem tudo pra dar errado. Na prática, o PT não terá nenhum candidato aos cargos majoritários. Isso pelo fato de que os cargos ao Senado terem sido preenchidos com as candidaturas de Cristovam Buarque, PDT, e de Rodrigo Rollemberg, PSB.

A candidatura ao GDF é de um neófito na legenda. Agnelo Queirós, até ontem era filiado ao PCdoB. Dizem os corredores da Esplanada dos Ministérios que a transferência de Agnelo para o PT foi uma obra do presidente Lula que não queria ver nem Cristovam nem Geraldo Magela candidatos ao Buriti. Agnelo, mesmo depois dos escandalos do Mensalão, não tem se preocupado em selecionar as pessoas  que tem frequentado e até deixado ser fotografado. Dentre seus companheiros de flash, Delúbio Soares, como registra a objetiva do Blog da Paola Lima.

 

Magela é o grande perdedor deste processo. Embora Agnelo e Delubiofundador do PT, foi preterido pelas forças organizadas por Chico Vigilante, o grande arquiteto da candidatura Agnelo e da costura heterodoxa que reúne Filippelli e os petistas amparados pelos pessebistas e pedetistas. Além de não conquistar a vaga ao GDF, Magela foi alijado na escolha das duas candidaturas ao Senado. Sobrou apenas disputar uma vaga para Deputado Federal.

roriz e rollembergOutras curiosidades neste casamento: Até outro dia, Rodrigo Rollemberg trocava sorrisos e abraços com Joaquim Roriz. Será que se a gravação do dinheiro da bezerra não tivesse aparecido e se Roriz não tivesse renunciado ao Senado para não ser cassado e ficar inelegível, a dobradinha do PSB não teria sido com Roriz?

Outra dúvida: em 22 de setembro de 2009, Cristovam se reuniu com Roriz.cristovam e roriz

Segundo o Blog do Calado, a reunião visava a hipótese de uma candidatura que viabilizasse a candidatura de Ciro Gomes e, por conseqüência, poderia colocar Roriz e Cristovam num mesmo palanque.

E como explicar a presença do ex-comunista  Augusto  Carvalho, ex-secretário de Saúde do governo Arruda, na chapa do PT?

O PPS no cenário nacional está com Serra. Seu presidente, Roberto Freire, é um dos principais críticos do governo Lula. Em Brasília, Augusto Carvalho também não perdoa os petistas; Historicamente é um adversário do PT. Mas o pragmatismo falou mais alto e Augusto Carvalho e seu PPS-DF num passe de amnésia esquecem os Democratas de Arruda e deverão embarcar na candidatura PT-PMDB. Para assegurar uma vaga, vale qualquer coisa.

Cristovam Buarque, à imprensa, disse que a coligação Agnelo/Filippelli, onde cabem todo mundo (faltou apenas convidar o Roriz), não tem direito de perder. Reconheçamos que a primeira vista é uma reunião de forças quase que imbatível. Mas ela nos deixa algumas questões.

Para o eleitor tradicional do PT, uma eventual vitória de Agnelo (ex-PCdoB), Filippelli – PMDB (ex-Roriz e ex-Arruda), Cristovam Buarque – PDT (um dos principais críticos do governo petista no Senado) e Rodrigo Rollemberg (PSB) está longe de representar uma vitória do PT. É uma vitória dos vizinhos.

Convenção chapa pt 2010

Nomes tradicionais do PT, como Geraldo Magela, Arlete Sampaio, Erika Kokai, Chico Floresta, Wasny De Roure, dentre outros, assistirão das arquibancadas. Poderão estar na primeira fila, mas estarão nas arquibancadas, apenas aplaudindo e assistindo de fora os rumos de um governo cujos principais nomes não são do PT.

Toda esta arquitetura política, mais parece uma vitória daqueles que não medem esforços para chegar ao poder. Uma vitória onde os meios justificam os fins. A grande surpresa, contudo, pode vir do eleitorado. Além é claro do surgimento de novos vídeos, ou da abertura do inquérito da Polícia Federal sobre a Caixa de Pandora, que, segundo alguns, atinge 22 em cada 24 políticos da cidade.

O eleitorado ficou ofendido com as orações da propina, com as meias e cuecas cheias de dólares e reais. Sua esperança seria uma opção partidária que refutasse toda esta prática. Mas se vê diante de duas opções hegemônicas Roriz e Agnelo/Filippelli que só reforçam a prática até aqui condenada.

O eleitorado pode muito bem optar por um novo caminho, por um dos partidos que a imprensa ignora, como já o fez no passado com o PT. As pesquisas ainda não mostram, mas candidatos tidos como pequenos estão começando a ocupar espaço. A mídia cumpriria melhor o seu papel social, se desse espaço equânime para todos, promovesse debates, enfim, fornecesse as condições para que o eleitorado possa se informar devidamente. Este é o cenário que passamos a ter em julho com as candidaturas definidas. Vamos ver como se definem os eleitores.

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