Por Chico Sant’Anna

O Brasil tem experimentado nos últimos anos um crescimento impar. A economia, de maneira geral vai bem: a renda média cresceu, o nível de emprego também, mas cada vez mais o país tem mandado para o exterior toneladas de dólares a titulo de lucros e dividendos do capital estrangeiro investido aqui dentro. Não é segredo para ninguém que o Brasil aliviou os efeitos da crise de 2009 com o envio de recursos para as matrizes.

A cobiça internacional não se satisfaz em investir dinheiro em novos projetos no Brasil, prefere comprar os nacionais já existentes. O álcool brasileiro, que foi rebatizado de etanol, assim tipo petrobrax, é alvo do capital internacional. Fazendas e usinas são adquiridas por multinacionais do porte da Shell.

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Grandes complexos empresariais brasileiros, alguns até com tradição secular, não passam despercebidos. Uma verdadeira pantomima é elaborada para dar a impressão que é o Brasil gigante quem está saindo ganhando. Assim foi com a AmBev. Da fusão de duas arquiinimigas, Brahma e Antártica, surgiu o que seria a maior cervejaria das Américas, tão grande, que compraria uma parcela da toda poderosa Interbrew. Ledo engano, a Imbev que resultou das negociações, e que nasceu com uma meta de faturar 9,5 bilhões de euros anuais, é quem controla o nosso guaraná antártica e nas contas nacionais, o volume de dólares repatriados não desce nada redondo. Perdeu o Brasil, que tinha duas empresas 100% nacionais, sem a necessidade de mandar um centavo sequer para o exterior.

Assistimos, agora, à outra aquisição maquiada de fusão entre a TAM e a Lan Chile. A empresa chilena não mede esforços para ser uma das maiores da América Latina. Já criou a Lan Argentina, Lan Equador e a Lan Peru. Em 2009 chegou a reunir convivas no Copacabana Palace para anunciar o projeto de criar a Lan Brasil. Deve ter mudado de idéia, preferindo comprar a TAM, empresa, assim como a Brahma e Antártica, já estruturada e com uma bela fatia do mercado da aviação. Seguindo a mesma receita da AmBev, a chamada “fusão” das duas empresas, nada mais é do que a posse do controle acionário pelos chilenos.

Uma arquitetura jurídica para driblar a lei brasileira que não permite grupos estrangeiros no comando de empresas de aviação, o intercâmbio de ações daria aos chilenos a posse do patrimônio da TAM, mas deixando a gestão com os brasileiros. Na prática, os brasileiros seriam testa de ferro dos chilenos, até que uma mudança de legislação, já em exame no Congresso Nacional, venha permitir uma maior parcela de controle externo. Para qualquer nação que deseja ser um player mundial, a existência de uma empresa aérea nacional é fundamental. Imagine o governo brasileiro estar pedindo aos chilenos a abertura de uma linha aérea ligando a África ao nosso país.

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O Brasil há teve prejuízo de bilhões de dólares com o extermínio da Varig. Como não foi possível às empresas brasileiras repor a operacionalização de todas as rotas, muitos passageiros se viram obrigados a usar empresas internacionais. Quem soube ocupar bem este espaço foi a portuguesa TAP, que tem hoje nas rotas pra ex-colônia as melhores fatias do seu ganha-pão. Passageiros que antes voavam Varig, hoje voam TAP, Air France, Lufthansa, dentre outras.

Agora, assistimos impávidos os arranjos entre Pão de Açúcar e Carrefour. Outra vez, a opinião púbica é informada como se o Pão de Açúcar estivesse comprando o braço brasileiro da rede francesa (será que nossos jornalistas especializados em economia não conseguem transmitir a verdade dos negócios?). Como no caso da TAM, tudo depende do ângulo em que você analisa o negócio. Pelo o que foi publicado até agora, o Pão de Açúcar terá o controle do braço do Carrefour Brasil, mas o que não falam – pelo menos não abertamente – é que o Carrefour França será dono da metade do Pão de Açúcar. Como o grupo francês Casino, rival do Carrefour, já é dono de uma fatia próxima a 1/3 do Pão de Açúcar, teremos uma situação em que 80% da nova empresa estará sob o controle de multinacionais.

É a desnacionalização da maior empresa de varejo do Brasil, que já teve presença em Portugal e Angola. Fundado em 1948, conta com mais de 70 mil funcionários, cerca de 1.582 lojas e escritórios distribuídos em 13 estados brasileiros. É dono do Ponto Frio e das Casas Bahia. É bom lembrar que as redes Extra, Sendas e CompreBem pertencem ao grupo Pão de Açúcar.

O Carrefour, criado em 1959, conta com mais de 56 mil colaboradores, está presente em 16 Estados com 440 pontos-de-venda (111 Hipermercados, 35 Supermercados, 260 Maxidescontos e 34 lojas Atacadão), trabalha com as bandeiras Carrefour, Carrefour Bairro, Dia e Atacadão. Está presente em 19 países e com mais de 7.000 pontos-de-venda. A operação brasileira foi a primeira no continente americano, iniciada em 1975. Num passado recente, eliminou a concorrência, adquirindo as redes regionais de porte médio, como Planaltão, Roncetti, Mineirão, Rainha, Dallas e Continente. A mais recente aquisição, para alcançar a liderança do mercado brasileiro, foi do Atacadão, elevando o Carrefour Brasil à posição de 4º país em faturamento no grupo (R$17,9 bilhões), atrás de França, Espanha e Itália.

Quem ganha com toda esta concentração monopolista do varejo nacional? Apenas os seus donos, em especial o Sr. Abílio Diniz, que espera contar com apoio do BNDES da ordem de R$ 4 bilhões para concretizar suas ambições.

Quem perde? Perde em primeiro lugar o consumidor, que terá diante de si uma oferta de produtos sem concorrência, com preços arranjados e variedade de produtos mais estreita. Sendo obrigado, em muitos casos, a comprar a marca da casa. Ao lado do Walmart, Carrefour e Pão de Açúcar já controlam 50% dos alimentos comercializados no Brasil, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e são responsáveis pela maior parte dos 20 mil produtos com marcas próprias lançados anualmente.

Perde o contribuinte e, principalmente, o trabalhador que recolhe FGTS. Estes recursos do BNDES, provenientes do Fundo Amparo ao Trabalhador e de receitas do Tesouro Nacional, poderiam ser usados para a construção de casas, redes de saneamento, ou mesmo para o surgimento de novas empresas.

O trabalhador ainda corre o risco de usarem seus FGTS para reduzir a oferta de emprego e até de salário. Com um mercado na mão de um só dono, para evitar o canibalismo, estabelecimentos poderão ser fechados, servidores demitidos e os demais com salários congelados.

Perde o Brasil, pois além de desestimular a livre concorrência, tão propalada pela ideologia capitalista, verá, mais uma vez, a riqueza nacional – os lucros desta imensa nova rede -, voarem para o velho continente, financiar o combate a crise que por lá ronda e não a prosperidade de seu povo.

Nossos governantes precisam ler – ou reler – o já clássico livro de Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina. Como ele demonstra, historicamente, desde os descobrimentos, a América Latina financia o desenvolvimento do primeiro mundo à custa do empobrecimento local. Será que não chegou a hora do Brasil mudar o curso da história?