Pelo traçado de 2009, o trem Brasília-Goiânia não teria sua estação terminal no centro da capital goiana, mas sim no bairro periférico Vila Matinha, às margens da GO-10

Agnelo Queiroz, PT-DF e Marconi Perilo, PSDB-GO, que tem sido vistos juntos nas manchetes de jornais sobre a CPI do Cachoeira, deverão estar juntos agora para a assinatura do convênio do trem Brasília-Goiânia.

Por Chico Sant’Anna, publicado originalmente na  Brasil 247

Um acordo de cooperação entre o governo federal, o Distrito Federal e o estado de Goiás deve ser assinado nesta quinta-feira (28/06), para definir as regras e os estudos iniciais, além da modelagem para concessão e operação da linha de trem que ligará Brasília à Goiânia.

Os governadores Agnelo Queiroz, PT-DF e de Goiás, Marconi Perilo, PSDB-GO, que tem sido vistos juntos nas manchetes de jornais sobre a CPI do Cachoeira, deverão estar juntos agora para a assinatura do convênio.

Em setembro de 2009, segundo o jornal Diário da Manhã, o Expresso Pequi na versão trem bala teria sido orçado em R$ 5 bilhões e na versão mais lenta, R$ 1 bilhão. Tudo a preços de 2009. Agora, segundo informes da Sudeco, o governo julga ser possível executar o projeto do trem com R$ 600 milhões por meio de parceria público-privada (PPP).

Além dos custos, o poder público deverá enfrentar outro grande problema: um grande lobby organizado por empresas montadoras de ônibus e proprietários de companhias de transporte coletivo urbano e intermunicipal. Em volume de passageiros, cada viagem de trem pode representar até 10 ou 15 vezes o total de passageiros transportados em ônibus. Ou seja, cada trem tira de 10 a 15 ônibus de circulação.

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Há muito se fala em dois ramais de trem saindo de Brasília: o primeiro seria mediante o aproveitamento da linha já existente do extinto Trem Bandeirantes da Rede Ferroviária Federal, privatizada no governo de Fernando Henrique Cardoso. Seriam 70 quilômetros ligando a rodoferroviária de Brasília e a cidade de Luziânia. Os custos da obras de adaptação são estimados em 70 milhões de reais e a linha poderia atender uma população estimada entre 800 mil e um milhão de pessoas que moram no Entorno Sul do DF, Gama e Santa Maria, além do Park Way, Núcleo Bandeirantes, Guará e Setor de Indústrias e Abastecimento.

O segundo ramal seria a construção de uma linha de aproximadamente 200 Km de extensão, interligando Brasília a capital goiana, com paradas nas cidades de Anápolis e Alexânia. É esta segunda linha que será alvo de um acordo de cooperação entre o governo federal, o Distrito Federal e o estado de Goiás.

A ligação ferroviária entre as duas maiores cidades do Centro-Oeste vem sendo idealizada há muito tempo e ganhou até a alcunha de “Expresso Pequi”, em alusão ao fruto utilizado amplamente na culinária goiana. No período eleitoral de 2004, a proposta ganhou eco na candidatura de Joaquim Roriz. De concreto, resultou apenas em uma série de viagens internacionais de políti­cos e técnicos a países onde projetos semelhantes já foram implantados. Em 2009, em Pequim, na China, o então governador de Goiás, Alcides Rodrigues, e o presidente da Valec a época, José Francisco das Neves, o Juquinha, anunciaram a implantação de um trem de alta velocidade – TAV, com tecnologia chinesa. O trajeto seria feito em 1h30  a uma velocidade de 180 km por hora.

Pela promessa lançada naquela ocasião, o trem já deveria ter entrado em operação neste ano. No ano seguinte, em 2010, o presidente da Valec voltou a anunciar o lançamento das obras de construção da ferrovia para o TAV. No início de seu governo, a presidente Dilma Roussef mandou a Valec suspender uma série de licitações de projetos ferroviários, por suspeita de superfaturamento.

Agora, quem está empenhada na obra é a recém ressuscitada Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste – Sudeco, vinculada do Ministério da Integração Nacional. “Estudos do IBGE e IPEA apontam que até 2027 essa região alcançará 20 milhões de habitantes e será a segunda conurbação do Brasil”, afirma Marcelo Dourado, superintendente da Sudeco para justificar a execução da obra. Atualmente, o eixo da BR-060 já abriga cerca de 7 milhões de pessoas

A nova versão não deve ser mais um TAV, mas sim uma linha mista que comporte carga e passageiros. Segundo Dourado, o Centro-Oeste concentra um dos maiores PIB do país, “daí a importância do trem para transporte de cargas e passageiros”, explica Dourado.  Desta forma, a velocidade média do novo Expresso Pequi deve cair de 180 km para uma média de até 150 Km/h e estações intermediárias, dependendo da demanda poderão ser criadas.

A execução desta linha deve provocar um boom imobiliário no eixo Brasília-Goiânia com o surgimento de novos aglomerados urbanos ou adensamento dos já existentes. Como acontece em muitas cidades do exterior dotadas de trem regionais, a classe média opta por morar com mais comodidade e espaço em localidades mais distantes, porém dotadas de transporte ferroviário de alta qualidade. Conhecer, portanto, quem são os proprietários das terras por onde irá passar o trem se torna altamente estratégico. É possível até, como aconteceu no trem bala Rio-São Paulo, que antes mesmo da obra começar os especuladores saíram comprando muitos terrenos e glebas.

Na versão de 2009, o trem sairia da Rodoferroviária, localizada na confluência do Eixo Monumental com a EPIA , mas não chegaria ao centro de Goiânia e sim no bairro periférico de Vila Matinha, às margens da rodovia GO-010. Isso pode ser um ponto negativo ao projeto. Como dito antes, nos principais centros da Europa, a grande vantagem de se viajar de trem é que ele permite a chegada das pessoas nos centros das cidades, ao contrário dos aeroportos, normalmente mais distantes.