O ANÚNCIO DA IMPLEMENTAÇÃO DE UM CORREDOR DE ÔNIBUS INTERLIGANDO O AEROPORTO E A ASA SUL DE BRASÍLIA ENTERROU DE VEZ A MODERNIDADE DO TRANSPORTE COLETIVO NA CAPITAL FEDERAL

Por Chico Sant’Anna, publicado originalmente na Brasília 247

Uma notícia que passou despercebida da imprensa local – qual teria sido a razão? – enterrou de vez a modernidade do transporte coletivo em Brasília e sentenciou a Capital Federal por, pelo menos, mais 30 anos de submissão à máfia do transporte coletivo local.

Projeto original do VLT previa ligação do aeroporto às proximidades da ponte do Bragueto, contribuindo para revitalização da avenida W.3.Novaproposta substitui VLT por ônibus.

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Na terça-feira, 14/8, o ministério das Cidades e o governo do Distrito Federal (GDF) assinaram um convênio pelo qual a interligação do Aeroporto Internacional de Brasília ao início da Asa Sul passará a ser feita por um corredor de ônibus e não mais por uma linha de VLT, como anteriormente previsto. Curiosamente, Agnelo, que em janeiro deste ano prometera implantar a primeira fase do veículo leve sobre trilhos, não foi assinar o contrato, mandou seu vice, Tadeu Filippelli. O governo federal vai investir nestas obras R$ 100 milhões e a introdução dos chamados VLTs tramway (uma espécie de bondes elétricos modernos) fica adiada sine die.

No Eixo Monumental, o VLT cobriria da Praça dos Três Poderes até o Memorial JK, reduzindo o volume de carros no trânsito e eliminando a necessidade de se construir garagens subterrâneas na Esplanada dos Ministérios.

Confira no vídeo o trajeto do VLT

Com esta decisão, o governador Agnelo abandona de vez todo o projeto de mobilidade urbana feito no passado. O projeto previa três linhas de metrô, uma de VLT e, pelo menos, duas de veículos leves sobre pneus – VLPs (uma espécie de ônibus elétrico articulado).

Desde que assumiu o governo, Agnelo não demonstrou publicamente nenhuma simpatia ao projeto de mobilidade urbana elaborado na década de 90 e que, indiferente à coloração dos partidos no poder, vinha sendo aplicado governo após governo. Na prática, era um projeto de estado e não de governos. A decisão de Agnelo submete a população do DF à escravidão de um serviço de transporte urbano baseado em ônibus, de tecnologia obsoleta e ultrapassada.

Analistas do setor de transporte veem na decisão do GDF uma submissão aos empresários que monopolizam o transporte público na capital e que teriam muito a perder com a introdução das duas novas linhas de metrôs, com o VLT e os VLPs. Além de perderem passageiros e renda, pela sofisticação do sistema, dificilmente os donos dos ônibus coletivos da cidade teriam capital e conhecimento técnico para operá-los. Haveria, ainda, grandes interesses do Palácio do Planalto em substituir os veículos elétricos pelos tradicionais ônibus a diesel, pois assim dar-se-ia um empurrãozinho nas montadoras de ônibus que, como todos sabem, emprega a principal base sindical do Partido dos Trabalhadores, qual seja: os metalúrgicos. Só a licitação recém lançada pelo GDF implica na aquisição de 900 ônibus.

Projeto original do metrô-DF previa três linhas. Em 2007, uma quarta linha para Sobradinho e Planaltina foi desenhada. Agora, tudo vai ser ônibus.

Plano de Mobilidade

Elaborado na década de 90, e tendo atravessado administrações dispares como a de Roriz, Cristovam, Arruda e Rosso, o projeto só foi parcialmente implantado com a linha 1 do Metrô que liga o Plano Piloto à Ceilândia e Samambaia. Esta linha não está acabada. Para completar, se faz necessária a sua expansão até o final da Asa Norte com oito novas estações. Do lado de Samambaia e Ceilândia faltam, em cada via, duas estações. A expansão dessas duas linhas está prevista na verba do PAC da Mobilidade a ser custeado pelo governo federal. No plano Piloto, apenas uma estação, a do Setor Comercial Norte, está prevista de ser executada. Até agora, contudo, nenhum sinal do edital de licitação. A morosidade parece ser a marca dessa administração do GDF.

Além destas obras, nesta linha 1 do metrô, ainda precisam ser finalizadas três estações no Plano Piloto – a da 104 Sul, a do Cine Brasília, na 106 Sul, e do antigo cine Karim, na 110 Sul. No percurso até Taguatinga também foram abandonadas as estações “Estrada Parque”, em Águas Claras, próximo à faculdade Processus, e a Oynoyama, no parque homônimo. Por uma questão de mobilidade e civilidade humana, creio que deveriam ser criadas ainda uma estação em frente ao Hospital de Base e outra em frente ao Hospital Regional da Asa Norte – HRAN. Os pacientes agradeceriam.

As duas outras linhas estão apenas no papel. A linha 2, denominada Inter-satélites, interligaria Ceilândia, Samambaia, Taguatinga Norte, Recanto das Emas, Riacho Fundo 2, Gama e Santa Maria. A interligação dessa linha 2 à linha 1 aconteceria no Setor O de Ceilândia e em Taguatinga, nas estações Praça do Relógio e Taguatinga Sul, permitindo que todos os moradores pudessem usufruir da comodidade de um transporte confortável, seguro e confiável que é o metrô.

A Linha 3 partiria de uma estação comum à linha 2, na altura do Balão do Periquito, na confluência de Gama, Recanto das Emas e Riacho Fundo II. Ela atenderia parte do Park Way, Núcleo Bandeirantes, Candangolândia, Octogonal, SAI, Sudoeste, Cruzeiro e, na altura da antiga rodoferroviária, desceria, pelo Eixo Monumental, até a Praça dos 3 Poderes.

Mais recentemente, em 2007, foi elaborado o projeto do que seria a Linha 4 do metrô, ligando a Asa Norte, na altura da Ponte do Bragueto – onde estariam as estações finais do VLT e da linha 1 do metrô – a Sobradinho, aos condomínios do Colorado e a Planaltina. Este projeto com a atualização do plano estratégico de transportes do DF, está guardado em alguma gaveta do Buriti.

A execução destas linhas retiraria em muito o trânsito de carros pelas vias do DF, eliminando, inclusive, a necessidade de ampliação de diversas estradas e vias.

VLT e VLP

A este sistema de metrô com três linhas se somaria a linha do VLT. Partindo do Aeroporto Internacional de Brasília, ele teria ponto final no Estádio Mané Garrincha- conforme prometido no caderno de obrigações da FIFA -, com paradas no Jardim Zoológico, Estação Rodoviária, Estação de Integração no Setor Militar Urbano, além de percorrer toda extensão da avenida W-3 Sul. Numa segunda etapa chegaria às proximidades da Ponte do Bragueto, na Asa Norte.

O projeto de mobilidade urbana de Brasília contaria ainda com duas linhas de Veículos Leves sobre Pneus. Uma espécie de ônibus elétricos, que circulariam inicialmente em dois eixos: o da Estrada Parque Taguatinga e o da BR-40. No primeiro trajeto, ele usaria a EPTG adaptada para seu uso. No segundo, a mesma filosofia. A linha interligaria o Gama e Santa Maria ao Plano Piloto e contaria com interligações ao sistema metroviário.

Com a introdução de todo este projeto a frota de carros circulando no DF, que em abril passado era estimada em 1.370.251 carros – sem contar os que são emplacados nos municípios do Entorno – e que tem crescido igual criação de coelho, a uma velocidade de quase 7% ao ano, e que agora conta com o incentivo do IPVA zero para abarrotar ainda mais as nossas vias – se reduziria substancialmente, pois o brasiliense poderia contar com um serviço de transporte público eficaz, confortável e confiável.

No lugar de veículos elétricos, silenciosos, confortáveis e não poluentes, permanecerão os ônibus articulados cujo coforto e capacidade o brasiliense já conhece. Foto: Divulgação

Mas tudo isso foi para o lixo.

As duas linhas de VLP vão ser exploradas pelos bons e velhos ônibus a diesel, montados sobre chassi de caminhões, sem qualquer conforto. A única diferença é que circularão por vias expressas – que deveriam ser dos VLPs – e por isso terão portas do lado esquerdo, pois as estações serão edificadas no que é hoje o canteiro central das vias.

A tecnologia dessas vias é a mesma desenvolvida na década de 80 para cidades como Curitiba e Goiânia e já se encontram defasadas. Até mesmo estas estações já estão superadas. Elas foram boladas para garantir a possibilidade de baldeações com outras linhas – a chamada integração – sem o risco de penetras entrarem nos ônibus sem pagar. Hoje, estas estações são substituídas por cartões magnéticos ou eletrônicos, onde o sistema informatizado verifica se o passageiro precisa ou não pagar novo bilhete. Bem mais prático e barato. Mas às empreiteiras da construção civil o importante é construir as paradas.

Cidades como Quito, capital do Equador, que utilizam o sistema de ônibus BRT, priorizado agora por Agnelo Queiroz, já estão migrando para o metrô, pois o sistema não dá a vazão necessária. Quito tem uma população próxima à de Brasília, mas uma frota de carros equivalente a um terço da candanga. Até mesmo Curitiba já está construindo linhas de metrô no mesmo trajeto onde antes passavam linhas expressas de ônibus.

Na China, Agnelo conheceu modernos ônibus elétricos, que dispensam cabeamento aéreo das vias, mas optou pelo poluente diesel. Foto: Divulgação GDF

Nem mesmo a recente visita que o governador Agnelo fez a uma fábrica chinesa de ônibus elétrico foi suficiente para que ele garantisse um salto de qualidade no transporte da capital. Pelo edital de licitação, recentemente lançado para renovar a frota de ônibus da capital, os novos ônibus serão mais do mesmo. Não há previsão do uso da energia elétrica como combustível. Nem mesmo se cogitou o uso de gás natural – que já chega a Brasília via gasoduto de Petrobrás – mais barato, mais econômico e menos poluente.

Para a alegria das montadoras, a quantidade de ônibus circulando na capital terá que ser bem maior. Os ônibus têm capacidade limitada para atender a demanda de passageiro. No eixo Gama-Santa Maria-Plano Piloto, nos horários de pico, ela é estimada em 24 mil passageiros/hora. Já no Eixo Ceilândia, Taguatinga, Samambaia-Plano Piloto, a estimativa é de 80,2 mil passageiros/hora.

Enquanto uma composição do metrô transporta em cada viagem 1.340 passageiros e o VLP é capaz de transportar 250 passageiros, os ônibus transportam apenas 70 passageiros e, se forem articulados, 120 passageiros. Numa conta simples, serão necessário dez ônibus articulados para transportar o mesmo volume de gente de uma viagem de metrô. Mais ônibus nas ruas significa trânsito pesado, necessidade de ampliações da malha viária e, é claro, a alegria de um segmento empresarial que em Brasília nunca se preocupou com a qualidade do transporte coletivo.

Vitalização da W.3 Sul

Ao abandonar o projeto de VLT, Agnelo joga ainda um balde de água fria nos empresários e moradores da W.3 Sul. Desde o governo do general Médici, na administração do coronel, Hélio Prates da Silveira, que fechou os estacionamentos e, à época, proibiu que taxis parassem ao longo da avenida, que a W.3 vê sua decadência crescer a cada dia. No primeiro governo Roriz, uma chama de esperança se acendeu quando a idéia do metrô era passar ao longo da W.2, entre as quadras 300 e 500. Mas forças ocultas mudaram o trajeto para o Eixão, onde ninguém mora e seria necessário andar muito até chegar a uma estação. Ganharam os empresários dos ônibus, sempre bem próximos ao poder.

O VLT e a conseqüente retirada dos ônibus daquela avenida deixariam o trânsito mais humanizado, moradores – hoje massivamente idosos – poderiam se deslocar pelo Plano Piloto sem a necessidade de retirar seus carros de casa ou se enfronhar em ônibus superlotados. Com um transporte limpo e silencioso, supermercados, lojas de departamento, inclusive bares e restaurantes poderiam voltar ao local, hoje, uma espécie de gueto brasiliense.

A desculpa oficial é que as obras não ficariam prontas a tempo da Copa do Mundo ou a das Confederações. Esta desculpa já foi usada por Agnelo para não executar integralmente a obra do VLT. No início do ano, em entrevista a um noticiário matutino de uma rádio da cidade, Agnelo, disse que iria licitar apenas o primeiro trecho, entre o Aeroporto e a estação de integração, próxima ao zoológico, para que não houvesse canteiros de obras abertos quando da chegada dos turistas. Na ocasião, não havia mais nenhum impedimento judicial sobre a obra, bastaria lançar um novo edital. A morosidade mais uma vez reinou no GDF- isso se não tiver sido proposital – e a licitação nunca saiu. Agora, em apenas 20 dias a contar da assinatura do convenio com o ministério das Cidades já se saberá quem é a empresa vencedora da linha expressa de ônibus. Quanta eficiência!

Estas linhas expressas de ônibus, além de obsoletas trazem outro mal a Brasília. Nossas Estradas Parques – que levam este nome por serem cercadas de verde – estão desaparecendo, dando lugar ao asfalto e ao cimento. Logo, logo, teremos problemas de drenagem das águas das chuvas, como acontece em São Paulo. Com tudo pavimentado, a água não penetra no solo. Redes de galerias de águas pluviais terão que ser redimensionadas – mais gastos! – para dar vazão aquela água que poderia ter sido absorvida pela natureza. A EPTG remodelada já deu sinais de pontos de inundação.

A nova pista cortaria áreas de proteção ambiental ejogaria sobre o Lago Norte parte do movimento de carrosprovenientes de Sobradinho ePlanaltina.

Áreas que hoje abrigam a vegetação natural e nascentes de rios e riachos que abastecem o Paranoá também estão na mira dos tratores do GDF. Com a desculpa que irá aliviar o caos no trânsito dos quem vem de Planaltina e Sobradinho, das pranchetas dos engenheiros e urbanistas de Agnelo saiu o projeto de um verdadeiro crime ambiental. O projeto prevê a construção de um novo acesso ligando Sobradinho ao Plano Piloto. Só que para isso, seria necessária a construção de uma verdadeira auto-estrada atravessando extensa área de preservação ambiental, o Parque das Nascentes, perto da recém inaugurada Torre Digital.

Pela proposta, a via atravessaria a Serrinha do Paranoá, o núcleo rural Jerivá e afetaria o Parque das Nascentes. De tão importante para o ecossistema do DF, este local foi escolhido, em 2011, para se comemorar o Dia do Cerrado. O Córrego do Jerivá é um dos afluentes que alimentam o Lago Paranoá, pelo lado Norte. Estes córregos e os Núcleos Rurais, ao longo dele, são responsáveis pela manutenção da boa qualidade da água do Lago. Os núcleos rurais localizados na Serrinha do Paranoá, bem como suas áreas adjacentes, são responsáveis pelo Corredor de Biodiversidade que une as áreas protegidas do Jardim Botânico, a reserva do IBGE e a Fazenda Água Limpa, da UnB, com o Parque Nacional, onde fica a Água Mineral.

Também as margens do lago Paranoá seriam afetadas. O projeto prevê a construção de duas pontes no Lago Norte: uma entre as proximidades do Centro Olímpico da Universidade de Brasília e a Península do Lago Norte e a outra entre a península e o Setor de Mansões do Lago Norte.

Há muitas décadas, a comunidade do Lago Norte se opõe à construção de pontes interligando a Península do Lago Norte e o Plano Piloto. Temem o afluxo de veículos em uma região residencial e acreditam que mais uma porta de entrada na Península do Lago Norte colocará em risco a segurança do bairro. Com uma única entrada e saída – próxima à ponte do Bragueto -, o local é de fácil controle policial. Basta fechar a única passagem e ninguém poderá sair ou entrar. Estrategicamente, já existem delegacia e posto policial nas imediações.

Essas mudanças de rumo adotadas pelo governo Agnelo, substituindo alternativas de tecnologia avançada e limpa por sistemas de transporte ultrapassados e poluentes estão na mira do Ministério Público. Além disso, o Superior Tribunal de Justiça autorizou a investigação do governador Agnelo por supostas ligações com Carlinhos Cachoeira. Nas gravações feitas pela Polícia Federal Cachoeira demonstrou interesse na chamada bacia 1, que representa o transporte em ônibus entre Taguatinga, Ceilândia e Plano Piloto, bem como, na bilhetagem eletrônica do sistema.

A dúvida que fica é se a Justiça e o MP vão ser ágeis o suficiente para evitar que obras desnecessárias tenham início, evitando desperdício de recursos públicos, e se terão êxito em fazer com que o GDF volte aos trilhos.

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