Foto de Giovanni Sá Filho

Poema por Luiz Martins da Silva. Foto de Giovanni Sá Filho

Sopro cansado,
Fole sem dentes,
Fastio.

O passado dança sobre cinzas,
Agarrando-se a razões até razoáveis.

A vitima não foi o fogo?
Esperem só para ver o destino
Da última brasa.

Velho ferro-de-engomar aposentado,
Vivendo de proventos
Em aposentos revestidos
De sempre-verde fantasia.

O boneco de terno azul marinho,
Judas queimando,
Passado na fogueira,
Mas resistindo no peito
A galardia dos brasões.

Haverá sempre um feito nobre,
Um prestígio armorial.

Velho ferro-de-engomar aposentado,
A vida inteira para engomar o caráter dos filhos,
Para que o ferro frio fale
Do valor das brasas.

* Durante anos, convivi com um velho e humilde funcionário. Eu era jornalista e o encontrava frequentemente num órgão público. Ele falava dos filhos “formados”, dos netos e de não ver a hora de se aposentar. Considerava cumprida a sua missão. Este poema é de meados da década de 1970.

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