Você e eu atrás das grades?

Em algumas do DF, as grades precisam estar fechadas diuturnamente. Cidadãolivre é quem fica atrás das grades, para a sua segurança; Foto: Chico Sant'Anna

Em algumas localidades do DF, as grades precisam estar fechadas diuturnamente. Cidadão livre é quem fica atrás das grades, para a sua segurança. Foto: Chico Sant’Anna

Por Marilia Serra. Fotos de Chico Sant’Anna

A violência muda nossos hábitos e interfere na paisagem de nossos bairros. Cercas e grades substituem o verde e fecham os espaços antes transitáveis, em detrimento da arquitetura e do urbanismo sem barreiras idealizados nos anos 60.

E nós, que antes saíamos à noite sem nos preocupar com onde pararíamos nossos carros, agora pensamos duas vezes antes de estacionar, quando não desistimos de sair. Namorar no carro, então?! É como pedir para ser assaltado ou sequestrado!

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Em matéria publicada no Correio Braziliense, em 8/02/2013, a Polícia Militar do DF pede a colaboração da sociedade para diminuir os índices assustadores de sequestros relâmpagos no DF – só em janeiro de 2013, foram contabilizados 65 casos. Numa iniciativa criativa, a PMDF decidiu fazer uma campanha de conscientização para que as pessoas não fiquem dentro dos carros em locais escuros e ermos. A ideia é flagrar desatentos e aplicar-lhes um “Auto de Alerta”, similar a uma multa, com informações sobre como se prevenir contra o crime. Se a pessoa sobreviver ao susto, terá boa chance de aprender com a lição. Como um dos entrevistados do Correio Braziliense disse, melhor ser pego pela Polícia do que pelos criminosos!

Grades = Ceilândia farmácia

O gradil cerrado na fachada dos estabelecimentos, mesmo nos horários de funcionamento, já faz parte da paisagem normal de localidades do Distrito Federal. O que não se esperava é a Polícia deixar de centrar seus esforços nos criminosos e passar a “autuar” os cidadãos honestos. Foto: Chico Sant’Anna.

Entretanto, muitos questionam a campanha por desviar os policiais de suas tarefas de repressão ao crime. Ninguém pode, no entanto, dizer que não estarão fazendo ronda! Pergunto: por que o GDF não gasta parte de sua verba publicitária para fazer a campanha e distribuir os panfletos ao invés de usar os agentes da PM?

Outros criticam o fato de se colocar a vítima como alvo da ação, ao invés de se visar o bandido. A população espera, mais do que campanhas informativas, operações mais ostensivas que abordem possíveis criminosos e não possíveis vítimas, e mais policiamento – não apenas postos de polícia de onde agentes não saem para não deixar o posto sozinho!

Com a campanha, a PM parece querer gerar estatísticas, ao mapear locais mais propícios, e alertar a população para os perigos de se ficar desatento e em lugares escuros e desertos. Será que isso basta? O que podemos fazer para combater essa prática criminosa cada vez mais comum?

Com as redes sociais, temos uma boa lista de contatos com quem podemos trocar informações. Muito mais do que correntes, causas e fofocas, as redes sociais podem ser um bom meio para disseminarmos esse tipo de esclarecimentos.

As vítimas também podem ajudar, divulgando de maneira anônima detalhes dos sequestros: onde estavam, em que horário aconteceu, que tipo de pessoa as abordou, onde foram liberadas, coisas que ouviram durante o tempo em que estiveram sob o poder dos criminosos, coisas que devemos evitar fazer ou dizer, etc.

Vejam as recomendações da PMDF:

– Não namore dentro de veículos, principalmente em locais escuros;

– Ao sair do banco ou do caixa eletrônico, procure observar as pessoas que estão nas proximidades. Se alguma pessoa o seguir, procure um Policial Militar mais próximo;

– Procure não utilizar os caixas eletrônicos durante a noite. Caso tenha que fazê-lo, procure um situado em locais iluminados e com fluxo de pessoas;

– Ao perceber indivíduos suspeitos próximos ao seu veículo, não se aproxime do mesmo.O ato de vir para seu automóvel com as chaves na mão, facilitará a ação dos marginais que estão à espreita;

– Caso seu carro não funcione, feche-o e retorne de onde você veio. Cuidado, pois a pane pode ter sido provocada. Posteriormente, observe ou mande alguém observar se não há estranhos próximos a seu veículo;

– Se apesar de tomar todos os cuidados  citados você for feito refém em um sequestro relâmpago, não se desespere, a calma é fator fundamental para não irritar o marginal, que em muitas das vezes poderá estar mais nervoso que a própria vítima, quase sempre drogado e com uma arma na mão. Por isso, não reaja.

O poder público não se convence de que os investimentos em educação, saúde e segurança devem ser maiores para combater a violência. Investir apenas na repressão é tapar o sol com a peneira. Deve-se, além disso, investir em estudos e estratégias de combate ao crime e no aprimoramento e endurecimento das leis, acabando com indultos e reduções de pena que devolvem às ruas criminosos reincidentes.

Tampouco dissuadir as pessoas de sair de casa resolve o problema. Eu e você não queremos ficar trancados, literalmente atrás das grades, enquanto os bandidos passeiam e gozam de nosso direito de ir e vir, dia e noite à nossa espreita. É dever do Estado assegurar que as pessoas possam sair, estudar, trabalhar, se divertir, sem receio de serem vítimas da violência, que nada mais é do que a ausência de políticas efetivas e de longo prazo – e que não mudem de nome e recomecem do zero a cada novo governo.

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasília - DF, Cidadania, Segurança Pública, Violência & Segurança Pública. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Você e eu atrás das grades?

  1. Flávio Pikana Lemos disse:

    É, a PM está sendo “muito criativa” – essa é uma das maiores orientações dos governos ligados a esse partido – nas formas de orientar. Sabe-se que o crime grassa e vence por todo o Brasil, não só onde governam, é epidemia desenfreada e, não só os desse tipo mas, cada vez mais, os de colarinho branco. Só me parece inaceitável é essa campanha sub-reptícia para deslocar o centro das ações, da relação PM e PC criminosos para a conexão cidadão seu direito constitucional de ir e vir. A população está sendo sufocada pela criminalidade e a segurança pública está perdida e, sempre que se preocupa mais em propaganda enganosa sobre o que deveria fazer, o crime – como o caso dos sequestros relâmpago em janeiro, aumentam.
    Deveriam apenas dar declarações diretas sobre planejamento sem nenhuma dica ou detalhe e “botar para quebrar” na rua. Estão pondo fora os fatores surpresa e a mísera eficiência.
    E, considero o principal, que alguém dê um jeito nessa gente dos “esquerdos humanos” (não direitos) pois querem que policiais se comportem como apóstolos de religião oriental, com paciência, equilíbrio, temperança, enquanto atuam numa verdadeira zona de guerra civil, conflagrada, sem que haja por parte dos cada vez em maior número meliantes qualquer tipo de freio, de controle pois se sentem e se sabem protegidos, inclusive institucionalmente.
    Ou volta o império da lei e o respeito sobre os meliantes ou continuaremos com a CIDADANIA ROUBADA, sem sequer os sagrados direitos de ir e vir e até de existirmos como pessoa humana!

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