Texto e fotos por Chico Sant’Anna

Brasília é rica em artistas plásticos. Nomes como Glênio Biancheti e Athos Bulcão já romperam as fronteiras do País e são reconhecidos internacionalmente. Mas a criatividade se esconde entre vários moradores da Capital Federal e nem sempre eles contam com a visibilidade merecida para as suas obras.

Hoje, o blog Brasília, por Chico Sant’Anna abre mais um espaço para revelar as facetas escondidas desta cidade. Facetas nem sempre divulgadas pela imprensa, que prefere voltar seus holofotes para os escândalos da Esplanada dos Ministérios.

Inauguramos, pois, o espaço o espaço Você conhece os Artistas Plásticos de Brasília? Para ele, contamos com sugestão dos leitores. Não importa o estilo: pode ser pintura, escultura, xilogravura…, vale todas as técnicas das artes plásticas.

Professora de matemática, aposentada, Celeste trocou os bordados pelo mosaico. Foto: Chico Sant'Anna
Professora de matemática, aposentada, Celeste trocou os bordados pelo mosaico. Foto: Chico Sant’Anna

Nossa artista tema de estréia desta coluna é Celeste Liporoni. Dona de casa, mãe, professora de matemática, aposentada da rede pública de ensino. Celeste se dedicou primeiro aos bordados. Chegou, inclusive, a presidir a Associação das Bordadeiras de Taguatinga – DF. Da delicadeza das agulhas de ponto crochê e ponto em cruz ela migrou para a torquês, alicate que exige força para cortar cerâmicas e azulejos.

Uma arara multicolor, feita em mosaicos de azulejos, recebe o visitante. Foto: Chico Sant'Anna
Uma arara multicolor, feita em mosaicos de azulejos, recebe o visitante. Foto: Chico Sant’Anna

Moradora da cidade de Vicente Pires, no Distrito Federal, de onde foi administradora regional, Celeste transformou sua casa em oficina-atelier e salão de exposição. Sua arte é vista já na porta de chegada. Uma arara multicolor, feita a partir de caquinhos de azulejos, recebe o visitante.

Alem dos mosaicos, Celeste tem sempre ao seu lado um caderno espiral, do tipo universitário, onde registra seus pensamentos. Certa vez, definindo o que é ser mulher, escreveu:

Ser mulher é dominar os obstáculos que surgem no seu dia a dia, conduzindo com força e determinação seus planos de mãe, esposa, filha, empresária, funcionária, trabalhadora, educadora e etc. É orgulhar-se de ter vindo ao mundo para completar e preencher momentos com pessoas que fazem parte da sua vida.

A Wikipédia nos informa que o termo “mosaico” tem origem na palavra alemã mouseen, a mesma que deu origem à palavra “música“, que significa “próprio das musas“. É uma forma de arte decorativa milenar, que nos remete a 1438, à época grecoromana, quando teve seu apogeu. Na sua elaboração foram utilizados diversos tipos de materiais e teve diferentes aplicações através dos tempos.

Pois é com uma técnica que remonta ao século XV que Celeste adorna os quatro cantos da Capital do novo milênio. Seus mosaicos estão presentes em colégios, estações de metrô, residências particulares, igrejas, até em posto de gasolina. Suas obras são presença obrigatória nas exposições que acontecem no Distrito Federal.

Celeste mostra com orgulho o álbum de fotos de suas obras. Como quem quer demonstrar suas preferências, se demora mais nas imagens de um painel coletivo, sobre Athos Bulcão – feito em conjunto com colegas de arte para ilustrar uma estação do metrô -, nas poesias em pedra, afixadas nas laterais da biblioteca demonstrativa de Brasília, e num grande painel sobre o cerrado brasileiro, afixado numa escola particular.

A natureza e os temas religiosos são as preferências temáticas. Foto: Chico Sant’Anna

A natureza e os temas religiosos são suas preferências, embora o mercado se apresente como forte comprador de mobiliários decorados como temas futebolísticos. Foi, inclusive, a imagem de uma mesa adornada com a estrela solitária do Botafogo, que me fez conhecer Celeste. Móveis deste tipo são encomendados constatemente por empresários e políticos de Brasília e de fora da cidade.

Na casa-estúdio de Celeste os temas sacros se destacam. Uma grande Nossa Senhora olha pela família. O São Francisco de Assis, seu predileto, já não mais se encontra em sua casa. Foi doado a uma igreja, mas com a condição de sempre que haja uma exposição ele possa se apresentar.

É no quintal que a casa se transforma em oficina atelier. Prateleiras acondicionam pastilhas coloridas, criteriosamente separadas pela cor. Pelo chão, sucatas de cerâmicas, azulejos e tudo mais que possa ser picotado pela torquês.

Cada peça é cortada manualmente, com o uso de um alicate torquês,para depois fazer parte de um grande quebra cabeça de cores. Fotos: Chico Sant'Anna
Cada peça é cortada manualmente, com o uso de um alicate torquês,para depois fazer parte de um grande quebra cabeça de cores. Fotos: Chico Sant’Anna

Como num jogo de quebra-cabeças, eles serão encaixados um a um, até formar uma nova imagem. Dependendo da destinação, do uso, a obra poderá ser montada sobre uma base de chapa MDF – usada para armários de cozinha – ou em tecido. É na colagem que as cores se somam, formando um degradê, como se fossem vitrais góticos.

Aos poucos, a imagem ganha os contornos que irão agradar os olhos dos apreciadores da boa arte.

Anúncios