Brasília, 53º aniversário. Foto: Ivaldo Cavalcanti

O brasiliense quer sentir-se seguro, não ser alvo de 2,5 seqüestros relâmpagos, em média, por dia, não quer a Capital Federal registrando 54 homicídios por arma de fogo, em média, por mês.

 

Por Chico Sant’Anna

Brasília, 21 de abril de 2013, 53º aniversário de fundação da cidade, o terceiro comemorado sob a administração Agnelo/Filippelli à frente do GDF. Fosse este um governo cumpridor de suas palavras, o brasiliense estaria comemorando esta data com uma cidade mais humana, melhorada, segura, preocupada com o meio-ambiente, com saúde, educação e segurança públicas de qualidade, serviços que historicamente distinguiram a cidade.

Mas o retrato é outro. Faltando 18 meses para que o brasiliense volte às urnas e decida quem deve governar os rumos do Distrito Federal por mais quatro anos, vemos uma administração centrada numa única obra: o estádio Mané Garrincha, que por sinal, foi alvo da submissão do GDF aos caprichos da FIFA, interessada apenas em arrecadar e deixar uma herança maldita para os contribuintes do Distrito Federal.

Fosse este um governo cumpridor de suas promessas, o caos na Saúde Pública do Distrito Federal teria sido resolvido em 90 dias. Hoje, não faltariam equipamentos, profissionais de saúde, medicamentos, vagas hospitalares em com base nos relatos dos órgãos fiscalizadores da Saúde, calamidades como a contaminação da maternidade do Hospital da Ceilândia, não teriam acontecido.

Mas ao contrário, o contribuinte do Distrito Federal viu seu governo dar uma canetada e transferir recursos antes assegurados para a saúde, educação, obras públicas para a construção de um monstrengo arquitetônico, que destoa da escala bucólica projetada por Lúcio Costa e que nada tem a ver com as linhas leves de Oscar Niemeyer. Por sinal, se era pra fazer uma obra monumental, porque não aproveitaram que o mestre ainda estava vivo e lhe encomendava o que teria sido o seu último projeto e talvez o único estádio de seu portfólio (é sabido que, na década de 50, ele concorreu com uma proposta para o Maracanã, mas perdeu). Desta forma, a exemplo do Sambódromo, o estádio poderia ter uma função social, quando não usado para os jogos. Quando não recebe o desfile de Carnaval, o Sambódromo é uma escola pública de tempo integral.

O brasiliense, com medo da violência, vive atrás das grades.O bandido, este está a solta. Foto: Chico Sat’Anna

Fosse este um governo cumpridor de suas promessas, o brasiliense se sentiria seguro, presenciaria o policiamento ostensivo nas ruas, não seria alvo de uma média de 2,5 seqüestros relâmpagos por dia e a Capital Federal não registraria uma média mensal de 54 homicídios por arma de fogo. Triste estatística que a coloca entre os dez campeões nacionais deste ranking. Fosse este um governo cumpridor de suas promessas, o brasiliense não estaria sendo transportado feito sardinha enlatada. Já estaria funcionando a linha do Veículo Leve sobre Trilhos entre o Aeroporto e o Mané Garrincha, ou, pelo menos, até a estação Asa Sul, em frente ao Zoológico. Linha esta que o governo federal está pagando em sua quase totalidade.

O VLT já deveria ser uma realidade na cidade. Anpliação daLinha 1 do metrô, prometida pelo GDF, não tem data certa para estar pronta.

Também já deveria estar pronta a ampliação do metrô, cujo financiamento foi assinado, em 2009, com o BNDES. Ele previa a expansão da Linha 1, de um lado, até a altura do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), e, nas outras duas pontas, a chegada dos trilhos ao Setor O, da Ceilândia. Nesta cidade seriam duas novas estações e mais 2,5 km de via. Outra ampliação estava revista para Samambaia, com duas novas estações e 4 km de via. A esta altura, o brasiliense já deveria estar desfrutando de 49,2 km de linha de metrô, 34 estações e 32 trens em operação. Mas no 53º aniversário da capital, tem que se contentar com uma linha sete quilômetros mais curta, quatro trens em operação e onze estações a menos. Também não ficaram prontos os corredores de ônibus expresso – polêmica obra que substituiu a implantação de duas linhas de metrô – que transportariam os moradores das cidades satélites – em especial via EPTG e via EPIA – para o Plano Piloto. Tudo agora aponta para 2014, na melhor das hipóteses, no fim deste ano. Os moradores de Sobradinho e Planaltina terão que esperar mais tempo, ainda, pois os corredores, por lá, ainda nem começaram.

A área central do Plano Piloto tem sido alvo de permanetes investidas da indústria imobiliária. E Brasília não conta com o GDF como seu defensor. Foto: Blog do Washington Dourado.

Fosse este um governo cumpridor de suas promessas, o brasiliense não estaria preocupado com a preservação da cidade e do seu meio-ambiente.

Teriam sido inexistentes as investidas especuladoras para mudar o gabarito do Setor Hoteleiro Sul e Norte ou criar um novo, na quadra 901 Norte, atendendo aos anseios imobiliários.

Também não haveria o risco da construção faraônica de uma garagem para 30 mil carros no subsolo da Esplanada dos Ministérios. A apelidada tumba do Agnelo tem a capacidade para 3 ou 4 meses de emplacamento de novos carros em Brasília. Mais efetiva seria a implantação de um eficiente transporte coletivo que circulasse em toda extensão do Eixo Monumental, integrado ao sistema de transporte coletivo do DF. Por sinal, nos projetos de mobilidade urbana de Brasília, o “corpo do avião” do Plano Piloto seria dotado de duas linhas de VLT, uma curta, interligando o Congresso Nacional ao Palácio do Buriti e outra se prolongando até a antiga Rodoferroviária.

Também, o que pensar de um governo que entrega sem licitação pública o planejamento do futuro do Distrito Federal a uma empresa de Cingapura, sem qualquer vínculo com a cidade, sem debate com a sociedade, ou concurso entre os especialistas brasileiros – e até estrangeiros, por que não?

Um projeto que prevê ocupação de áreas atualmente rurais, formadoras do cinturão verde e que não ausculta previamente os anseios dos cidadãos. Trata-se de uma mesma postura que promove mudanças em leis que regulam a ocupação urbana, tais como o PDOT, LUOS e PPCUB – de maneira autoritária, audiências públicas onde a voz do morador não é levada em conta e que tudo vem pronto para potencializar o uso das áreas verdes remanescentes do Distrito Federal ao pelos especuladores imobiliários. Um governo que não se importa com a preservação da cidade enquanto Patrimônio Histórico Mundial da Humanidade, conforme revelou o arquiteto Carlos Magalhães, após um bate-boca entre ele e o Chefe da Casa Civil do GDF, Swedenberg Barbosa. Segundo o relato, Swedenberg teria dito que “uma eventual desfiliação de Brasília da lista (de cidades Patrimônio Histórico Mundial) da UNESCO, por si, não traria prejuízos desde que quem a governasse tivesse compromissos com a cidade”.

O Bambolê da Dona Sarah vai dar lugar a uma grande valeta, por onde passará uma via para autoridades e delegações.

Fosse este um governo cumpridor de suas promessas, o morador da capital não estaria vendo o Balão do Aeroporto – historicamente conhecido como Bambolê da Dona Sarah -, ser destruído, apenas para assegurar uma via expressa a autoridades e delegações que virão ver os poucos jogos que Brasília sediará. Não veria também árvores do cerrado derrubadas sem dó por tratores para dar lugar a mais uma faixa de trânsito na EPIA, que sabemos, não será a solução definitiva do transporte da cidade. Certo mesmo, é que cada vez mais, mais áreas do Distrito Federal estão ficando impermeabilizadas, propiciando alagamentos. Fosse este um governo cumpridor de suas promessas, o jovem brasiliense estaria feliz de estudar nas escolas públicas, que, no passado, foram exemplos de excelência nacional.

Hoje, segundo o Enem 2011, dentre as escolas mantidas pela secretaria de Educação, a melhor colocada na classificação local está na 33ª colocação, com uma pontuação 18,4% abaixo da primeira colocada. No ranking nacional, ela aparece na 3.753ª posição, bem depois de escolas mantidas por pequenos municípios do Brasil.

Foto de Ronaldo Ferreira.

Feliz estaria o brasiliense, ao saber que o Museu de Arte de Brasília está todo reformado e suas obras expostas à visitação. Que a memória da Capital Federal está a salvo da ação do tempo e dos dilapidadores da cultura. Mas uma utopia desta grandeza, parece ser tão mirabolante quanto o expressionismo de Salvador Dali. Bem, 21 de abril é dia de aniversário, é dia de festa. Muita festa! Por sinal, este é um aspecto que o GDF e a Câmara Legislativa do Distrito Federal sabem gastar bem. A área de eventos, principalmente festas e comemorações nas cidades, recebeu 24,1% do valor total de emendas apresentadas pelos deputados distritais ao Orçamento de 2012 do Governo do Distrito Federal (GDF). Os recursos destinados à área somam R$ 71,94 milhões. No mais, feliz aniversário, Brasília! Faço votos que se mantenha forte e resistente à ação dilapidadora de alguns de seus governantes.

Anúncios