Crônica do Plano Piloto: Sobre túneis

sobre tuneis 1Texto e fotos de Alessandra Rosa*

Numa dessas longas tardes de Brasília, cheias de céu, saio para uma caminhada. Deixo meus pés me levarem, num desses átimos de despreocupação com a vida, em que a filosofia permeia nossas células e a gente vira só olhos.

Sem perceber, voo da Asa Sul para a Norte, seguindo pelas alamedas das 400. Atravesso o Setor de Autarquias e seu turbilhão de carros e gentes e suas coisas a fazer. Passo pela rodoviária e seus cheiros. Tantos cheiros! E tantas pessoas, para onde vão? Como vivem? Quais seus sonhos? Sigo. A viagem continua. Em frente ao Hran, tem amoras e pitangas plantadas firmes. Fico lá, comendo frutas do pé e imaginando se elas estão ali para tornar a vida mais fértil naquele lugar onde a saúde é a busca. Penso se, ao comer aquelas frutas de frente ao hospital, não estou sendo egoísta, já que, talvez, a missão delas seja  alimentar as almas que sofrem. Acredito na missão de todas as criaturas.

sobre tuneis 4Desisto das frutas, agradeço e continuo o  percurso sem rumo, como muitas vezes me aparenta ser  a vida.  Então , meus pés me conduzem para os túneis que separam, ou unem,  o Eixão Norte.  Na 202, desço as escadas devagar. Enquanto meus pés caminham para a sombra típica dos ambientes internos (meio amorfo,  meio paz, meio sufoco), vejo a semelhança com a vida. Nela, também precisamos descer as escadas, ir na escuridão, para depois voltar a subir e encontrar de novo a luz, já modificados pelo trajeto.

sobre tuneis 2Caminho que segue, vejo os desenhos nas paredes, os grafites, as frases.  A alma humana é permeada de poesia, constato de novo, que é pra ver se fica gravada para sempre em mim essa verdade. Num gesto ancestral, a comunicação se faz viva nas paredes das cavernas urbanas. Riscamos nossos sentimentos com tintas, lápis, canetas, pedaços de tijolo, qualquer coisa que expresse a sensação de estar vivo. Imagino a personalidade de quem escreve sobre o amor. Que pessoa ainda tem tempo para o amor? Tempo para deixar uma pegada num muro de concreto lembrando que somente o amor é perene? Por um momento quis virar um pedaço daquele cimento, só para ver quem escreve e desenha o que seria o meu pequeno mundo.

‘As paredes estão brancas’, reparei. Foram pintadas recentemente e, logo, vieram as palavras e os desenhos e os grafites  por cima da alvura, colorindo de sentimentos a passagem dos transeuntes.  Num paradoxo irreversível, vejo que são as pessoas as responsáveis por fazer o mundo mais belo. ‘Na mesma medida em que podemos destruir, podemos criar’,  concluo como se tivesse descoberto a américa.

sobre tuneis 3O túnel segue me engolindo. A humanidade inteira dentro dele. Vi revolução ‘fuck the system’, vi  flores e corações. Vi humor e crítica. Vi gente de todas as cores.  Uma senhora vinha devagar, no sentido contrário ao meu. Ela não olhava para as poesias, não via um desenho sequer. Ela olhava para algum lugar dentro dela, ela via alguma coisa que eu não poderia saber. Talvez, se eu tivesse perguntado, ouviria alguma história sensacional, de dor, de vida, de saudade. Mas ela passou e não me viu. ‘Não viu nada o caminho inteiro’, imaginei.

Um grupo de jovens surge alegremente. Meninos e meninas barulhentos (como são barulhentos os adolescentes!, não deixo de observar lembrando de mim mesma aos dezesseis. A Fernanda tem 16 mas é silenciosa, um salto).  Eles também não veem as paredes pintadas de sensações. Estão muito ocupados em conhecerem uns aos outros. Estão se procurando e, quando encontrarem, lembrarão saudosos de quando eles ainda não sabiam. Falam todos ao mesmo tempo, e sorriem juntos, numa atitude de quem sabe que tem a vida inteira pela frente. Como é linda a juventude!, agradeço ao céu de concreto acima de mim.

sobre tuneis 5Vem uma moça. Ela é jovem, mas parece carregar o peso do mundo em suas costas. Tem um olhar ansioso, ‘talvez esteja indo buscar o filho na escola, talvez esteja atrasada’. Pode ser que o marido a esteja traindo e ela está desconfiada. Ou será um problema no trabalho?, pensei, tentando imaginar  todas as coisas que  deixam as pessoas preocupadas. Ela também não olhou para o buraco na terra em que estávamos enfiadas. Só tinha olhos para o problema, pensei, angustiada com as minhas próprias projeções.

Já estou perto da escada que sobe. Lá em cima, a luz já mostra a que veio. Um clarão vai se impondo, de forma que não vejo mais o rosto, mas apenas a silhueta de alguém que desce, como eu havia feito atrás. É um homem, magro, andar firme. Ele desce devagar, cuidando de cada passo. De repente, assobia alegremente. Gosto dos  assobios, sempre  acho que são sinal de alegria. O homem adentra o túnel e está feliz, pensei, louca de pedra.

Diminuo meu passo para ver melhor. A silhueta toma forma. É um  jovem de uns 40 anos, com a pele queimada do sol dos meios-dias. Seus punhos de veias saltadas revelam a força que precisam fazer para sobreviver às intempéries humanas. ‘Deve ser um trabalhador braçal’, concluo, como se eu não soubesse que as dores da alma requerem tanto esforço quanto construir gigantes de concreto vertical.

Observo fingindo que olho para as paredes. O homem diminui o passo, quase pára. Tem algo que  gosta, e ele segue olhando. Passa por mim e eu tento ficar invisível, para não atrapalhar seu olhar. Abaixo a cabeça, mas a visão continua. Ele continua seu caminho, mas observa a humanidade na parede. Se interessa pelas mensagens anônimas que a sociedade não consegue calar.

Eu paro e o deixo ir. O homem chega à beira da escada que leva à luz, do outro lado. Eu, do meu lado, vejo que também é chegada minha hora. Tenho que subir. Preciso deixar o túnel seguir sua missão de engolir pessoas, tragá-las na sua sombra, misturá-las com aquelas cores-manifestações de tantos gritos e sussurros. Eu própria, agora mastigada por aquelas  entranhas. ‘Faz tempo que a gente escreve para as paredes’, é o que me vem depois da travessia.

Olho para o céu azul da boca do túnel. Acendo uma chama dentro de mim. ‘ Também sou feita desse túnel’, pensei, numa pieguice incrível para um dia de feira (e eu, voando a toa pelas nuances que temos dentro). A escuridão é feita da luz, concordo comigo e sigo.

Preciso caminhar para casa. Essa Brasília cheia de asas faz a gente mergulhar em cada coisa!, encerro o assunto e apresso o passo. A gatinha Lua, preta e alegre como nossos túneis, quer comer.

sobre tuneis 6 autora* Jornalista free-lancer por liberdade), 36 anos, estudante de psicologia, pretendente-a-futura-roteirista-de-cinema. Escreve desde sempre, nas agendas, nos muros, nas mãos e, quando não tem nada perto, escreve com a mente, no ar (a ausência de um blog é a rebeldia). Se pudesse explicar a vida, diria: no início era o verbo. E, para ela, é assim mesmo. Os olhos viram palavras. As palavras, desenham a vida. Seja ela, a vida, o que for.
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Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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2 respostas para Crônica do Plano Piloto: Sobre túneis

  1. Não foram poucas as vezes que saí andando, a pé mesmo, por Brasília. Sempre gostei. Vendo pessoas, coisas, arquitetura, jardins, enfim: observando.
    Trabalhava já na CAIXA, logo no começo, e morava na 410 Sul. Normalmente no horário de verão, o verde mais verde, a claridade e a beleza da natureza a explodir com as chuvas, tudo era encanto. E eu andava, por prazer, no final da tarde, do trabalho para a casa. Setor Bancário Sul/410 Sul.
    Até hoje me surpreendo, nos meus sonhos, fazendo o mesmo caminho dentro dos seus enredos, planando …

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  2. Pingback: Subsolo de Brasília: artes colorem passagens subterrâneas no Eixão | Brasília, por Chico Sant'Anna

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