Texto e fotos pelo celular de Chico Sant’Anna

Há muito, a Capital Federal não vivenciava uma mobilização dos brasilienses de tal envergadura. A marcha de milhares de jovens ao Congresso Nacional na tarde de segunda-feira, 17/6, foi de proporção similar ao dia da votação das Diretas Já e da promulgação da Constituição, em 1988. A indignação deixou a virtualidade das redes sociais e ganhou a materialidade das ruas. O jardim frontal ao edifício do Congresso Nacional abrigou uma multidão calculada no seu momento de pico entre oito e dez mil manifestantes. Não só a parte frontal ficou totalmente tomada, como também as laterais inclinadas do gramado do Parlamento serviram de arquibancada para centenas de jovens.

Só jovens: esta foi outra marca desta segunda-feira. Muitos eram menores de idade, secundaristas e a grande maioria tinha idade de uns vinte e poucos anos. Não mais. Nenhuma bandeira de partido ou central sindical. Nem mesmo a UNE, que se notabilizou pelos caras pintadas, se fazia formalmente presente.

Sem lideranças tradicionais, os jovens tinham em comum um objetivo: demonstrar sua indignação. Uma indignação potencializada, no caso de Brasília, pelos gastos bilionários para sediar um único jogo da Copa das Confederações, em detrimento da qualidade de vida do brasiliense. Desde a posse do atual governo petista/peemedebista, o contribuinte local vê a depreciação da qualidade dos serviços de saúde, educação, transporte público e é obrigado a conviver com uma escalada de violência jamais vista em Brasília e que tem registrado uma média diária de dois homicídios e dois sequestros relâmpagos.

Cantando slogan, hinos nacionais ou mesmo refrões comuns aos estádios de futebol, devidamente adaptados ao momento político, e gritando palavras de ordem não pouparam ninguém. Os alvos principais foram a presidente Dilma e o governador Agnelo, mas sobrou para as principais lideranças do parlamento. O presidente da Comissão de Direitos Humanos, da Câmara dos Deputados, Marco Feliciano, foi, ao lado do atual e do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros e José Sarney, tema predileto dos gritos de milhares de manifestantes.

Também a imprensa tradicional não foi poupada. A Rede Globo, como na época das Diretas Já era constantemente tema de palavras de ordem que demonstravam a perda de credibilidade da rede midiática. Por sinal, à tarde, mensagens veiculadas em outras redes, as sociais, orientavam os manifestantes a que eles mesmos documentassem e divulgassem informações e imagens do ato, pois não tinham confiança nos meios de comunicação.

Nada de faixa confeccionada de forma profissional. Os cartazes, feitos à mão, em cartolinas ou papelão e com pincel atômico, também demonstraram que a indignação popular é motivada por múltiplos temas da conjuntura nacional.

Foram questionados desde os gastos com a Copa do Mundo, a votação da PEC 37, que reduz o poder de investigação do Ministério Público; mensaleiros, concessões de rádio e televisão a políticos, a corrupção no poder público, reeleição…

Assunto para motivar insatisfação é que não faltou.

Cordão Policial

A Polícia Militar do Distrito Federal, formou um cordão de isolamento com 400 homens, segundo um comandante no local. Era uma linha de contenção, às margens do laguinho que separa o Congresso Nacional do gramado frontal. Por de trás dela, a Polícia do Legislativo estava a postos e viaturas foram perfiladas como se fossem barricadas. ônibus da PM obstaculavam o acesso à Chapelaria da Câmara

À frente da PM, os manifestantes, cujo objetivo era ocupar o Congresso e acampar no Salão Verde.

Várias investidas foram feitas contra o cordão de isolamento, repelidas muitas vezes com spray de pimenta. Os jovens só tiveram êxito quando dezenas de pessoas conseguiram subir na marquise do Congresso Nacional.

A tomada da marquise foi festejada como uma apoteose. Há muitos anos, a marquise é espaço proibido até para turistas.

Aos gritos de o Congresso é do Povo, dançaram em torno da cúpula da Câmara dos Deputados como se esta fosse um troféu, uma taça. Depois, concentram -se na beirada da grande laje que abriga as duas cúpulas, a do Senado e a da Câmara, A sombra dos manifestantes, projetadas sobre as esferas de Niemeyer, trazia um simbolismo que encantava os demais manifestantes. Em milhares, eles continuavam no gramado e de lá ligavam seus celulares na função lanterna. Os celulares são hoje as velas que marcaram manifestações do passado.

Ao mesmo tempo em que ocorria a tomada da marquise outro grupo de manifestantes entrou na via de acesso à Chapelaria da Câmara, principal entrada de carro ao Congresso e que fica abaixo do nível dos jardins.

A ocupação da marquise do Congresso parece ter desnorteado por algum tempo o esquema de segurança. Além da Polícia Militar contava com agentes da Polícia do Legislativo das duas Casas do Parlamento. O certo é que os manifestantes conseguiram romper o cordão de isolamento, atravessar os dois espelhos d’água, construídos exatamente para dificultar a aproximação de manifestantes. Logo chegaram até à varanda do Congresso. De lá, um grande número saltou para o acesso de carro à Chapelaria da Câmara dos Deputados, se somando aos que haviam entrado antes.

Senadores

Um grupo de parlamentares formado pelos senadores, Paulo Paim e Eduardo Suplicy, do PT, e Inácio Arruda, do PCdoB, chegou a ir até à varanda na expectativa de  dialogar com os líderes dos protesto. Não tiveram êxito. Foram dissuadidos pelos seguranças que consideravam a situação perigosa e desaconselharam os três parlamentares a sair para o contato com os jovens. Outro problema é que não era possível identificar na multidão as suas lideranças.

Um medo reinou entre os presentes que temiam que a manifestação pudesse transformar-se numa grande catástrofe e com muitos feridos. Não havia canais de interlocução. Nenhuma liderança política local ou nacional se fez presente temendo ser mal recebida. Entre os manifestantes e o interior do Congresso Nacional apenas as grandes janelas de vidro da Chapelaria do Congresso e um cordão de isolamento policial menor do que o existente do lado de fora e que já fora subjulgado. Embora bem inferior aos manifestantes, estavam bem armados com pistolas taser, pistolas tradicionais, cassetetes, sprays de pimenta – que foram largamente utilizados – e outros apetrechos.

Além desses policiais, nas laterais externas, o Congresso estava literalmente cercado por soldados e viaturas da Patrulha Tático Móvel – Patamo, do Batalhão de Operações Especiais – Bope e do Corpo de Bombeiros. No Congresso Nacional correu, inclusive, a informação de que o presidente em exercício da Câmara, deputado André Vargas, havia autorizado a entrada do Bope na Casa, caso o Parlamento viesse a ser invadido. Durante muitas horas o clima de tensão foi grande e a falta de uma perspectiva de como a manifestação acabaria deixou muita gente preocupada.

Por fim, os manifestantes foram se dispersando, por volta das 22 horas, após mais de seis horas de protesto. Foram embora, mas deixaram uma mensagem forte e que não deve ser ignorada nem pelos políticos da Capital Federal nem do governo Federal. O brasiliense que foi às ruas não acredita mais nos partidos, não confia nas autoridades constituídas e estão descontentes com as prioridades adotadas pelos governos do Distrito Federal e do Brasil em detrimento das necessidades sociais.

Esta avaliação estava bem clara nos cartazes. “Brasília Acordou”, diziam uns. “Este foi apenas o primeiro dia” diziam outros. Não foi  a voz rouca das ruas, como se costuma classificar os clamores populares, mas sim um grito uníssono, bastante audível e que pode se repetir por mais vezes se novos rumos não forem adotados pelas autoridades constituídas.

Anúncios