Por Chico Sant’Anna

 

Acompanhando as manifestações em Brasília de segunda, 17, e quinta, 20, ouvi diversas pessoas perguntando: “mas o que eles querem?”. Ou então exclamando: “em Brasília a passagem nem aumentou!”. No parlamento, diversos políticos buscam fazer o mesmo questionamento e atônitos não encontram as respostas.

Sem medo de errar, diria que o brasiliense, assim como o brasileiro, cansou.

Mas cansou do que? O nível de emprego está elevado, a renda subiu, o consumo também – é verdade que turbinado por linhas infindáveis de créditos – mais gente nas faculdades e a pobreza extrema foi mitigada pelos programas de ação social.

Cansou de um modelo econômico, de um modelo de desenvolvimento social. Cansou daquilo que os teóricos já chamavam há mais de 50 anos de “Belíndia” (mescla de Bélgica com Índia) e de “Dois Brasis”.

Cansou de ser a sexta, ou a sétima, economia do mundo e de ter um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do Planeta.

Casou de possuir um dos Produtos Internos Brutos mais elevados do mundo e ver o dinheiro se escoando em corrupção, superfaturamento, desvio de recursos públicos e numa fauna inesgotável de escândalos: sanguessugas, panetones, mensalões, pandoras e tantos outros.

Cansou de ter uma carga fiscal igual a dos países escandinavos e não ver retorno na educação, na saúde, na segurança, de possuir um transporte público pior do que aquele que transporta gado neste país.

Cansou a classe média de ser obrigada como contribuinte a custear sozinha um modelo econômico que ela mesmo não tem como usufruir. Uma classe média obrigada a pagar, além dos impostos, pela escola de seus filhos, pela saúde, pela vigilância e segurança privada, já que as estruturas públicas são ineficientes. Cansou de ver o crescimento vertical da violência urbana acompanhada do vertiginoso aumento da impunidade.

Cerca de 40 mil pessoas foram ao Congresso Nacional demonstrar o descontentamento com a realidade nacional. Foto: Marri Nogueira/Agência Senado

Os brasilienses e os brasileiros cansaram de ver perdidas as oportunidades de uma melhoria social em decorrência das ações de lobbies políticos e econômicos. Lobbies que alteram nosso código florestal para derrubar nossas florestas e sobre elas plantar soja e criar gado. Lobbies que alteram os gabaritos de nossas cidades para agradar exclusivamente os interesses da especulação imobiliária. Lobbies que substituem projetos de transporte público moderno e eficiente à base de metrôs e VLT’s e insistem em velhos e superados ônibus da década de 1960. Lobbies que privilegiam o interesse de poucos, em detrimento do bem-estar de muitos. Lobbies que induzem um modelo agrícola que privilegia a soja exportada para alimentar gado e porcos na Europa e Ásia, em detrimento do arroz com feijão.

A sociedade espera uma nova agenda, que traga efetivas mudanças na política nacional. Foto: Valter Campanato/ABr

O brasiliense e o brasileiro cansaram de ver um poder judiciário lento e moroso. De ver uma justiça que privilegia quem tem mais, em prejuízo de quem nada tem. Uma justiça onde o velho jargão, infelizmente ainda prevalece, e o ladrão de galinha é condenado com presteza e rapidez e o assaltante aos cofres públicos transita em liberdade pelos corredores do poder.

O brasiliense, assim como o brasileiro, cansou de um parlamento desconectado da sociedade. Onde parlamentares tratam de seus interesses próprios ou paroquiais e ignoram os anseios daqueles que o elegeram. Há décadas, se houve falar em “voto aberto”, “reforma política”, “revogação popular do mandato de eleitos”. Há décadas, a sociedade assiste impassível a ação de rapinagem das bancadas das montadoras, dos banqueiros, dos evangélicos, dos ruralistas, da bola, dos donos de hospitais privados, dos donos da mídia e de tantas outras corporações tratando apenas de seus interesses. E perguntam, quando é que a “bancada do Brasil” vai começar a atuar?

O brasileiro e o brasiliense cansaram de bancar um país caro e dele não poder usufruir. As suntuosas obras dos estádios construídos para atender os caprichos da Fifa foram um tapa de luva de pelica na face daquele que doa seu suor cotidianamente. Daquele que enfrenta seis horas por dia comprimido dentro de um ônibus. Daquele que trabalha 12, 14 ou mais horas por dia. Daquele que leva a quentinha de casa para economizar trocados no fim do mês. Daquele que precisa atuar no subemprego para complementar a renda familiar. Daquele que tem que estudar até altas horas da noite, para sonhar com um dia melhor.

Os gastos com a Copa revelaram ao povo que o país tinha dinheiro em caixa. E muito dinheiro. Dinheiro que daria para construir nove mil escolas ou creches Brasil afora. Dinheiro que poderia acabar com as filas nos hospitais públicos, garantir o fornecimento de medicamentos a todos que necessitam. Dinheiro que poderia assegurar um bom salário ou reduzir os impostos de muitos brasileiros. Dinheiro que poderia reforçar a segurança pública e afastar de todos nós o medo de sermos vítimas, pelas ruas do Brasil, de seqüestro-relâmpago ou até de um homicida. Dinheiro que poderia assegurar no cotidiano de todos nós o padrão FIFA vida que todos merecem.

A pátria pode até ser de chuteiras, como disse Nelson Rodrigues, e esta paixão ninguém irá tirar dos brasileiros, mas, como cantou Gonzaguinha, o povo quer ver valer o seu suor. Não quer ficar na estação esperando um trem d’alegria que nunca chega e que só promete, que só garante, mas nada realiza.

O brasiliense e o brasileiro querem ser um cidadão padrão 6ª economia mundial. Não querem apenas estádios padrão Fifa. Querem um Brasil de primeira qualidade e por isso foram às ruas. Cabe a quem exerce o poder, seja no Buriti ou no Planalto, tomar a iniciativa de promover as mudanças antes que seja tarde demais e constatemos que a Praça Tahrir é aqui.

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