Dois milhões de turistas estrangeiros a menos do que o esperado no Ano da Copa

 

Governo abandona previsão de receber oito milhões de turistas estrangeiros no ano do Mundial de Futebol. Meta agora gira em torno de 6 milhões.

Governo trabalha, agora, com a previsão de seis milhões, no máximo 6,5 milhões de turistas. Os altos custos hoteleiros no Brasil, a crise financeira que afeta a América do Norte e Europa, bem como a crise de divisas na Argentina podem desanimar os potenciais torcedores. As novas projeções apontam um volume de turistas de 18% a 25% inferior ao anteriormente projetado.

 

Por Chico Sant’Anna

A expectativa governamental de atrair oito milhões de turistas estrangeiros em 2014, ano da Copa do Mundo, não vai acontecer e já foi abandonada. Lançada no governo Lula, pelos então ministros Martha Suplicy e Luiz Eduardo Barreto – seu sucessor – ela foi oficialmente descartada pelo atual ministro do Turismo, Gastão Vieira. Vieira, em entrevista, me informou que o governo trabalha em atrair 600 mil torcedores para o Mundial. Somados ao padrão natural de fluxo turístico, elevariam o contingente de estrangeiros visitando o país para algo em torno de seis milhões, no máximo 6,5 milhões de turistas. As novas projeções apontam, pois, um volume de turistas de 18% a 25% inferior ao anteriormente projetado.

Ministro do Turismo, Gastão Vieira, diz que meta de 8 milhões de turistas estrangeiros, anteriormente prevista para 2014, sóacontecerá em três ou quatro anos. Foto: Moreira Mariz

Ministro do Turismo, Gastão Vieira, diz em entrevista que meta de 8 milhões de turistas estrangeiros, anteriormente prevista para 2014, só acontecerá em três ou quatro anos. Foto: Moreira Mariz

A meta previamente existente de 10 milhões de visitantes para 2016, ano dos Jogos Olímpicos, também não vai se materializar. Gastão Vieira afirma que este volume de turistas só deve acontecer em 2022.

Esta frustração do projeto de inserção do Brasil nos grandes destinos turísticos do ano nos obriga a refletir sobre o volumoso custo de gastos que a Copa e outros grandes eventos estão impondo ao contribuinte brasileiro.  Em 2088, a CBF previa que o Brasil vai precisaria gastar R$ 11 bilhões para se preparar para a Copa de 2014. Faltando um ano para o ponta pé inicial do mundial, os gastos já somam US% 28 bilhões e ainda podem subir mais.

Indústria do Turismo

Desde que assumiu o poder, o governo petista tem a ambição de colocar o Brasil dentre os cinco destinos internacionais mais procurados. Proporcionalmente, o Brasil atrai menos turistas do que os vizinhos Uruguai e Argentina, 2,5 milhões e três milhões de estrangeiros por ano, respectivamente. E está infinitamente longe de países como a França, na casa dos 70 milhões. Só o Museu do Louvre, em Paris, recebe mais estrangeiros do que todo o Brasil. Entretanto, para o professor de Turismo da Upis, Anderson Batista, o governo brasileiro apostou muito alto e depositou expectativas demais na realização de grandes eventos com o intuito de mudar o perfil da indústria do turismo nacional.

Em 2012, foram 5.676.843 turistas, 4,5% a mais dos 5.433.354, registrados em 2011. Os argentinos responderam por 49.7% dos viajantes, os norte-americanos, 10,3%; e os alemães, 4,5%. Em uma perspectiva internacional, são insignificantes os volumes de asiáticos, africanos e árabes que visitam o Brasil. Neste perfil de estrangeiros visitantes do Brasil pode estar a resposta do fluxo abaixo das expectativas para 2014.

Os altos custos hoteleiros no Brasil, a falta de uma malha aérea internacional com vôos diretos e baratos para o país, a crise financeira que afeta a América do Norte e Europa, bem como a crise de divisas na Argentina podem desanimar os potenciais torcedores. Alem disso, segundo a Associação Brasileira de Viagens – Abav, os grandes eventos de 2014 e 2016 podem afugentar o turista normal, aquele que não vem para os jogos, e prefere evitar períodos congestionados e tradicionalmente mais caros.

“Os grandes eventos são marcados pela interação de dois efeitos opostos. Por um lado, atraem um tipo determinado de turista. Só que simultaneamente afastam o turista regular, que quer fugir da confusão, da alta generalizada de preços e da piora na qualidade dos serviços”, disse à imprensa o vice-presidente de Assuntos Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), Leonel Rossi.

Perfildo turista estrangeiro aponta preferência pelas belezas tropicais do Brasil, Barra Grande- Piauí. Foto de Chico Sant'Anna

Perfil do turista estrangeiro aponta preferência pelas belezas tropicais do Brasil. Barra Grande – Piauí. Foto de Chico Sant’Anna

Conforme revela o Estudo da Demanda Turística Internacional do Ministério do Turismo, o estrangeiro vem ao Brasil movido pela curiosidade da cultura brasileira. Há, ainda, um grupo significativo que vem a negócios, para convenções e congressos internacionais. A maior parte dos estrangeiros, porém, está em busca de sol e praia. E paraísos tropicais podem ser encontrados em diverso pontos do planeta e provavelmente com menos confusão do que um país em período de mundial de futebol.

Para Rossi, na Copa e nas Olimpíadas, o fluxo de turistas normais pode cair de 20% a 30% em relação a um ano normal. Neste caso, em sendo verdadeira a análise do representante das agências de viagens, o Brasil poderia ter feito um esforço hercúleo para atrair 600 mil fanáticos por futebol, mas estaria correndo o risco de perder de 1,135 milhão a 1,703 milhão de turistas estrangeiros regulares.

Este é um comportamento turístico universal. Na Inglaterra, por ocasião dos últimos jogos Olímpicos, Londres registrou durante os eventos uma retração na entrada de estrangeiros de 75%. De acordo com a prefeitura da capital britânica, 900 mil turistas passaram pela cidade durante os jogos, dos quais 300 mil estrangeiros e 600 mil britânicos. No mesmo período, em a 2010, a capital inglesa foi visitada por 1,2 milhão de turistas de outros países.

Copa das Confederações

Este ano, segundo projeções da Embratur, o ingresso em gastos de estrangeiros viajando pelo país deve chegar a de US$ 7 bilhões. Em 2011, os gastos foram de US$ 6,56 bilhões e, em 2012, de US$ 6,65 bilhões.

A Copa das Confederações, evento considerado teste para o Mundial, não foi o principal incentivo para este crescimento de dólares projetado pela Embratur para o Brasil. Pelo contrário, no período da Copa, houve, uma de redução de gastos de turistas. Menos dólares entraram, segundo o Banco Central. As despesas de estrangeiros no país caíram 2% em junho deste ano. A Copa das Confederações, evento que atraiu de 20 mil a 25 mil turistas estrangeiros, resultou numa receita de US$ 453 milhões, contra US$ 462 milhões, em 2012, e US$ 471, em 2011.

Brasília

Para Brasília, que investiu bilhões e construiu o estádio mais caro de todas as sedes da Copa do Mundo, a expectativa é que ela seja visitada por 70 mil estrangeiros por ocasião dos sete jogos que irá sediar. É esta a grandeza com que a FIFA está trabalhando e a empresa por ela contratada para gerenciar os pacotes de turismo já trabalha com este perfil para as reservas de hotéis e ônibus. Foram reservados 250 ônibus. Mas muitos destes turistas, como salienta o professor Anderson Batista, não irão se hospedar em hotéis e ficarão pouco tempo na cidade. Segundo ele, a FIFA trabalha com pacotes em que o turista chega ao aeroporto, um ônibus já o espera para levar ao estádio e, de lá, trazê-lo de volta ao aeroporto. No máximo, o turista irá contar com um rápido tour pela cidade. A alimentação ele fará dentro do estádio em lanchonetes franqueadas pela FIFA. Assim, o visitante não gasta em restaurantes, nem em hotéis. Não visita museus, nem vai às compras. O ingresso de dinheiro na economia local, nestes casos, é quase que nulo.

Em média, portanto, a Capital Federal, que construiu um estádio para 60 mil torcedores, ao preço de R$ 1,5 bilhão, deve receber 10 mil estrangeiros por jogo. Os demais torcedores deverão ser do Brasil, sendo a grande maioria da cidade.

Faltam vôos diretos, mais curtos e mais baratos para atrair turistas estrangeiros. Brasília éum exemplo. Sede da Copa possui poucos vôos internacionais.

Los Hermanos

Com as principais economias do planeta em crise, a Copa no Brasil tende a ser um evento voltado a brasileiros e, em segundo plano, aos latino-americanos. O Ministério do Turismo deposita muito esperança nos fanáticos torcedores argentinos e mexicanos. Por isso mesmo, reforçou a qualificação dos profissionais que atendem turistas em espanhol para que los hermanos sejam bem atendidos e não tenham problemas de comunicação com o portunhol.

Pelos dados divulgados pela Fifa no segundo dia de venda de ingressos, depois do Brasil, são os torcedores da Argentina, dos Estados Unidos, do Chile e da Inglaterra que mais reservaram ingressos para comprar.

Mas as ligações aéreas do Brasil com os países latinos e do caribe são precárias e caras. Para muitos destinos, é preciso escala em Miami ou no Panamá. Um vôo que duraria de três a quatro horas, se fosse direto, toma mais de um dia de viagem. Países próximos como o Equador nem dispõem de vôo diretos.

Os portões de entrada dos vôos da maioria dos países latinos é São Paulo ou Rio de Janeiro. Um boliviano, que quiser assistir os jogos do mundial em Cuiabá, terá que ir a São Paulo e regressar a Cuiabá, a poucos quilômetros da fronteira. Brasília, a capital federal, possui apenas ligações para Panamá e Buenos Aires. Vôos pré-existentes para Lima e Bogotá foram cancelados depois da fusão Lan e TAM, que criou a Latam. Montevidéu também ficou mais distante, após a falência da uruguaia Pluna.

Este tipo de problema se repete, ou até se acentua, nas sedes nordestinas da Copa e em Manaus. Há poucas horas da América Central e do Norte, Manaus não conta com ligações diretas para estas localidades. Um mexicano ou colombiano que quiser ver um jogo na Capital do Amazonas terá que viajar, no mínimo, oito horas a mais e fazer conexão em São Paulo. De certa forma, o mesmo problema se repete em Belo Horizonte.

O governo teria que criar novos portões internacionais de entrada no Brasil, mas a crise que toma conta do setor da aviação civil parece não animar as companhias aéreas, que por economia de custos operacionais, tudo concentram em São Paulo. A promessa feita pelo ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, de descentralizar os novos vôos internacionais não foi cumprida. Em junho, o governo dos Estados Unidos autorizou a exploração de mais 28 freqüências ligando a terra do Tio Sam ao Brasil. Enquanto os pontos de partida dos EUA serão descentralizados, Los Angeles, Atlanta, Detroit e Charlotte – desconcentrando de Miami e Nova York – no Brasil, todos pousarão em Guarulhos. Os norte-americanos demonstram inteligência ao potencializar novas áreas turísticas, enquanto o Brasil não se preocupa com isso.

Crise financeira mundial, crise nas companhias aéreas, falta de visão estratégica, excesso de otimismo com as potencialidades turísticas da copa…, os motivos podem ser vários, mas tudo indica que Mundial de Futebol e Jogos Olímpicos não serão aquela isca que iria fisgar e superlotar de turistas o Brasil. Mas as autoridades não perdem o otimismo. Apostam nos asiáticos – japoneses e chineses – turistas com presença tímida no Brasil, e adiam para 2022 os 10 milhões de turistas estrangeiros, anteriormente projetados para 2016.

Quem viver verá.

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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