Caminhando por Brasília (ou como aprendi a amar nossa Capital Federal)

Texto e fotos de Jorge Luís Stocker Jr., publicado originalmente no blog DieZeit

Turista empolgadíssimo. Detalhe pra camiseta recalque Le Corbusier.

Como que brotando em meio ao cerrado, no “centro” geográfico do País, Brasília é conhecida amplamente como uma capital projetada. Mas apesar do coro que lhe fazem os críticos, Brasília não nasceu congelada e pronta – e muito menos ficou pasteurizada. O fato de ser projetada não a impediu de ter imaginário e mitologia próprias. Mas certamente lhe imputou uma identidade única e marcante.

Brasília nasce em construções provisórias de madeira – algumas das quais resistem, teve seu apogeu no modernismo à brasileira em concreto armado, teve uma espécie de epílogo pós moderno com algumas obras de Niemeyer tardias e vive uma plena decadência da política urbana e de preservação.

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É nítida a pressão imobiliária para aprovação de um “plano de preservação” às avessas (o famigerado PPCUB) e o estranho não-protagonismo do IPHAN, órgão responsável pela tutela do projeto urbano que é tombado a nível nacional e reconhecido pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.

Tão perto e tão longe.

Mas o texto não pretende falar dos problemas, que são inúmeros, mas sim dar vazão a algumas das impressões mais marcantes de uma passagem pela capital do Brasil.

Expectativas e Impressões

Brasília é uma das cidades paradigmáticas do urbanismo moderno. É impossível, portanto, visitá-la sem grandes expectativas – ainda mais quando se é estudante de arquitetura e urbanismo.

Cresci ouvindo críticas à cidade de Brasília. Fala-se muito dela como uma cidade árida, sem escala humana, projetada para carros. Uma cidade que foi construída isolada, de forma a desmobilizar as massas populares que poderiam influenciar os rumos políticos do País. Uma cidade quente, monótona e sem vida social.

Ao visitar Brasília, constatei que muitas das críticas tem um fundo de verdade. Mas a grande parte acabei concluindo que tem um fundo ainda maior de mentira!

Não dá pra entender Brasília buscando nela os defeitos que lhe imputam a partir da crítica fria do urbanismo moderno.

Não dá pra resumir uma cidade ao seu projeto e suas intenções iniciais.

E principalmente:
Não dá pra vivenciar Brasília como uma cidade qualquer!

Confesso que achei a cidade assustadora no começo. Como pedestre de carteirinha, num primeiro momento me senti tolhido do meu modo tradicional de vivenciar uma cidade – caminhando pelas calçadas.

Marcou uma cena muito frustrante: enxergar a belíssima Catedral do Eixo Monumental a partir da janela do hotel, e sentir-se ao mesmo tempo muito próximo e muito distante dela.

A catedral sempre fora uma das minhas obras preferidas do modernismo brasileiro, e tive que ficar alguns dias “namorando” o prédio de longe.

Outra cena frustrante era enxergar a Esplanada do Museu Nacional repleta de pessoas – aliás, este é um dos espaços urbanos com maior vitalidade que já vi num centro cívico – e sentir-se impedido de chegar até lá.

O entroncamento viário do cruzamento do eixo monumental assustava, e me dava a impressão de que seria impossível passar por ele confortavelmente numa caminhada. Sentia-me na beira de uma autoestrada. E odiava Brasília por isso.

Aliado a esse sentimento de “pedestre acuado”, experimentei um dia de pico no trânsito logo no dia de chegada, em que para chegar de um ponto ao outro da cidade levava-se algumas horas. O bastante para concluir que a cidade que deixava o pedestre contrariado não servia “nem para carros”!

Dia de trânsito caótico.

Dia de trânsito caótico.

Final de tarde na Esplanada

Mas felizmente consegui compreender Brasília. Comecei a me cativar ao visitar rapidamente o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios, iluminada num belo final de tarde. A qualidade da arquitetura amenizou aquela péssima primeira impressão, e fui ficando mais receptivo ao restante. A cidade já parecia mais interessante, apesar de tudo.

Brasília a pé

No outro dia, resolvi chegar de qualquer jeito a pé, saindo do hotel em direção a Catedral, num finalzinho de tarde.Imaginando que me sentiria um pedestre na borda de uma pista de corrida.
Acabei percebendo que a cidade era mais amigável a uma caminhada do que parecia inicialmente – bastava desistir de seguir pelos caminhos que faria se estivesse de carro, e encontrar trajetos agradáveis a escala humana. Alguns dos quais passando por dentro das quadras.

Espaço plenamente apropriado pela população.

Passando pela Rodoviária, que acontece na intersecção dos dois eixos, chega-se ao Museu Nacional, obra tardia de Oscar Niemeyer. Conhecia muitas críticas pela implantação em uma esplanada de concreto seco, mas acabei percebendo que essa é uma das maiores qualidades no espaço. A solução poderia ser equivocada em muitos locais, mas não ali – é como um incentivo ao pedestre para esquecer de ‘calçadas’ e ‘caminhódromos’ e apropriar-se integralmente do espaço. E funciona. O povo agora faz parte da Esplanada dos Ministérios, e reune-se ali todos os dias. Bingo!

Como as fotos eram muitas, a caminhada a tardinha se transformou numa incursão noturna à Esplanada dos Ministérios. Uma experiência arquitetônica quase transcedental. As edificações se impõem no breu da noite, e foi impossível não sentar no gramado pra ficar admirando o Congresso Nacional por algum tempo. Esquecendo, é claro, o material humano que trabalha lá dentro.

A sequência monumental de edificações públicas com identidade própria causa uma impressão muito forte. O conceito de “imaginabilidade” de Kevin Lynch foi aqui completamente contemplado. Até mesmo a Praça dos Três Poderes, imersa no breu da noite e sem um único foco de luz, acaba contribuindo com a sensação de engrandecimento dos prédios iluminados.

Vivenciar a arquitetura iluminada é uma experiência única.

Já agora de braços abertos para Brasília, fui descobrindo que, para o pedrestre, toda aquela “lógica” das vias expressas é dispensável.

E que Brasília também é do pedestre. Mas não da forma como estamos acostumados.

Na cidade tradicional, a calçada cumpre o papel fundamental. Adjacente às fachadas, torna-se o espaço do pedestre por excelência.

Brasília segue uma proposta diferente. O pedestre não precisa de “caminhódromo” (embora alguns tenham sido construídos posteriormente sobre os espaços verdes). Todo o espaço gramado entre as edificações e nos imensos canteiros centrais pode ser usufruido pelo pedestre, que pode fazer seu próprio trajeto. Aliás, não é nada raro ver pedestres passeando, fazendo caminhada ou corrida no próprio gramado. No início causa estranheza a sensação de descampado e solidão.

O espaço do pedestre é tudo aquilo que não é via para carros ou área construída. Causa estranhamento e aparente falta de orientação, mas é apenas uma outra forma de vivenciar uma cidade. Nem melhor nem pior que a cidade tradicional. É apenas outra forma. E por incrível que pareça, funciona.

 Nas superquadras reside a essência do urbanismo de Brasília, que supera o simples estigma da cidade modernista: Lucio Costa projetou bairros bucólicos, onde uma escala mais humana prevalece e a cidade vira um grande jardim.

A altura dos prédios é bastante moderada e a quantidade de árvores de grande porte é considerável. O térreo liberado pelos pilotis devolve parte do espaço que seria privado ao acesso público (apesar dos tantos atentados contra essa característica). Reforça a ideia de que a cidade inteira é um grande “caminhódromo”, muito além do cruzamento de grandes eixos viários.

Caminhando de fato pela cidade e vencendo os preconceitos iniciais, percebi que estava apaixonado por Brasília.

Pude entender os motivos das frequentes críticas, algumas das quais fundamentadas, outras fruto da incompreensão da proposta diferente da cidade. Encontrei, enfim, muito mais motivos para amá-la.

Brasília é certamente uma cidade única, merecedora do título de Patrimônio da Humanidade.

E uma vez que o IPHAN demonstra completo desinteresse em participar ativamente da definição das diretrizes para preservá-la, cabe a sociedade adotar ativamente a posição de defesa.

Brasília é da humanidade, e especialmente, de todos os brasileiros.

 
Todas as imagens, com exceção da do PPCUB pra Quem? são do autor e só podem ser utilizadas com autorização expressa.

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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