Torre de TV Por do Sol2Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna

 

 

Eu te amo, minha Brasília,

Mesmo, mesmo, mesmo…

Que me trates como sacola humana

                Sacolejando em latas velhas,

                Feito de novo pau-de-arara,

                Entre o Entorno e a Rodoviária.

 

Eu te amo, minha Brasília,

Mesmo, mesmo, mesmo…

                Que os teus políticos caras-de-pau

                Votem às escondidas que nenhum crime

                Será hediondo ou nauseabundo

                Para os seus colarinhos brancos.

 

Eu te amo, minha Brasília,

Mesmo, mesmo, mesmo…

Que sejas para mim carnê sem fim

                Para uma vida de casa melhor,

                Para uma família de bolsa cheia

                De vale-tudo, menos de capital.

 

Eu te amo, minha Brasília,

Mesmo, mesmo, mesmo…

Que não sejas mais a Capital

                De tantas pessoas dignas,

                De tantos candangos pródigos

                De planos pilotos de futuros.

               

Eu te amo, minha Brasília,

Mesmo, mesmo, mesmo…

                Que tu sejas hoje imobiliária

                A lotear até mesmo a Esplanada

                De shows de democracia de fachada.

E onde estava escrito vergonha, babilônia.

 

Eu te amo, minha Brasília,

Mesmo, mesmo, mesmo…

                E te perdoo por me traíres,

                Mas também por me trazeres de volta

                A voz rouca de quem sabe ir às ruas

                Lutar por uma cidade que já foi sua.

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