Governo Agnelo: a poucos meses de terminar parece que nem começou

c9f36-promessas-campanha-agnelo-queiroz-2010Por Chico Sant’Anna

Todo candidato a governador precisa registrar na Justiça Eleitoral suas promessas de campanha, seu plano de governo. A medida é apenas simbólica, não tem efeito prático, pois não existe um procon eleitoral onde se possa ir reclamar o não cumprimento do prometido. Também não existe no Brasil o chamado “voto revogatório” ou, como preferem alguns, o “recall” de políticos eleitos de má qualidade, com defeito de fábrica, ou melhor, de urna.

Mesmo assim, credibilidade e eficiência administrativa são qualidades que marcam os homens públicos. Assim o foi com Juscelino Kubitschek. Disse que faria Brasília e o fez. Assim foi com Getúlio Vargas, quando decidiu criar a Petrobrás e garantir os direitos trabalhistas, via CLT.

Estas características não são, contudo, o forte do governador de Brasília, Agnelo Queiroz. Estamos nos últimos meses de seu governo e as promessas que fez na campanha, praticamente, não saíram do papel.

Agnelo teve como estratégia eleitoral de campanha apresentar folhetos com 13 promessas para cada segmento social do Distrito federal. Foi assim, com professores, pessoal da saúde e policiais, dentre outros. A idéia era conquistar o apoio dos diversos segmentos corporativos, mas hoje podem ser o tiro pela culatra em seus planos de reeleição.

Para refrescar a memória do (e)leitor, trazemos aqui apenas alguns dos compromissos assumidos, em 2010, pela campanha Agnelo/Filippelli.

  • Construir Unidades de Pronto Atendimento – UPA em todas regiões administrativas do DF, implantar o Saúde da Família em todo o DF e recuperar os hospitais públicos
  • Integrar o sistema de transporte público da cidade, implantar um sistema de bilhete único ágil e barato, completar a linha do metrô que chega a Ceilândia e estender o metrô até o fim da Asa Norte
  • Universalizar creches para as crianças de 0 a 3 anos e a educação para crianças de 4 e 5 anos; educação integral nas escolas públicas; criar a Universidade Distrital e ampliar escolas técnicas
  • Criar as rondas ostensivas e aumentar o patrulhamento das ruas do DF
  • Construir 75 creches para crianças de 0 a 5 anos
  • Regularizar os condomínios residenciais e construir ao menos 100 mil unidades habitacionais

Quase todas promessas de Agnelo e Filippelli não sairam do papel.

Uma das principais críticas ao governo Agnelo/Filippelli é a morosidade da gestão governamental. Auxiliares próximos a ele dizem que na hora de tomar decisões, é um tanto claudicante. O governo federal tem ajudado com os recursos financeiros necessários e chegou a dar uma mãozinha extra (alguns chamam de intervenção branca), ao deslocar da Esplanada dos Ministérios para o Palácio do Buriti o atual secretário de Governo, Swedenberg Barbosa (então número 1 de José Dirceu, no Palácio do Planalto), que passou a ser o gerentão do governo, e o ex-secretário executivo do ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto, para comandar a secretaria de Planejamento local.

Ao longo do governo, descontentes com a condução do GDF, os senadores Cristovam Buarque – PDT e Rodrigo Rollemberg – PSB deixaram a coligação que venceu as eleições de 2010 e que governava Brasília.

O GDF tem gasto rios de dinheiro em publicidade. A conta de propaganda em 2013 deve ter passado dos R$ 200 milhões. Tudo para tentar convencer a população que é eficiente e expedito e que muito fez.

Os fatos, contudo, revelam o contrário. Poderíamos gastar aqui dezenas de linhas para demonstrar como a máquina do GDF não anda. Saúde, Educação e Segurança andam pela hora da morte.

Na educação, 75 creches deveriam ter sido construídas em 2012 para atender 130 mil crianças de 0 a 5 anos. Até meados de 2013, apesar de possuir em caixa à época R$ 9 milhões, para a construção de creches, nenhuma tinha sido inaugurada. Em junho do mesmo ano, a meta foi ampliada para 100 creches até o fim de 2014. De certo,segundo o Correio Braziliense, o ano letivo, que começou dia 42, deixou de fora da rede pública de ensino do Distrito Federal cerca de 6 mil crianças de 0 a 5.  Considerando que cada creche recebe em média 100 crianças, pose se concluir que ainda faltam 60 creches para a promessa virar realidade.

Agnelo prometeu trem, metrô e VLT. Optou por trabalhar com ônibus articulado. Este tipo de transporte já foi utilizado em Brasília na década de 1970 e não deu vazão ao volume de passageiros. Cada composição de VLT transporta cerca de 400 pessoas por viagem, uma composição de metrô, cerca de 1.500. Os ônibus articulados têm capacidade para apenas 160 passageiros.

Mobilidade Urbana

No transporte público, na melhor das previsões, a única obra que Agnelo deixará pronta em 2014 é o sistema do BRT, entre Gama e Santa Maria e o Plano Piloto. Agnelo prometera ônibus híbridos (vide folheto acima) movidos com o uso de combustível não poluente, como energia elétrica ou gás natural, mas se rendeu ao bom e velho ônibus a diesel, montado sobre chassi de caminhões.

Obras das ciclovias da quadra 28 no Park Way foram abandonadas em agosto de 2013. Foto de Chico Sant'Anna

Obras das ciclovias da quadra 28 no Park Way foram abandonadas em agosto de 2013. Foto de Chico Sant’Anna

É verdade que vários quilômetros de ciclovias foram edificados, porém a qualidade das obras e os trajetos seguidos são bastante questionados pelos usuários. Na quadra 28 do Park Way, as obras das ciclovias foram abandonadas em agosto de 2013. Hoje elas estão mais adequadas ao bicicross do que as pedaladas tradicionais.

Na quadra 26 do Park Way, a ciclovia foi edificada abaixo do nível do solo. No período de chuvas, fica submersa. Foto de Chico Sant'Anna

Na quadra 26 do Park Way, a ciclovia foi edificada abaixo do nível do solo. No período de chuvas, fica submersa. Foto de Chico Sant’Anna

Até próximo, na quadra 26, elas foram concluídas, mas com má qualidade. Elas foram feitas abaixo do nível do solo e, em período de chuvas, elas ficam submersas.

Possivelmente seja para o ciclista praticar uma nova modalidade de esportes, o aquaciclismo.

Ficou ainda no ar a promessa de criar “bicicletários seguros (com chuveiros e vestiários)”, bem como a integração com demais modais. Um ciclista, que pensar em entrar com sua bicicleta em um ônibus, deverá tomar cuidado para não ser agredido.

As setas em amarelo apontam para os três trechos de ampliação do metrô e também o trecho do BRT que atravessará a Candangolândia rumo a estação Asa Sul do metrô. Estas obras só ficarão prontas no próximo governo.

As setas em amarelo apontam para os três trechos em azul claro que representam a ampliação do metrô e também o trecho do BRT que atravessará a Candangolândia rumo a estação Asa Sul do metrô. Estas obras só ficarão prontas no próximo governo, possivelmente em 2017.

A implantação do Trem Regional, ligando o Entorno a Brasília, saiu das prioridades emergenciais. Já o VLT no Plano Piloto, bem como a ampliação do Metrô, na melhor das hipóteses, serão materializados em fins de 2017 ou meados de 2018.

Não precisa ser um pesquisador atento, para que se constate que as promessas não se materializaram. O metrô continua no mesmo lugar que se encontrava em 2010, o bilhete único nem sequer é comentado.

As obras do VLT e Metro, idealizadas ainda em 2009 e com recursos assegurados nos PAC da Mobilidade e da Copa devem – repito, devem – ter os editais de licitação lançados no mês de março. A ampliação do metrô em 7,5 km, chegando, numa ponta, ao Hran, na Asa Norte, e nas outras, no Setor O, da Ceilândia, e em mais duas estações em Samambaia, ficaria – se as novas promessas forem respeitadas – pronta no início de 2017.

Saúde e Segurança 

Dois homicídios por dia. Seqüestros relâmpagos, furtos em comércio e residências, roubo de veículos. O brasiliense já tem medo de sair de casa e se sai, é em grupo e olhando para todos os lados.

Agnelo prometeu em 2010, criar a reintroduzir as rondas ostensivas (muito utilizadas no governo de Cristovam Buarque) e a aumentar o patrulhamento das ruas do DF. Além disso, 13 promessas foram feitas aos servidores da segurança pública. Não cumpriu a palavra e quem pagou o pato foi a população. Diante da Operação tartaruga da Polícia Militar, cresceram os casos de danos e perdas materiais e o que é pior, a perda de entes queridos.

Fica evidente que promessas geram uma expectativa e quando não são cumpridas, ou são feitas em vão, trazem prejuízos sérios à comunidade.

Na Saúde, é a própria propaganda oficial do GDF que informa que são quatro as UPAs, longe, portanto de uma UPA em cada cidade do Distrito Federal, como promeito no panfleto eleitoral de Agnelo.

Os hospitais que deveriam ter tido seus problemas resolvidos em 90 dias, ainda são motivos para o calvário do brasiliense.

Embora tenha prometido aos profissionais de saúde (vide folheto) que não iria privatizar a Saúde, a palavra chave no setor tem sido as PPPs – Parceria Público Privada. É assim no Instituto do Coração e no Hospital da Criança, mantidos com recursos do GDF, mas geridos por instituições privadas. E a experiência deve se alastrar, pois a secretária de Saúde cogita em privatizar os serviços de exames médicos, um hospital inteiro no Gama e o setor de traumatologia do Hospital de Base.

A população perdeu confiança na palavra de Agnelo.

Seu governo concentrou esforços na construção de um estádio bilionário e esqueceu o resto da cidade. Em março de 2012, o canal de TV ESPN (vide o vídeo) já denunciava esta situação. Muito dinheiro para o Mané Garrincha e abandono da cidade e das demais promessas a Fifa.

O VLT do DF foi o primeiro dos compromissos assumidos pelo Brasil que tiveram que sair da lista apresentada à FIFA. O BRT, com atrasos em sua execução, se tudo correr bem, vai funcionar às vésperas da abertura da Copa e, mesmo assim, parcialmente, pois as obras de reforma da Estação Rodoviária, no centro de Brasília, não deverão estar conclusas. Também a perna da via expressa que atravessará a Candangolândia, rumo a Estação do Metrô Integração Asa Sul (próximo ao Zoológico) não ficará pronta à tempo (veja mapa).

Como a própria ESPN afirma, o futuro do estádio é uma incógnita. O governo do Distrito Federal defende a tese de que o futebol não será o que vai sustentar a nova arena e que ela será responsável por promover eventos para tentar torná-la rentável.

Veja abaixo o vídeo da ESPN, no qual o GDF reafirma suas promessas

A cada chuva mais forte que cai em Brasília, os kotoristas ficam apavorados com as vias inundadas. Em novembro de 2012, a Avenida W.3 Norte, na altura da 511, virou um grande rio. Foto: Jackeline Morais

Até o momento, o Mané Garrincha vem se transformando numa eficiente máquina de fazer o dinheiro sair de Brasília. Em 2013, com a realização de 27 eventos, o GDF arrecadou com o estádio R$ 3 milhões aos cofres públicos. Essas partidas do Campeonato Brasileiro realizadas na Capital Federal somaram a renda de R$ 25.638.225.

Ou seja, o Mané Garrincha exportou via clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo, uma bagatela de R$ 22 milhões da poupança do brasiliense.

Enquanto só tem olhos para os preparativos da Copa, Agnelo é visto como quem abandonou o Distrito Federal. Pelas redes sociais fotos e vídeos são disseminados mostrando o caos em que se encontra a cidade. Com as chuvas, a situação piorou, pois a Capital Federal nunca tinha experimentado tantas vias inundadas como agora.

Por onde se anda no Plano Piloto, as cenas de abandono se repetem. Calçadas quebradas, carros invandindo áreas verdes e passeios públicos, áreas verdes detonadas. A cidade parece que que não tem quem cuide dela. Foto de Uirá Lourenço

Por onde se anda no Plano Piloto, as cenas de abandono se repetem. Calçadas quebradas, carros invandindo áreas verdes e passeios públicos, áreas verdes detonadas. A cidade parece que que não tem quem cuide dela. Foto de Uirá Lourenço

A população clama por um “choque de urbanização” urgente, com recuperação e instalação e recuperação de calçadas, melhorias na iluminação pública, limpeza e ampliação das redes de águas pluviais, gramados, meios-fios, rebaixamentos de guias para cadeirantes…, são todas pequenas obras que se fazem urgentes!

Encaminhado-se para o 54º aniversário, Brasília se sente como uma cidade velha, quatrocentona, com trânsito insuportável, violência em cada esquina, educação e saúde pública pedindo ações imediatas.

Por onde se anda no Plano Piloto, as cenas de abandono se repetem. Calçadas quebradas, carros invadindo áreas verdes e passeios públicos, falta de policiamento, áreas verdes detonadas. A cidade parece que não tem quem a cuide.

Pior é o imobilismo governamental que se constata. Não apenas no trânsito, mas na gestão da cidade como um todo. E, o que é o pior, as iniciativas visíveis do GDF, tais como os projetos do PPCUB e da LUOS, que resultarão em mais áreas, hoje verdes, sejam ocupadas pela especulação imobiliária, gerando mais desconforto ao brasiliense.

Isso sem falar na OKlândia, uma cidade que o GDF e Luiz Estevão deverão tocar em parceria para abrigar quase um milhão de pessoas no trecho que vai de Santa Maria a São Sebastião.

Nem os santos ajudam!

Esse estado de abandono da cidade precisa acabar.

Quando vai começar mesmo o governo Agnelo?

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Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Bicicletas, Bicicletário, Brasília - DF, Copa 2014, Eleições 2010, Eleições em Brasília, GDF, Mobilidade Urbana, Saúde Pública, Transporte Coletivo, Urbanismo, VLT. Bookmark o link permanente.

9 respostas para Governo Agnelo: a poucos meses de terminar parece que nem começou

  1. aaaleonardo disse:

    Ainda bem que o PT é 13. Se o Agnelo fosse do DEM, PSDB ou PSOL , o marqueteiro dele teria que inventar 25, 45 e 50 promessas para cada área. Uma trabalheira danada!

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  2. Alice Lara disse:

    faltou falar dos 5 espaços culturais que ele conseguiu fechar em seu governo.

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  3. Pingback: TJ-DF condena Arruda por improbidade administrativa | Brasília por Chico Sant'Anna

  4. Assinante disse:

    Gostei da metodologia de fazer disparos por email:”DESTAQUES DOS BLOGS DO CHICO SANT’ANNA 2ª SEMANA FEVEREIRO” .
    Quando é no FB, a gente perde no fluxo. E no mail fica registrado.

    Abraços e muito obrigado por vc existir em brasília.

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  8. lima disse:

    Perfeita matéria e triste a situação da Capital que aprendemos amar.

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  9. douglas disse:

    Governador Agnelo, CHAME OS 200 APROVADOS DA PCDF PARA O CURSO DE FORMAÇÃO, A POPULAÇÃO DO DF CLAMA POR MAIS SEGURANÇA.
    CONHEÇA O CASO: https://www.facebook.com/aprovadospcdf2014.blogspot.com.br

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