Uma Holunganda chamada Brasil

Por Toncá Burity

A Mocidade Independente de Padre Miguel trouxe para o sambódromo alegoria com dois bonecos gigantes, tipo mestre Vitalino, dançando, numa homenagem ao amor entre pessoas do mesmo sexo. Fiquei orgulhoso, mas pensei: vivemos numa Holunganda.

Explico: nos anos 70, no “milagre econômico” propagado pela ditadura militar éramos uma Belíndia: concentração de renda onde os mais ricos se refestelavam com se morassem na Bélgica, e os mais pobre viviam  em situações de miséria comparáveis às regiões mais pobres da Índia.

Holunganda é o neologismo que proponho para a diversidade sexual no Brasil. Homens como eu que são casados, no papel com outros homens (ou mulheres casadas com mulheres) têm o reconhecimento legal da relação.

Somos Holanda, primeiro país do mundo a reconhecer oficialmente as relações homoafetivas. Mas somos, também, Uganda, país que pune a homossexualidade com pena de morte.

Na nossa Uganda brasiliense,  mulheres foram espancadas por marginais homofóbicos. Presos, carteiraram geral na frente dos policiais: “somo ricos, sairemos logo e vamos pegar vocês!” Não duvido! Na nossa Uganda a toda hora morrem homossexuais vitimas de crimes de ódio. Saímos às ruas com a espada de dâmocles.

A integridade física e o direito constitucional de ir e vir dependem do humor de homofóbicos e do desejo de eles cometerem, ou não, abusos físicos e morais. E ainda temos que ouvir: “se for assim, vamos criar uma lei heterofobia” e outras baboseiras do tipo.

Então tá, ô mauricinho-malhado-maloqueiro-enrustido: você é macho o suficiente para sair por aí de mãos dadas, assumindo seu amor, sua afetividade, seu casamento? Duvido, Mané!

Coragem temos nós, homens ou mulheres, que assumimos o que somos e as pessoas que amamos, para quem quiser ver, ouvir ou futricar. Corajosos somos, mas também tristes com esses crimes.

Se nos cartórios somos Holanda, nas ruas somos Uganda (sem nenhuma ofensa às pessoas daquele país, é óbvio)

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasília - DF, Carnaval, Direitos Humanos, Direitos sociais, Discriminação, Minorias sociais, Xenofobia. Bookmark o link permanente.

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