Guayaquil 2
Em Guayaquil, no Equador, o bairro Las Penas, na parte baixa do Cerro de Santa Ana, outrora zona portuária é hoje exemplo mundial reconhecido pela Unesco de recuperação de um espaço urbano e da conseqüente valorização do ser humano que lá vive.

Texto e Fotos por Chico Sant’Anna

 

Em quase todas as grandes cidades do mundo existe um bairro em que a história foi preservada. No Rio de Janeiro, é Santa Tereza e a Lapa; em Paris, o Cartier Latin; em Istambul, o distrito de Sultanahmet; em Guayaquil, no Equador, o bairro Las Penas, e em Valparaíso, Chile, os Cerros Baron e Concepción. Normalmente, com ruas pequenas e tortas, são espaços que no passado abrigaram trabalhadores, operários, vilas de pescadores.

Cerros Baron e Concepción - Valparaíso (22)
Em Valparaíso, Chile, as ruelas dos Cerros Baron e Concepción abrigam hoje galerias de arte, restaurantes, hotéis, ateliês. Tudo sem perder a graça história do bairro.

Hoje, são espaços onde o estilo das construções foi mantido, o urbanismo inalterado e preservado da ação especulativa imobiliária. Essas localidades, além de guardarem a memória das metrópoles em que se inserem, acabam se transformando em pólos turísticos, atraindo visitantes de todas as partes. Em comum, entre eles, a vocação para abrigar restaurantes, ateliers, butiques galerias de artes, pequenas pousadas, estúdios, atividades com alto poder atrativo turístico e que guardam o charme do local. Assim, eles formam o que alguns especialistas chamam de bairro boutique.

Brasília não possui o seu bairro boutique. Apesar da curta existência, a cidade não soube preservar sua memória espacial. O Núcleo Bandeirante e a Candangolândia poderiam ter sido este bairro. Mas a ação do tempo e o descaso do homem descaracterizaram os dois locais. Frutos da especulação imobiliária e da cobiça em fazer dinheiro fácil e rápido. Sobrou, apenas, o pequeno Museu da Memória Viva de Brasília.

Deliciosos restaurantes, guardam ahistorica arquitetura do bairroportuário de Valáraíso,no Chile
Deliciosos restaurantes, guardam a histórica arquitetura do bairro portuário de Valpáraíso, no Chile

Quem mora há mais tempo em Brasília, há de se lembrar do Hotel Rio de Janeiro, na entrada principal da Cidade Livre, dos restaurantes típicos. Também ficaram perdidos na memória os sobrados de madeira de dois andares que foram substituídos por casas de alvenaria.

Dirão alguns que não há como impedir a ação do tempo e do desenvolvimento. Mas não é sempre assim. Para se ter uma idéia, o distrito de Sultanahmet,

o distrito de Sultanahmet, em Istambul, que foi a capital dos antigos Impérios Otomano e Bizantino, guarda até hoje, aos pés das milenares muralhas, as casas de madeira que abrigaram soldados ingleses na virada do século XIX para o XX. Hoje essas casas abrigam refinados restaurantes e galerias de artes.
O distrito de Sultanahmet, em Istambul, que foi a capital dos antigos Impérios Otomano e Bizantino, guarda até hoje, aos pés das milenares muralhas, as casas de madeira que abrigaram soldados ingleses na virada do século XIX para o XX. Hoje, essas casas abrigam refinados restaurantes e galerias de artes.

em Istambul, que foi a capital dos antigos Impérios Otomano e Bizantino, guarda até hoje, aos pés das milenares muralhas, as casas de madeira que abrigaram soldados ingleses na virada do século XIX para o XX. Hoje essas casas abrigam refinados restaurantes e galerias de artes. É destino obrigatório dos turistas em uma cidade que, em 2007, sozinha atraiu o dobro de turistas que vieram ao Brasil.

Turkia - Instanbul casasmadeira turista
Além de restaurantes, muitos hoteis – todos de pequeno porte – estão instalados em Sultanahmet, em Istambul. Turistas do mundointeiro buscam o bairro para conhecer a simpicidade do que era a cidade no passado. Sem se entregar à especulação imobiliária Sultanahmet guarda suas raízes, assim como a Vila Planalto poderia fazer.

Não precisamos ir longe. Em Guayaquil, terra do temido time de futebol do Emelec que muita dor de cabeça já deu às equipes brasileiras que disputam a Libertadores das Américas, o bairro Las Penas, na parte baixa do Cerro de Santa Ana, outrora zona portuária é hoje exemplo mundial reconhecido pela Unesco de recuperação de um espaço urbano e da conseqüente valorização do ser humano que lá vive.

Guaquil galeria de arte
A valorizaçãoda arte é outra missão dos Bairros Butique. Casarões antigos mostram-se excelentes para abrigar galerias de arte, ateliês, estúdios. Esta é uma destinação comum tanto no Equador, quanto no Chile, quanto na Turquia. Eles preservam a arquitetura do local, a história, gerando renda e emprego aos que lá moram.

No final do século XIX era o abrigo de pescadores e artesãos. Depois passou por uma fase de decadência, tendo abrigado marginais e casas de prostituição, hoje transformadas em ambientes de requintes. Entre 2002 e 2008, o bairro passou por um processo de revitalização.  O custo do metro quadrado foi às alturas sem que uma parede de madeira tenha sido derrubada. Moradores mudaram de padrão de vida sem sucumbir ao canto fácil dos especuladores imobiliários. A população de Guayaquil ganhou um espaço agradável e uma fonte de renda para a cidade e seus moradores.

Olhando para Brasília, creio que a Vila Planalto é hoje quem tem as melhores qualificações para ser este bairro boutique. É ela quem reúne os predicados para ser este espaço da memória viva da cidade. Como nos exemplos anteriormente citados, a Vila pode abrigar galerias de artes, ateliers, restaurantes, pousadas charmosas e ao mesmo tempo preservar a sua história e a da Capital Federal.

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A Vila Planalto tem tudo para ser o Bairro Butique de Brasília

Vila Planalto

Para isso, contudo, é necessário não apenas um projeto de revitalização, mas principalmente uma mudança cultural. Faz se necessário um novo olhar. É sabido que pela proximidade com o centro de Brasília, o metro quadrado da Vila é muito valioso. Tem empresa, e até políticos, que gostariam de colocar tudo abaixo e construir prédios de apartamentos. Mas de nada adiantará fazer edificações com dois, três ou mais andares. O charme da Vila é exatamente o fato dela ser vila. É este encanto, com suas ruas tortas, que atrai diariamente multidões aos restaurantes, como o da Tia Zélia, que instalam suas mesas sob o belo céu de Brasília.

 

A Vila Planalto não pode cometer o mesmo erro histórico que o processo de urbanização provocou no Núcleo Bandeirante e na Candangolândia. A vocação da Vila é o turismo, é o laser. Com eles, seus moradores poderão ter um bom padrão de renda, emprego, qualidade de vida. Mas para isso, eles precisam preservar a sua cidade. Precisam coibir as edificações que deformam a história. Deformada, a Vila perderá seu diferencial em relação aos demais bairros e cidades de Brasília. Será um canto como outro qualquer.

Além da memória de Brasília, a Vila tem um tesouro na mão.

Cabe a ela saber usar com inteligência este diferencial.

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