Crônicas de Brasília: De contornos, relevos, parabólicos e paralelos

Luar sobre CongressoPor Railda Botelho Fernandes*

Meu primeiro contato com a capital do Brasil, Brasília, deu-se há muitos anos. Eu era criança, e acompanhava a minha mãe todas as tardes quando juntas assistíamos, a um programa de rádio, cujo locutor, me foge à lembrança o nome, conseguia prender e cativar a atenção da minha mãe com todo o seu entusiasmo e alegria esfuziante.

O momento que eu mais gostava, era o do sorteio de prêmios, já que em todas as modalidades ela, a minha mãe, concorria, ou realizando varias ligações ou enviando cartas ao programa. E não é que em uma tarde, enquanto a minha mãe costurava e eu realizava os meus deveres escolares, o locutor deu de falar o nome de mamãe de uma forma clara e o mais audível possível?

Ela ganhara um lote em Brasília, e a melhor, era em uma área muito nobre da capital. Naquela mesma noite houve um jantarzinho festivo para comemorar a “sorte” da minha mãe.

Eram os anos 60, num tempo em que as mulheres preenchiam as tardes eram com afazeres domésticos, costuras, bordadas e culinárias. Mas nada as impediam de assistir as suas novelas e ouvir os programas de rádios preferidos da época.

Mas papai logo apagou o entusiasmo de mamãe dizendo-lhe que aquilo era bobagem e que ninguém daria lotes de graça em sorteios de rádios, ainda mais em Brasília. O resultado foi que o assunto ficou proibido de ser levantado la em casa, e mamãe coitada, ficou privada de receber o seu prêmio por causa da ignorância e do machismo do meu pai.

Penso que foi a partir desse fato que a minha paixão e atração pela capital aumentou. Jamais concordei com a decisão de papai e Brasília passou a fazer parte de uma das minhas muitas determinações quando adulta fosse. Conhecer lugares, capitais e cidades sempre maiores e mais bonitas que a minha pequena Almenara.

O tempo como sempre voando, a gente crescendo, estudando, e tomando consciência e responsabilidades maiores, das coisas. Estudei me casei e fui criar filhos. Até ganhar um presente desses que a gente não acredita que ganhou mesmo e só toma posse quando faz uso por força da razão.

Conheci parte da Europa e oriente Médio onde vivenciei coisas e realidades pra lá de fantásticas até voltar ao Brasil me sentindo “cidadã do mundo!. O tempo correndo ainda mais e eu, “cidadã do mundo”, correndo trilhas, cortando estradas e cruzando os ares na minha louca e prazerosa aventura de conhecer o maior numero de lugares possíveis, Norte, Sul, Leste, Oeste, Centro-Oeste, Planalto Central!

O sonho  de conhecer Brasília desencantou e se realizou  e ele veio tranqüilo sem que eu o desejasse pelo menos naquele momento..

 Um congresso de  Jornalistas na Capital do Brasil! Eu estava recém-formada e fui um dos poucos convidados a participar. Meu Deus! Quanta emoção foi estar ali entre todos aqueles colegas de bloquinhos e canetas nas mãos! 

Mas, o convite para conhecer o Congresso Nacional em um começo de manhã nublado e de clima agradável foi surreal! Lembrei de minha mãe e o quanto ela estaria feliz de ver-me na cidade idealizada e esculpida por  JK e Oscar  Niemeyer. 

Lembrar minha mãe me fez observar melhor Brasília e todos os seus contornos singulares contratando com as parabólicas, e paralelas, linhas oblíquas e retas, e aquela miscelânea de gente, vindos de todos os lugares do Brasil e do mundo.

Olhar aquele monte de quadras enumeradas e ruas  ausentes de esquinas  era como se procurasse pelo “lote”, que há muitos anos atrás a minha mãe ganhara mais não levara. Naquele instante, naquele exato momento me identifiquei de cara com a capital e senti que, de uma forma, ou de outra, era lá o meu definitivo lugar.

Que nada!

Ainda não seria daquela vez, porém, a minha perseguição e obstinação por viver de vez na capital do Brasil continuam sempre fortes, embora as oportunidades passadas e futuras pareçam fugir de mim.

Brasília, meus afetos por ti se somam a toda a minha admiração.

És linda. Tão linda que, por isso, por tudo isso, mora em meu coração.

·        Jornalista e escritora

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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