O grito de uma cidade

Por Eumano Silva, publicado originalmente em Veja Brasília

Em 1984, os militares tentaram calar Brasília.
Mas não abafaram o clamor das ruas

Manifestantes ocupam o Congresso: pressão por eleições diretas no país (Foto: Jamil Bittar / Agência o Globo)
Manifestantes ocupam o Congresso: pressão por eleições diretas no país (Foto: Jamil Bittar / Agência o Globo)

As comemorações da fundação da cidade, dentro do ano que marca meio século do golpe militar no país, trazem à tona outro importante registro histórico nacional. Há exatas três décadas, Brasília se levantou contra a ditadura. No seu conturbado 24º aniversário, a capital vivia sob medidas de emergência, com as quais o governo censurou a imprensa e proibiu manifestações durante o período de votação da emenda constitucional Dante de Oliveira. Nessa época, nas principais cidades brasileiras, milhões de pessoas se reuniam em locais públicos para apoiar a campanha Diretas Já, elevando a tensão política à medida que se aproximava o dia 25 de abril, data fixada para a decisão do Congresso. Com as medidas restritivas, os militares queriam impedir a chegada de caravanas de todo o país e, sobretudo, diminuir a forte pressão popular sobre os parlamentares. Ônibus de outros estados, de fato, não conseguiram entrar no Distrito Federal. Mas os brasilienses desafiaram o regime autoritário e saíram às ruas para protestar. De cara limpa, sem se esconder atrás de máscaras. “Foi o grito final dos brasileiros contra os militares”, afirma Antonio Ibanez Ruiz, presidente da Associação dos Docentes da UnB à época, um dos detidos pela Polícia Federal por participar dos protestos de abril de 1984.

Alunos da UnB na L2 Norte: bombas de gás, correria e prisões (Foto: Moreira Mariz / Agência Folha) 

As maiores manifestações ocorreram nos dias que antecederam a votação. Em consequência delas, mais de cinquenta pessoas receberam voz de prisão, segundo os registros dos militares. VEJA BRASÍLIA teve acesso aos documentos produzidos pelos serviços secretos do aparato repressivo, hoje guardados pelo Arquivo Nacional. Naquele período também foram protagonizados alguns dos episódios mais grotescos da ditadura. Responsável pela garantia das medidas de emergência, o comandante militar do Planalto, general Newton Cruz, saía às ruas pessoalmente para reprimir passeatas. Em atitudes que beiravam o patético, montado em um cavalo branco, ele chicoteava carros que faziam buzinaço na Esplanada. A cidade inteira aderiu ao estardalhaço, reforçado por batidas em panelas nas casas e apartamentos. Para ser detido, bastava fazer barulho ou vestir uma camisa amarela, a cor adotada pela campanha. Um dia antes da decisão sobre a proposta do deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT), tropas da Polícia Militar cercaram o Congresso. À noite, quando mais de 100 estudantes deixavam a sede do Legislativo acompanhados de parlamentares, o general mandou dispersar a aglomeração e prendeu os deputados Aldo Arantes (PMDB-GO) e Jacques D’Ornellas (PDT-RJ). “Meus soldados, vejam aqui um comunista”, disse o general, apontando para Arantes, que de fato militava no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). No dia 25, desde cedo, boa parte da população manteve a pressão e ocupou os gramados do Congresso. Apesar de toda a mobilização, a emenda foi derrotada e o sonho de votar para presidente, adiado.

O general Newton Cruz: montado em seu cavalo, chicoteava carros na Esplanada (Foto: Carlos Namba)

Mesmo com o revés no Parlamento, os brasilienses permaneceram ativos contra as medidas de emergência nos dias seguintes. Em 27 de abril, cerca de 800 alunos da Universidade de Brasília saíram em passeata pela L2 Norte. Na altura da 406 Norte, policiais e militares disfarçados atacaram o grupo com bombas de gás. Durante a confusão, foi preso o então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Acildon de Mattos Pae. Ao reagir, ele feriu sem gravidade um agente da Polícia Federal, Daniel Lorenz de Azevedo, que mais tarde se tornou delegado e ocupou importantes cargos na estrutura da instituição e do governo do Distrito Federal (leia mais no quadro abaixo).

O lado menos famoso de um conflito

Daniel Lorenz, ex-secretário de Segurança do DF, reprimiu estudantes. (Foto: Raphael Ribeiro / Jornal de Brasília)

Os documentos sobre as medidas de emergência em poder do Arquivo Nacional revelam alguns segredos acerca dos estertores do governo militar. Um dos mais curiosos está ligado à repressão aos alunos da UnB. Na época, foi muito divulgada a prisão do presidente da UNE, Acildon de Mattos Pae. Nunca se tornaram públicos, porém, os nomes dos responsáveis por dissolver a manifestação da L2 Norte. O acervo produzido pelos militares mostra que o então agente da Polícia Federal Daniel Lorenz de Azevedo (foto) participou da imobilização do líder estudantil. Um informe da própria PF, escrito em 7 de maio de 1984, registra que Lorenz teve a camisa rasgada e sofreu lesões no momento em que deu voz de prisão a Pae. Depois de fazer carreira como delegado da PF, Lorenz foi secretário de Segurança Pública do DF no governo do petista Agnelo Queiroz. Hoje, ele diz que não se lembra do fato. “Eu pertencia a outra área da PF, mas nós éramos chamados para acompanhar manifestações. Tudo dentro da legislação da época. Só me recordo de uma vez em que levei uma pedrada.” Lorenz afirma que enviou os documentos da PF para o Arquivo Nacional, sem nenhum filtro. Agora, o delegado é mais conhecido no ofício de comentarista da TV Globo local.

Passados trinta anos, pode-se dizer que a luta dos brasilienses naquele período conquistou seus principais objetivos. As eleições diretas foram restauradas em 1989 e o país vive hoje em plena democracia. Para a capital, ainda ficou uma ponta de orgulho por ter sido palco de um dos últimos movimentos que derrubaram a ditadura.

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