Capa livro FlósculoO autor é cearense. O cenário da ficção: o Planalto Central. Um romance, sob influências shakespeareanas ambientadas na Capital Federal idealizada por Lúcio Costa.

Próspero & Lúcio: A Tempestade em Brasília – ninguém melhor pra explicar esta combinação do que o próprio autor, o professor de arquitetura e urbanismo, da Universidade de Brasília, Frederico Flósculo.

A idéia de escrever uma estória sobre os dias da construção de Brasília surgiu quando aconteceu o Concurso Público de Idéias e de Estudos Preliminares de Arquitetura e de Urbanismo para Revitalização das Vias W3 Sul e W3 Norte – de Brasília, DF, em 2002.

Esse Concurso foi ganho por uma equipe de psicólogos coordenada por um arquiteto, e representou uma oportunidade totalmente inesperada, para mim, de discutir a minha cidade de adoção.

Ao entrevistar pessoas e lideranças comunitárias, pioneiros – homens e mulheres remanescentes das equipes que ajudaram a construir a cidade em seus primeiros momentos -, gente do povo, jovens e visitantes da cidade, fomos mais uma vez reapresentados à mística que Brasília exerce sobre as pessoas.

Uma coisa é certa: a cidade despertou, em sua criação, expectativas poderosas, e foi uma demonstração inesquecível de capacidade em numerosos campos, não somente no urbanismo. 
Em meio à imensa diversidade de interpretações sobre o que foi Brasília, naqueles anos do final da década de 1950, uma permanece como a mais pregnante e emocionante: a cidade dos candangos em ligação direta com seu Presidente. O amor e a admiração que aquelas pessoas demonstram à figura histórica e humana de Juscelino Kubitschek é impressionante – e algo muito especial cerca essa relação, que foi fortemente atacada, à época. 

Uma idéia então me surgiu: e se os adversários de JK tivessem sido mais audaciosos, e tentassem baldar completamente o grande trabalho de construção da Nova Capital?

Essa idéia cresceu ao longo dos frustrantes encaminhamentos do resultado desse outro Concurso Nacional, o da Revitalização da Via W3, um pedaço da cidade que terá uma surpreendente, posterior história.

Entre o ano de 2002 e o ano de 2009, quando este livro foi escrito, praticamente nada foi realizado de concreto quanto ao nosso projeto de revitalização, e a Via W3 apresenta-se tão deteriorada e de-vitalizada quanto no ano do Concurso – e nos anos anteriores, na década anterior.

Perto dessa apatia e incapacidade de ação de governos que são, em última instância, continuidade do vigoroso episódio de construção de Brasília, o grande canteiro dos anos 1950 parece magia – como disse Arthur C. Clark, “não há nada mais parecido com magia que a tecnologia de uma civilização superior”. O paradoxo de Brasília é que essa civilização superior é a nossa, em momentos distintos, no tempo e no povo. No passado, algo de mágico aconteceu, aos olhos contemporâneos. The Tempest foi uma leitura da adolescência que se reuniu a essa reflexão sobre Brasília, como uma metáfora provocativa, que reúne encantamento e frustração.

A decisão de aplicar o enredo de The Tempest a algo tão brasileiro quanto a construção de Brasília deve ser visto como uma sincera tentativa de interpretar o que aconteceu naquele momento, visto de um ponto de vista de um confessadamente agastado estudante de urbanismo – eu mesmo. 

A provocação é animosa: a peça, de 1610, diz respeito à vingança do usurpado Duque de Milão, Próspero. Ele foi traído por seu próprio irmão, Antônio, com o apoio do rei de Nápoles, Alonso.

A fuga de Próspero para uma misteriosa ilha, com sua filha pequenina, Miranda, e os poderes mágicos que adquire da bruxa Sycorax, e que desenvolve até engendrar a terrível vingança de que trata a peça, são objeto de especial admiração entre os leitores do bardo elisabetano. Minha percepção é de que os admiradores dessa peça de Shakespeare formam um grupo à parte, contagiado por seu mistério. 
De algum modo, reconheci um paralelo entre Próspero e Lucio – cuja proposta vencedora do Concurso Nacional para o Plano Piloto da Nova Capital do Brasil completou, em 2007, 50 anos de concepção.

Claro, Próspero não é Lucio – e o próprio Lucio Costa é incluído em seu próprio papel nessa minha estória, juntamente com outros personagens da história brasileira, como Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas (que é aqui detratado e homenageado, além de inusitadamente associado à criação de Brasília), além de uma eventual citação a Oscar Niemeyer.

A história é uma homenagem a esses grandes brasileiros e, sobretudo, aos construtores de Brasília.

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