Respeitem a Amarelinha

Por Luis Turiba

Caro amigo Rudolfo Lago: console-se, não chore, não se culpe. Mesmo que o mundo não passe da próxima guerra e outra civilização venha habitar a Terra, jamais esqueceremos o estranho apagão da seleção brasileira que nos tirou o sonho do hexa.

Imagens fortes marcam nossas vidas. Me lembro (e cada um de nós, também) quando assistimos pela televisão a transmissão direto os ataques terroristas às Torres Gêmeas de NY em 11 de setembro de 2001.

Foi com a mesma sensação de perplexidade no olhar que vivi os quase 10 minutos dos cinco gols seguidos da Alemanha. A certa altura me pareceu repetições de algo muito ruim que estava acontecendo ali, ao vivo e a cores. História na TV. Algo nos paralisava. A seleção caia como um viaduto.

Há quem diga que o vacilo dos 7 a 1 do Mineiraço reabilitou, 64 anos depois, o goleiro Barbosa e todos os demais jogadores brasileiros que perderam para o Uruguai no Maracanaço de 50. Justiça histórica? É… pode ser.

Vexame nacional, derrota pornográfica, apagaço psíquico, atraso tático, auto-engano, galhofa cósmica, surra alemã. Doída e ferida; com o coração e os joelhos humilhados e ralados; pingando lágrimas, suor e o sangue dos derrotados, a nação brasileira se curva em busca de explicações. Afinal,  “o escrete é a pátria de chuteiras, escreveu Nelson Rodrigues – um dos personagens mais vivos dessa Copa de 2014.

Os especialistas meteram o pau no esquema tático do Felipão: só três volantes para sete voláteis, Fred pra quê? A crônica esportiva, incrédula e atordoada, procura com razão (mas não acha, pois quem acha vive se perdendo), as razões extra-campo para tamanho papelão. Mascarados prometem invadir a CBF, Romário à frente: quebra tudo, fora Marins. Até Paulo César Caju ficou roxo de raiva: “apertem os cintos, o piloto sumiu”.

E os intelectuais garantem, citando Friedrich Nietzsche: “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.“ É isso Felipão?!

Há mais verdades e mentiras no ar do que supõe nossa vã filosofia. “O time entrou em campo dopado, de olheiras”, me garantiu um bem situado observador. A culpa é da psicóloga que não conseguiu “psicolografar” nossos craques. Chama o Dunga pra cabeça de área.

Pouco ou muito importa: o time se dissolveu em campo como uma fumegante diarreia. E nós, torcedores, fomos arrancados do mundo sem direito a passagem de volta. Agora, temos que enfrentar os moinhos de ventos da terra de Van Gogh.

A seleção brasileira tem história e histórias. Já nos deu alegrias e tristezas (históricas) também. Por ela, já rimos, festejamos e choramos de emoção, de raiva, de decepção. Também vaiei, fui engenheiro de obras prontas. Mas ela nos pertence, assim como o futebol não é (e não pode ser) propriedade de ninguém. É algo coletivo. Não tem dono. Campeões, sim. E nós brasileiros, chegamos ao topo por cinco vezes. Mais do que qualquer outro povo neste planeta.

Portanto, a seleção não merece ser tão achincalhada. Nem em campo, nem fora. Nossos jogadores não foram treinados para perder. Não era o que desejava Felipão, Parreira (ambos também campeões) e os demais da Comissão Técnica.

Todos se esforçaram ao máximo nesta Copa. Cada um suou a camisa por si e por nós aqui fora. Houve um acidente em campo, algo muito grave, é verdade. Mas esculachar não. Não podemos permitir com esse patrimônio cultural do Brasil seja jogada assim no ralo da falta de saneamento básico.

Tem uma música do filósofo musical Jorge Benjor – “Quem cochicha o rabo espicha” – que nos ensina: “Também não fique pensando/ Que essas vitórias serão fáceis/ Pois nesta vida de perde e ganha/ Ganha quem sabe perder/ E perde quem não sabe ganhar/ Por isso você precisa aprender a jogar/ Em vez de ficar cochichando/ Olhando o bonde passar.”

Vale lembrar também trecho de uma crônica do poeta Carlos Drummond sobre a sofrida e chorada derrota do Brasil para a Itália em 1982, por 3 a 2, quando tínhamos um time dos sonhos cheio de talentos como Zico, Sócrates, Falcão e Toninho Cerezo.

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo.(…) Perder implica remoção de detritos: começar de novo. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas. A Copa do Mundo (..) acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos. E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?”

Então é isso: hora de olhar para o próprio umbigo. Redescobrir Garrinchas, Pelés, Didis, Gérson, Tostões, Cajus, Romários, Ronaldos. Cartolas para o inferno.

Para finalizar, querido amigo, vamos aplaudir (de pé) a seleção da Alemanha, provavelmente a futura campeã do mundo. Jogou bonito e sério, rolando a bola de pé em pé, colocando a tonta defesa brasileira na roda.

Um agradecimento a seus jogadores pela elegância da vitória, especialmente a Mesut Özil  que escreveu no twitter: “Vocês têm um país lindo, pessoas maravilhosas e jogadores incríveis. Essa partida não pode destruir seu orgulho!”

O atacante Lukas Podolski, também se manifestou com uma espécie de Manifesto. Pode até ser uma jogada de marketing, mas vale a pena ser lido:

“Respeite a amarelinha com sua história e tradição, o mundo do futebol deve muito ao futebol brasileiro, que é e sempre será o país do futebol. (…) Todos nós crescemos vendo o Brasil jogar, nossos heróis que nos inspiraram são todos daqui.
E finalizou: “Brigas nas ruas, confusões, protestos não irão resolver nada ou mudar nada, quando a Copa acabar e nós formos embora, tudo voltará ao normal. Então, muita paz e amor para esse povo maravilhoso. Um povo humilde, batalhador e honesto. Um país que aprendi a amar”.

Então, amigo, chegou o momento de tirarmos o rabo de entre as pernas, sacudirmos o complexo de vira-lata que volta a nos ameaçar, vencendo nossos moinhos de vento e reinventando o futebol arte-com-gestão.

Todo mundo bufando, torcendo, opinando e discutindo. Que momento maravilhoso. Partamos para a Democracia no futebol. Então: vida que segue, mesmo com 7 a 1 nas nossas costas. Vamos incorporá-lo. Outras goleadas virão, contra e a favor, no campo e na vida. Chega de chororô.

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Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasil, Copa 2014, Copa do Mundo & Olimpíadas, Esportes, Futebol e marcado , , , , . Guardar link permanente.

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