Living
Propostos como última palavra do conforto imobiliário de Brasília, os conjuntos habitacionais do Park Sul reclamam da insegurança no bairro. Foto de Chico Sant’Anna

Textos e Fotos por Chico Sant’Anna

Furto de carro, disparo de arma de fogo em via pública, assaltos, arrombamentos de veículos, invasão de área ambiental, comércio em local irregular, bebedeiras, drogas e prostituição.

Esse quadro poderia levar o leitor a pensar que me refiro a alguma comunidade do Rio de Janeiro, tomada pelo tráfico. Na realidade, esses são problemas que os moradores do mais novo bairro de classe média alta do Distrito Federal têm que enfrentar cotidianamente. Refiro-me ao Park Sul, bairro residencial formado às margens da via EPIA, atrás dos shoppings e supermercados, no antigo Setor de Oficinas Sul –SOF-Sul.

Ali estão imponentes projetos urbanísticos, como o Park Studios, Ilhas Maurício, Park Sul e Living, dentre outros. Condomínios que procuram guardar a lógica das superquadras de Lúcio Costa, acrescidos de equipamentos de lazer, tais como piscinas, academias, salões de festas, dentre outros.

O metro quadrado está entre os mais caros do Distrito Federal, mas basta sair da portaria para enfrentar a triste realidade dos dilemas de um setor que parece ter sido abandonado pelo Governo do Distrito Federal. Faltam calçadas, a acessibilidade para pedestre é quase zero.

As vias de acesso ao bairro mais parecem a superfície da Lua, com tantas crateras e morretes provocados pelos remendos no asfalto. Falta estacionamento externo. As poucas vagas existentes estão na mira dos assaltantes. Moradores já se sentem constrangidos em receber visitas e fornecedores, pois seus carros ficam em situação vulnerável.
Praticamente não há iluminação pública – o pouco que funciona foi instalado pelos próprios moradores – policiamento inexistente, embora o Comando da Polícia Militar afirme que há rondas sistemáticas no local.

Living reunião com moradores
Em reunião com moradores de um dos empreendimentos, o ex-administrador do Guará, Carlos Nogueira, e o atual Coronel Antônio Carlos Freitas, reclamaram da falta de poderes da administração Regional e culparam o momento eleitoral pelas principais omissões do Poder Público. Foto de Chico Sant’Anna.

O bairro margeia o Parque do Guará, mas os moradores não podem usufruir das belezas da natureza. O local vem servindo de lixão para despejo de entulho e todo tipo de dejetos. Há também uma invasão da área ambiental.

Invasão parece ser a palavra de ordem por ali e com o beneplácito do Poder Público. O canteiro central de uma das vias que dá acesso às residências foi tomado por barracas. Deveriam ser quiosques para comércio de móveis artesanais, mas tem de tudo: bar, salão de sinuca e moradores denunciam que também um prostíbulo funciona à noite em uma das tendas.

Tiros ao cair da tarde

Na primeira semana de setembro, pouco antes da 19 horas, um casal foi alvo de tentativa de roubo de seu veículo, na porta do supermercado Carrefour. Os ladrões chegaram a atirar contra o casal e a bala se alojou na coluna do veículo, entre a porta da frente e a de trás. Acionada pelo 190, dois dias depois a Polícia Militar ainda não tinha comparecido ao local. Os ladrões puderam tranquilamente roubar outro veículo e fugir motorizado do supermercado.

Profissionais que atendem aos moradores do novo bairro já não querem mais atender ali, pois são grandes os casos de arrombamento de veículos.

Living reunião com moradores2
Moradores encaminharam à administração regional do Guará abaixo-assinado pedindo segurança policial, retirada de invasores de áreas públicas, iluminação, calçamento, rede de galerias pluviais. Administração se limitou a dizer que encaminhará aos órgãos competentes. Foto de Chico Sant’Anna

O recurso dos moradores tem sido acionar as autoridades públicas, em especial a administração Regional do Guará, responsável pela gestão daquela área. A administração parece dar preferência ao Guará tradicional. Em recente reunião com os moradores, o ex-administrador do Guará, Carlos Nogueira, e o atual Coronel Antônio Carlos Freitas – ex-comandante do 4º Batalhão da PM, que atende justamente aquela cidade satélite – registraram que o bairro é novo e que o Guará tem mais de 40 anos e por isso a maior parte dos investimentos eram direcionados para lá. Na verdade, segundo o ex-administrador, caberia às empresas que incorporaram no local algumas iniciativas, como calçamento público. Isso estaria em um termo de compensações ambientais que não teria sido cumprido, mas que também não foi fiscalizado pelo Poder Público. O assunto, segundo os administradores, agora está na Justiça.

A administração disse aos moradores que tentaria reunir sobras de recursos para viabilizar uma licitação pública, mas que devido ao fim de ano não acreditava no sucesso da idéia. Nessa época, as sobras orçamentárias vão todas para o “restos a pagar”- explicou Carlos Nogueira, que embora tenha deixado a administração para ser candidato a deputado distrital, parece estar ainda no comando das coisas lá dentro

Carlos Nogueira também defendeu a ideia de que as construtoras é que deveriam ter retirado os invasores do Parque do Guará e os quiosqueiros do canteiro central das vias, como se essa não fosse uma responsabilidade do Poder Público.

A administração regional se declara impotente para tal tarefa. “Estamos em período eleitoral e os quiosqueiros têm associação e são muito bem organizados, comentou o novo administrador Coronel Antônio Carlos Freitas.

Não ligue 190

A iluminação pública, necessária para dar mais segurança ao local, parece que também não deverá sair do papel na brevidade que é esperada. A administração do Guará informa que já teria repassado R$ 200 mil à Companhia Energética de Brasília – CEB, para a implantação de alguns postes que possam amenizar a escuridão, mas até agora não há indícios de obras. Uma boa notícia para a bandidagem que por lá atua.

Do alto de seus mais de 20 anos de carreira na Polícia Militar, o coronel Antônio Carlos foi enfático ao dizer aos moradores da região que não adianta ligar para o 190 – o número da central de atendimentos da Polícia e do Corpo de Bombeiros –  e pedir ajuda policial nos momentos de urgência. Chegou a fornecer o telefone celular pessoal do novo comandante do 4º Batalhão e sugerir que os condomínios comprem rádios intercomunicadores walk talk para fornecer aos porteiros e policiais, viabilizando uma comunicação direta, sem a intermediação do 190.

Enquanto o GDF não age, os moradores, além do IPTU e demais impostos que já pagam, são obrigados a custearem do próprio bolso serviços de vigilância, iluminação pública e outras obrigações do Poder Público. Só em vigilância, a despesa mensal chega a casa de R$ 40 mil reais em alguns desses conjuntos habitacionais.

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