R$ 1,00 para virar as eleições e conquistar o GDF

Proposta de Frejat ameaça atropelar Rollemberg na reta final da disputa eleitoral.

Por César Fonseca, publicado originalmente no portal Independência Sul-americana

 

O capitalismo não sobrevive sem a demanda estatal. O PT, no poder, com Lula e Dilma,  utilizou a demanda estatal para fazer política social. Dá aos trabalhadores em forma de reajuste real de salário mínimo, de acordo com a inflação, aos pobres em forma de programas sociais e garante ganho continuado aos aposentados, elevando a renda disponível para o consumo.

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Fez isso para tirar o país da crise capitalista global, apostando no mercado interno. Criou 40 milhões de novos consumidores. Isso representou, aos olhos da direita, déficit, porque ela vê gasto como despesa e não como renda que gera emprego, consumo, arrecadação e investimento.

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Candidatura de Frejat se vale das técnicas rorizistas e oferece bilhete único a R$1,00. Foto de Chico Sant’Anna

Agora, Frejat, correndo atrás de Rollemberg, na disputa pelo Palácio do Buriti,  promete uma renda disponível para os trabalhadores consumirem mais mediante promessa de cobrar apenas R$ 1,00 a passagem de transporte em forma de bilhete único. Os empresários, evidentemente, serão subsidiados pelo governo, que, no entanto, arrecadará mais, porque os trabalhadores com uma renda extra de R$ 2,00 no bolso, R$ 60 por mês, terão mais dinheiro para gastar no comércio, na indústria etc.

Curta o Foto-protesto, de TT Catalão: R$ 1,00, arapuca eleitoral

Por sua vez, o GDF, com esse aumento de gasto, arrecadará mais impostos. Circularidade capitalista estatal dialética. A direita prega o equilibrismo orçamentário para inglês ver, mas, na hora, de conquistar o poder, esquece o discurso neoliberal, prometendo milagres. Genialidade, esperteza e oportunismo.

Rollemberg vai ficar parado, com boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como fez Cristovam, em 1999, deixando, em nome do equilibrismo orçamentário neoliberal,  Roriz conquistar o poder ao negar reajuste de salário para os professores, algo para o qual Roriz se lixou para faturar espetacularmente a eleição?

Cristovam negou, na prática, seu discurso de que a educação, os professores devem ser a prioridade número um. Ao contrário, deu prioridade ao discurso do FMI. Ficou na teoria. Dançou feio. Cuidado, Rodrigo, sai fora do neoliberalismo, água que passarinho não bebe.

A direita prega sempre o equilibrismo orçamentário, o arrocho fiscal, cortes nos gastos públicos, os juros altos etc e tal, para combater a inflação, mas na hora da disputa pelo poder, ela não titubeia, parte para o radicalismo antineoliberal, para o aumento do gasto, dando uma banana para o discurso equilibrista orçamentário, que tenta impor à esquerda, criticando-a.

Veja o que Frejat, candidato das forças direitistas, no Distrito Federal, acaba de propor, deixando a população pobre em total êxtase: passagem de transporte urbano a R$ 1,00, como tarifa única, a vigorar, a partir de 1º de janeiro de 2015, caso ele derrote Rodrigo Rollemberg, na frente nas pesquisas, por enquanto.

Uma bomba política espetacular. Não se fala outra coisa na capital da República. Parece milagre aos olhos do povão. Hoje, o preço da passagem está em R$ 3,00. Um tombo de 200%!!!

Será que é verdade, mesmo, é o que se pergunta, como atestei, hoje, na fila da padaria, na portaria do prédio onde moro etc.

Duvideodó, exclamam os mais desconfiados dos mais desconfiados. Mas, como não acreditar, se ele marcou data para o início do desconto: 1º de janeiro de 2015? Se não cumprir, desmoraliza-se no primeiro de dia governo, caso eleito.

Onde está o compromisso da direita com o equilíbrio orçamentário, com a boa gestão etc?
Não existe.

Evidentemente, o preço da passagem vai custar, para o trabalhador, R$ 1,00, porém, o empresário receberá os R$ 3,00, sendo, claro, subsidiado, em R$ 2,00, pelo governo, com dinheiro de quem, mesmo?

Do povo, por meio dos impostos.

Frejat está desancando o governo de Agnelo, o derrotado no primeiro turno, porque aumentou, diz, excessivamente, os gastos, multiplicando o número de secretarias de governo, para as quais nomeou milhares de servidores sem concurso etc.

É ou não é, do ponto de vista da economia pública, a mesma coisa que dar subsídio aos empresários, para que suportem passagem de transporte a R$ 1,00?

Apenas, Agnelo criou renda estatal para servidores, cujos rendimentos elevaram a taxa de consumo na economia distrital. Destaque que 60% do consumo no DF é garantido pela renda dos servidores públicos, distritais e federais, a maior renda per capita do País.

Agora, Frejat promete cortar esse gasto contratado por Agnelo – será que vai demitir pessoal contratado sem concurso, mesmo? -, para, com a economia deles, repassar aos empresários, de modo que possam suportar receita menor nas passagens.

Quem, portanto, terá mais renda disponível no bolso, para dinamizar o comércio, indústria e serviços, no DF, com Frejat, eventualmente, eleito, será não mais os contratados sem concurso, mas os milhares e milhares de trabalhadores, que terão, a mais, no bolso, R$ 2,00 para gastar.

Vale dizer, uma economia de cerca de R$ 60 por mês, que já dá para pagar mensalidade de um celular novo, com todos os aplicativos possíveis e imagináveis etc. As empresas de telecomunicações adorarão, sem falar no aumento da arrecadação de impostos para o secretário da Fazenda cobrir os pepinos do governo etc.

É isso aí: se, por um lado, essa renda extra de R$ 60 sairá do bolso do contribuinte depositado no cofre do GDF, para pagar subsídio aos empresários do transporte, por outro lado, o comércio, a indústria e o serviço, diante de mais demanda para suas mercadorias, faturarão mais e pagarão mais, também, os impostos ao GDF.

Eis a circularidade dialética do dinheiro no capitalismo dominado pela demanda estatal. A direita, quando na oposição, sabe muito bem fazer o que condena. A esquerda, no poder, fica com seu discurso miúdo, acanhado, receoso de adquirir cores mais fortes aos olhos dos trabalhadores. Ela está sempre no corner.

Lembra, gente,  o exemplo do ex-governador Cristovam Buarque, que tentou a reeleição em 1999, quando deu mancada política monumental e acabou dançando? Os professores, na campanha eleitoral, reivindicavam reajuste de 28,6% nos seus salários.

Roriz, que disputava com Cristovam, ficou na muda. Cristovam, sob pressão, disse que não daria o reajuste, porque tinha que conter deficit público. Onde já se viu uma barbaridade dessa?

Roriz saiu do silêncio e comprometeu-se com os professores: “Dou o reajuste para vocês!” Faturou a eleição na última semana, em sensacional vitória política. O neoliberal Cristovam e sua promessa de equilibrismo orçamentário foram pra o brejo.

Rodrigo Rollemberg, que saiu da esquerda, com Dilma, indo para a direita, com Aécio, está excessivamente acanhado, nesses dias de luta política eleitoral encarniçada. Promete o chamado bilhete único, algo, como se vê, pouco elucidativo.

Quanto custará, para o trabalhador, o bilhete único, com o qual o passageiro andará o percurso diário, sem precisar realizar desembolsos extras, nos entrocamentos, nas trocas de linhas, para sair de casa até chegar ao trabalho?

Não se tem definição clara sobre isso. Falta aquele impacto, sabe como é? Pode cair o preço da passagem, o desembolso do trabalhador com esse gasto diário? Pode e não pode, porque a indefinição está no ar.

Vem, então, Frejat, discípulo da malandragem de Roriz, da direita, é dá transparência ao jogo político em torno do transporte coletivo. Bate o martelo, dizendo que será R$ 1,00 o bilhete único.

As chances dele ganhar aumentaram na reta final de campanha, por ser mais esperto e oportunista, embora se saiba que indiretamente a conta desse subsídio será dividida com o contribuinte, de uma forma ou de outra.

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasília - DF, Economia & Finanças, Eleições, Eleições em Brasília, GDF, Gestão de recursos públicos, Metrô-DF, Mobilidade Urbana, Orçamento Público, Política & Partidos, Propaganda Eleitoral, Secretaria de Transportes, Transporte Coletivo. Bookmark o link permanente.

6 respostas para R$ 1,00 para virar as eleições e conquistar o GDF

  1. Renan Estanislau disse:

    Muito boa análise, juro que pensei, em alguns trechos, que o Sr. defenderia o Frejat com essa ideia maluca. Achei seu blog pesquisando exatamente o quanto custaria ao contribuinte esse subsídio às empresas.
    A verdade é que a nem tão boa e velha malandragem brasileira está tão encravada na sociedade que as vezes passa até despercebida. Não tinha idade para analisar as eleições de 1998, 2002 e 2006, mas lendo bastante sobre as mesmas é possível identificar as manobras surpreendentemente inesperadas, e ao meu ver, equivocadas, de governos que acabaram ganhando as eleições.
    Se por um lado o equilibrismo orçamentário neoliberal acaba por não fomentar, em forma de engrenagem, a economia local, o desenfreio orçamentário, justificado pela espera de retorno através de impostos, não exita, pois esquecemos da informalidade, fuga de capital e reserva. Temos como prova nacional a Copa 2014 e como prova local o Nota Legal, que não aumentou substancialmente as receitas do governo (que, detalhe, modificou a forma de calcular os créditos, reduzindo-os, pois a bolha creditícia cresceu mais que a conta de impostos, e detalhe 2, o governo sequer fez um comunicado informando a mudança).

    Espero não estar sendo um incomodo, mas é difícil encontrar tantas boas referencias em um único texto, que não pude deixar de dar minha singela contribuição.

    Acompanharei seu blog!

    Um abraço

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  2. José Carlos Sigmaringa disse:

    O mais grave na proposta de R$1 ou tarifa zero é ela não vir acompanhada de uma estatização do transporte. Como está sendo proposta, ela vai aumentar o subsídio público para garantir os polpudos lucros dos donos de ônibus para oferecerem um serviço de péssima qualidade. Transporte público tem que ser operado por empresas públicas. Pela reativação da TCB e mais investimentos em metrô, VLT e ônibus elétricos.

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  3. Super Tato Santos disse:

    Não precisa aprovar o comentário, mas matematicamente, “um tombo de” 100% faria a tarifa ir à 0, 200% então faria o governo nos pagar para pegar ônibus. Corrija, pois achei o post como piada no face.

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  4. PalomaA disse:

    Excelente analise, mas vale a correção dos 200%, passando para 1/3 da atual. Importante ressaltar que essa proposta faz com que empresários se mantenham exatamente onde estão, sem investir e melhorar pois o povo não reclama de ônibus barato. Brasileiro acha que programas com o dinheiro publico é favor.

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  5. Pingback: Bolsa Transporte: mobilidade urbana como arma desenvolvimentista | Brasília, por Chico Sant'Anna

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