MãosPor Luiz Martins da Silva

Em memória de José Martins

 

Fazendo a barba de um cego,

No asilo municipal,

Ocorre-me tocar um disco

Doces memórias, Ray Charles.

 

Nem tinha atinado bem

De cego vir a chorar,

Só de ouvir outro cantando.

Por pouco,  choraria também.

 

Melodias e silêncios,

De gargantas entaladas,

Sequer fui o tagarela

Da pergunta inevitável.

 

Cego ficou por quê?

Barba é que interessava.

Que tal um cavanhaque?

Conhaque é o que precisava.

 

Deixar isso para lá,

Que fique, lá, no passado.

Por que registrar isso agora?

Nem sei mais dos ocorridos.

 

Haverá ainda asilos?

Vicentinos caridosos?

Meu irmão banhava os doidos.

Hoje, ele e eles são finados.

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