IMG_1818075526446Por Sérgio Jatobá*

“Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado” (Clarisse Lispector ) 

O autor americano Benjamim Moser, aclamado biógrafo de Clarice Lispector, parece ter encarnado o espírito de Clarisse quando ela visitou Brasília em 1962 e depois em 1974 e escreveu duas conhecidas crônicas sobre a cidade. O estranhamento diante da utopia urbana modernista, sentido pela escritora, também impregnou a alma de Moser. Só que ao contrario de Clarisse que definiu Brasília como “o espanto inexplicado”, Moser tentou explicá-la e além dela explicar o Brasil em pouco mais de 20 páginas do seu mais recente “livrinho”, como ele mesmo se refere ao seu texto “ O Cemitério da Esperança”. 

O nome faz alusão à “Capital da Esperança”, expressão cunhada por André Malraux, e que remete à utopia da modernidade socializante imaginada por Lúcio Costa e Niemeyer, ao sonho profético de Dom Bosco e ao salto desenvolvimentista do Brasil do futuro, ensaiado desde os tempos coloniais. Uma imagem ideologicamente construída dentro do contexto social e politico da euforia do período JK e desconstruída na ditadura militar quando as contradições da utopia brasilense ficaram expostas. Moser se serve desse caldo de ideias, já bem exploradas por autores com James Holston em “A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia”, mas exagera numa requentada critica a Brasília que, embora recheada de uma erudição estudada, é deselegante, prepotente e preconceituosa.

Moser não economiza em expressões deliberadamente provocadoras e grosseiramente irônicas para se referir à Brasília. Diz, por exemplo, que a cidade parece “um ashram ou um asilo gigante” e declara que a arquitetura “original” de Niemeyer parece “algo que Kim II Sung teria patrocinado após um namorico com a Cientologia”. Chega mesmo, em uma entrevista sobre o livro, a criar a esdrúxula tese de que a construção de Brasília propiciou a ditadura militar. Em outro trecho ridiculariza a simplicidade popular dos cultos no Vale do Amanhecer para depois admitir que este é o Brasil que admira em contraponto à elite burguesa que habita as áreas nobres da cidade, a qual prefere o “clima bom, paz e tranquilidade” às “exposições de arte”.

Também bebe em grandes estudiosos da cultura nacional, como Sergio Buarque de Holanda e Paulo Prado que em “ O Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira” contesta o mito da imagem de felicidade brasileira, invocando a melancolia presente na alma das três raças que nos formaram, o português, o índio e o negro. Moser então conclui que o Brasil, que se vangloria de ser um pais feliz, é “um dos mais tristes de todos” para depois arrematar que “Brasilia faria feliz um pais triste”. Mas, segundo ele, a utopia da felicidade do “pais do futuro” fracassou e a monumentalidade pretendida na arquitetura da capital reflete a tristeza de um pais incompetente para construir seu projeto de nação potente. E embora se possa concordar em parte com essa análise, que tampouco é original, não se pode desprezar as mundialmente reconhecidas qualidades do projeto de Costa e da arquitetura de Niemeyer, que Moser só consegue admitir no Palácio do Itamaraty. 

Mas a crítica de Moser não pretende ser equilibrada, o seu objetivo é criar polêmica e chamar a atenção. Sabe que no Brasil atacar Brasília angaria muitos simpatizantes que confundem o que se passa na Espalanda dos Ministérios com a vida cotidiana dos moradores comuns da cidade de mais de 3 milhoões de habitantes que se estende muito além da Esplanada.

Talvez Moser tivesse que escutar melhor Clarice. Sem saber decifrar Brasília ela admite: “quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui”. Com a sua genial percepção das contradições da cidade que refletem o país contraditório que a gerou, a escritora se rende a sua beleza enigmática e declara ao final “Brasília é esplendor”. 

 

*Arquiteto e urbanista. Lago Norte/Brasília  

 

Anúncios