Espelho, espelho meu…A profusão de prédios com fachada de vidro muda a paisagem da capital

Setor Hoteleiro Norte: o paredão afeta a estética e causa danos ambientais (Foto: Roberto Castro)

Por Ullisses Campbell, publicado originalmente na Veja Brasília

 

Quando começou a rabiscar Brasília, o urbanista Lucio Costa quis transmitir a impressão de que os prédios da cidade estavam pousados no solo, como se não tivessem fundação. Para não ofuscar o céu e a sensação de liberdade, ele limitou as edificações a seis andares e as planejou distantes umas das outras. Costa só abriu exceção para as obras da zona central, onde incorporadoras passaram a levantar arranha-céus que, hoje, já formam alguns grandes paredões de espelhos. Para constatar essa sensível mudança de cenário, basta dar uma volta a pé pelo Setor Hoteleiro Norte e pelas novíssimas quadras do Setor de Autarquias da mesma asa, próximo da 202 Norte.

A crescente selva de vidro já despertou a ira de alguns urbanistas e defensores do projeto original de Brasília. Um grupo de arquitetos foi o primeiro a reagir. Eles começaram a tirar fotos dos prédios que destoam da paisagem local e a divulgar essas imagens em redes sociais. “Se não houver um freio na área central, daqui a pouco só veremos o céu refletido em espelhos”, critica o urbanista Frederico Flósculo, da Universidade de Brasília (UnB), que encabeça o protesto. Segundo ele, a moda das fachadas espelhadas tornou-se uma tendência planetária, mas não é recomendada a cidades de clima tropical. “Além de refletir calor, o conjunto delas parece a penteadeira da Maria Antonieta”, ironiza.

Brasília ShopingUm dos primeiros prédios a chamar atenção na Asa Norte pela fachada com reflexos foi o Cullinan Hplus Premium, na quadra 4, bem ao lado do Brasília Shopping. O edifício tem 1 020 lâminas de espelho. No recém-inaugurado complexo multiuso Vision Work e Live Apart Hotel, encravado na quadra 1, com dezoito pavimentos, o revestimento externo também rouba a cena. Exibe vidros verdes com detalhes de aço inox. Na peça publicitária que tenta vender 226 salas comerciais no empreendimento, o paredão reluzente é classificado como sofisticado. “As vidraças passam a ideia de liberdade, transparência e leveza. Mas tudo o que é utilizado com exagero descamba para a cafonice”, opina Flósculo.

A bem da verdade, os arquitetos que desenham prédios altos sugerem espelhos às incorporadoras para reduzir custos. Usar cerâmica ou pedras nobres, como mármore e granito, custa até 70% mais. O que os profissionais da área não costumam levar em consideração é o dano à natureza. Paredões reflexivos provocam desorientação em aves e podem fazer com que elas se choquem contra esses obstáculos.

PGFNa Procuradoria-Geral da República, construção de Niemeyer coberta por 4 000 lâminas, cerca de trinta pássaros colidem mensalmente com o monumento. “O maior problema é que ele foi erguido numa rota migratória de aves”, diz o professor de biologia da UnB Miguel Ângelo Marini. Ele realizou um estudo no local e sugeriu que fosse instalada uma película antirreflexo nos vidros para reduzir esse tipo de acidente, mas nada foi feito.

iphan dfCom o crescimento de arranha-céus espelhados na área central de Brasília, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) resolveu agir. Montou um grupo para medir prédios em construção. O objetivo é identificar aqueles que excedem a altura-limite da região, estipulada em 65 metros. Um estudo preliminar já constatou que, além do excesso de brilho, algumas edificações envidraçadas ultrapassam o tamanho máximo em até 10 metros. “Infelizmente, pela atual legislação, esses prédios horrorosos não ferem o tombamento de Brasília”, diz Carlos Madson Reis, superintendente do Iphan-DF. O órgão governamental, que se mostra preocupado com o tema, entretanto, não dá bom exemplo em casa. Sua sede, na quadra 713/913 Sul, também é revestida de vidraças.

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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