Inauguração da Pedra Fundamental da Futura Capital do Brasil, em Planaltina, 7 de setembro de 1922.
Inauguração da Pedra Fundamental da Futura Capital do Brasil, em Planaltina, 7 de setembro de 1922.

O ano era 1922. O mês setembro. O Brasil acabara de passar por eleições presidenciais, mas ainda governava Epitácio Pessoa (1919 – 1922), que seria sucedido, em novembro, por Arthur da Silva Bernardes (1922 – 1926).

Foi há quase um século, há 93 anos precisamente – 33 anos antes de JK – era lançada a pedra fundamental de Brasília.

Como registra Pedro P. Palazzo, no blog Abaco – arquitetura & design ambiental, pouca gente fora da cidade de Planaltina, no Distrito Federal, sabe que em 7 de setembro, além de se comemorar a proclamação da Independência, festeja-se o aniversário de outro importante marco da história do Brasil: o lançamento da Pedra Fundamental da Nova Capital do Brasil.

“As celebrações da Independência nacional sempre ofuscam o aniversário desse marco da capital federal, erguido no dia 7 de setembro de 1922 pela comitiva de trabalhadores ferroviários liderada pelo Engenheiro Balduíno de Almeida, responsável também pelo projeto do monumento. No entanto, a importância do lançamento da Pedra Fundamental no dia do centenário da Independência vai além do simples simbolismo de um ideal “mudancista” que ainda levaria quase quatro décadas para se concretizar: o evento foi aproveitado para reabrir a discussão sobre o sítio exato onde deveria ser implantada a nova capital, e contribuiu para um ímpeto de desenvolvimento na infraestrutura e na arquitetura cívica de Planaltina nos anos seguintes” – diz o autor.

Pedra Fundamentalde Brasília2O texto a seguir foi extraído, com correções e atualizações, do Inventário do Setor Tradicional de Planaltina, elaborado pela Ábaco e editado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2013.

Em 1892, o presidente Floriano Peixoto forma a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil (Missão Cruls) para demarcar a área de 14.400 km² para a futura capital. Em junho de 1893, é publicado no Diário Oficial da União o primeiro relatório parcial da Missão Cruls, incluindo demarcação do perímetro do futuro Distrito Federal. Um ano depois parte a novamente a Missão Cruls (agora como Comissão de Estudos da Nova Capital da União), com o objetivo de aprofundar os estudos acerca da área demarcada e escolher o local da cidade dentro do quadrilátero definido. O trabalho é interrompido por falta de verbas, não sendo determinada a localização da futura capital.1

Após a demarcação do perímetro da Cruls, há um período de aproximadamente trinta anos sem grandes iniciativas no que tange à transferência da capital brasileira para o interior do País.2 Finalmente, em 12 de julho de 1921, é realizada uma reunião extraordinária do Conselho Municipal de Planaltina, estando presentes: Salviano Monteiro Guimarães, Deodato Amaral Luly, José Deodato Gonçalves, Tiburcio Gomes Rabello e João Baptista da Cunha. A pauta da reunião é a comunicação da “innauguração official da estrada de automóveis de Ypameri a Formosa”,3 em 6 de dezembro de 1921, ligando a Vila de Planaltina à Estrada de Ferro de Goiás, em construção na altura de Ipameri. A expedição que em 7 de setembro do ano seguinte inaugura a Pedra Fundamental no Morro do Centenário só se torna possível devido à inauguração dessa estrada de rodagem.

A providência administrativa decisiva para a implantação do marco da futura capital é o projeto de lei nº 680-A, dos deputados goianos Americano do Brasil e Rodrigues Machado, que propunha:

(…) Considerando que a Constituição Federal em um de seus artigos de maior alcance político determina a mudança da Capital Federal para o planalto central; Considerando que essa mudança é da maior urgência e necessidade para a tranquilidade e estreitamento da união nacional; considerando que já está demarcada a área necessária à futura capital e que não devemos deixar passar o centenário de nossa independência sem darmos início à execução dessa aspiração nacional; O Congresso Nacional resolve: Art.º 1º — O Governo lançará a pedra fundamental da Capital Federal no planalto central ao meio dia de 7 de setembro de 1922 (…)4

Em 18 de janeiro de 1922 o projeto recebe o apoio do presidente Epitácio Pessoa, sendo reeditado na forma de Decreto (n. 4.494), determinando o lançamento da Pedra Fundamental da Capital Federal no dia 7 de setembro, em virtude ao centenário da Independência.5 No dia 27 de agosto de 1922 o Engenheiro Balduino Ernesto de Almeida, diretor da Estrada de Ferro de Goyaz, recebe em Araguari um telegrama do inspetor geral das Estradas de Ferro, Palhano de Jesus, transmitindo-lhe ordem do Ministro da Viação e Obras, José Pires do Rio, atribuindo-lhe a incumbência de implantar o marco da nova capital no quadrilátero demarcado pela Comissão Cruls: “Alli proximamente no logar mais preconizado pela antiga commissão de demarcação Planalto fareis lançar pedra fundamental e fixar marco dia 7 Setembro no meio dia”.6

Embora a pedra fundamental tenha sido lançada em 1922, não havia uma certeza oficial sobre a efetiva localização para a construção da nova capital do Brasil. Muitos anos se passaram até que a Constituição de 1946 determinasse um estudo para a localização da nova capital federal.

Missão Polli CoelhoEm 1947, institui-se a Comissão de Estudos para a localização da “Nova Capital do Brasil” Presidida pelo então engenheiro militar, Djalma Polli Coelho, que ficou conhecida por “Comissão Poli Coelho”

Ainda em 1947, no âmbito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, por meio do Conselho Nacional de Geografia, promoveu-se duas expedições geográficas. Para aportar conteúdo científico à Comissão dirigida por Polli Coelho, participaram geógrafos notáveis: Antonio Teixeira Guerra, Christovam Leite de Castro, Dora Amarante Romariz, Eugênia Zambelli Gonçalves, Fábio de Macedo Soares Guimarães, José Veríssimo da Costa Pereira, Lindalvo Bezerra dos Santos, Lúcio de Castro Soares, Marília Galvão, Ney Strauch, Nilo e Lysia Bernardes, Orlando Valverde, Speridião Faissol, e Walter Alberto Egler, entre vários outros. Todos, eles e elas, notáveis ibgeanos, valeram-se da orientação científica de Francis Ruellan e de Leo Waibel, geógrafos estrangeiros associados ao Conselho Nacional de Geografia.Áreas estudadas para Brasília Francis Ruellan, era geógrafo e diplomata francês na Venezuela. Durante a segunda grande guerra, após a invasão nazista à França, ele, a convite do governo de Getúlio Vargas, se radicou no Brasil e foi docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro.,

A primeira expedição, dirigida por Francis Ruellan, estudou em detalhes as oito zonas (vide mapa ao lado) previamente definidas no intuito de indicar os sítios mais adequados para a transferência. Era elas:
A – Uberaba;
B – Ituiutaba;
C – Uberlândia;
D – Patos de Minas;
E – Ipameri;
F – Goiânia;
G – Quadrilátero Cruls; e
H – Chapada dos Veadeiros.
Em seu relatório, Ruellan lançava dois possíveis parâmetros para definir o local da capital.
Francis RuellanÉ necessário definir o que esperamos da nova capital. Deve ela ser exclusivamente um centro político e administrativo, gozando de todas as comodidades possíveis para ela mesma e seus arredores, localizada no centro de uma zona já muito povoada? Nesse caso, é no sul do Planalto Central que se encontram os melhores sítios. Ao contrário, se a capital deve ser como um fermento, um centro de colonização e irradiação até o sertão ou interior do Norte e do Oeste, é preciso situá-la como são situadas as grandes cidades, na porta da estepe ou do deserto. Pequim, por exemplo, é capital política, mas é, ao mesmo tempo, porto terrestre e ponto de partida das caravanas até a Mongólia e a Manchúria.

 

À época, o quadrilátero Cruls, originalmente de 14 400 km², chegou a ser expandido para norte e nordeste, de modo a formar o Território Federal do Planalto, com cerca de 52 000 km². O objetivo era o de se colocar a área do novo Distrito Federal sobre a bacia do rio Tocantins, dando-lhe acesso à foz do Amazonas.

mapa do dfcomas bacias hidrograficas polli coelhoAlém disso, apostava-se que os recursos naturais ali existentes a capacitariam a prover cerca de 80% de suas próprias necessidades – registra os documentos do IBGE.

Por sete a favor e cinco contra, placar apertado, a Comissão aprovou a resolução final que fora motivo de tantas discussões. Na proposta vencedora, mantinha-se o território delimitado por Cruls, em 1892, e acrescentava-se ao mesmo cerca de 52 000 km2 – situados ao norte, na boca do sertão. Em 12 de agosto de 1948, o relatório com a resolução foi enviado à Presidência da República, de onde seria encaminhado ao Congresso Nacional, em 21 de agosto do mesmo ano.

Anúncios