Entre bundas e bundões

FotorCreatedA origem do termo é africana.

Mais especificamente dos nativos bantos, quando aqui chegaram, durante a escravidão. Eram conhecidos como povos bundos. As mulheres se notabilizavam pela região glútea muito mais sólida, avantajada e globosa do que a dos europeus. Não demorou muito para que os portugueses, colonizadores, passassem a se referir às nádegas femininas como bundas.

O termo pegou no português praticado no Brasil e o gosto também.

Preferência nacional, dentre os homens. Chegou a ganhar uma revista especializada no tema. Em algumas culturas primitivas, em ídolos religiosos, suas formas representavam fertilidade. As mulheres se esmeram para que ela fique à altura.

Porém, quando ela deixa sua condição substantiva para assumir a adjetiva, seu significado é totalmente outro:

  • Bundão ou Bunda mole, explica o mestre Aurélio, tem o mesmo significado de pessoa sem coragem, pusilânime.
  • Cara-de-bunda é uma expressão usada quando alguém, diante de fatos e situações, fica meio sem o que responder ou agir.
  • Bunda-suja, segundo o Michaelis pode designar uma pessoa sem poder.

Do substantivo e do adjetivo, também tiramos verbos:

  • Bundear: andar ao léu, vagabundear.
  • Desbundar: causar grande admiração, impacto. Ou rasgar a fantasia.

Todo essas informações etimológicas tem uma única razão. Em meio a pior crise econômica e política já vivida pela Capital Federal, Brasília foi tomada pela discussão sobre a bunda de uma loira que circulou nas redes sociais, partindo, imaginem só, do celular do secretário de Justiça do Governo do Distrito Federal.

O debate e as críticas abundaram por todas as partes. E com toda razão, afinal, por que um aparelho celular pago pelo contribuinte, que está vendo sua carga tributária aumentar, é utilizado por uma autoridade pública cujo cargo, secretário de Justiça, deveria zelar pelos respeito aos preceitos legais.

O secretário vem se somar a uma infinidade de pessoas que promovem com a maior naturalidade o “nude” ou “sexting” – compartilhamento de fotos íntimas em redes sociais. Em vigor desde 2013, a Lei 12.737/2012 sobre crimes na internet, apelidada de Lei Carolina Dieckmann, alterou o Código Penal para tipificar como infrações uma série de condutas no ambiente digital, além de estabelecer punições específicas, algo inédito até então. E a Polícia Federal e o Ministério Público (MP) estão de olho nisso.

Mas voltando ao saber do bom e ao antigo Aurelião, muita gente no GDF ficou com cara-de-bunda. Ou seja, diante de uma infração grave que deveria ser penalizada de forma exemplar, sem titubear, o Buriti, ficou sem saber o que responder ou como agir. A sociedade ainda aguarda uma resposta sobre o tema.

Greve profAbundância mesmo sobrou para os professores da rede pública. Abundância de cassetetes, balas e bombas.

Esses estão vendo o governador Rodrigo Rollemberg desbundar, no sentido de rasgar a fantasia, em tão pouco tempo de governo. A decepção é generalizada.

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A nova equipe não consegue colocar a máquina pública para andar. A cidade está abandonada, suja, descuidada. A Saúde não funciona, faltam profissionais, equipamentos e instalações. O que proliferam mesmo são as irregularidades de ocupação do solo  com puxadinhos e puxadões.

A grilagem de terras públicas campeia. Do Park Way a Ceilândia, a ação de repressão e, principalmente, a punitiva são tímidas. Os expoentes da Geração Brasília, que há poucos meses lutavam pela preservação de Brasília, hoje são flexíveis com projetos que alteram o plano de Lúcio Costa, tais como a quadra 500 do Sudoeste. Isso, sem falar, com a recente autorização para que o Edifício do antigo Touring do Brasil, concebido por Oscar Niemeyer, seja transformado no Templo da Rodoviária.

Levantamento feito por moradores do Plano Piloto catalogou 1041 quiosques, trailers e reboques instalados irregularmente em áreas públicas e até no perímetro considerado Patrimônio Cultural da Humanidade. Tudo foi entregue ao GDF, e nada.

Essas atividades econômicas irregulares são prejudiciais à sociedade. Ocupam áreas públicas sem remunerar o governo. Praticam uma economia informal predatória que não recolhe impostos, não assina carteira e ainda prejudica o comércio legalmente instalado. Um empreendimento legal não consegue a expedição de alvará de construção, mas é é impressionante a rapidez com que conseguem ligações de água e luz. E mais: dificilmente são incomodados pela fiscalização. Até parece que quem está operando ilegalmente tem preferência. Um bom arrastão da fiscalização do GDF iria botar ordem na casa e, certamente, reforçar com multas e taxas, os combalidos cofres do GDF.

O mesmo pode se falar das áreas verdes e passeios públicos da cidade. Onde quer que se vá, carros estão sobre os gramados, sobre as calçadas, estacionados em áreas proibidas. Tumultuam o trânsito, destroem a natureza e o patrimônio custeado pelo contribuinte, mas prevalece a parcimônia de órgãos como Detran, Polícia Militar e Agefis. Um mínimo de fiscalização e os gramados e calçadas de Brasília e a cidade voltariam a contar com áreas livres.

Mas a ação policial é direcionada a servidores públicos, professores, alvos de balas, bombas, algemas…, tudo por que exigem que o governo simplesmente cumpra a lei.

“Ora, não há dinheiro”, ecoam justificativas do Buriti.

Mas o governador que de tudo sabia e que para tudo tinha soluções, afinal se “preparou durante três anos para governar”, não teve coragem de fazer o dever de casa, no primeiro dia de governo. Ficou refém da velha política. Não liderou a mudança prometida.

A redução das administrações regionais ficou na maquiagem, há menos administradores do que no governo passado, mas as máquinas administrativas continuam praticamente as mesmas. E como sempre, as cidades do Distrito Federal são loteadas entre os deputados distritais. Cada um tem seu pedaço, onde vai exercer o poder e tentar garantir a reeleição.

A grande reforma administrativa, com redução de secretarias, que também deveria ter ocorrido no primeiro dia de governo – para permitir o acumulo de poupança com economias de gastos -, virou um frankenstein. Ainda são milhares os cargos comissionados. Pouca economia irá proporcionar e sua eficiência operacional é bastante duvidosa. E as portas do GDF mais uma vez se abrem à Câmara Distrital. No jogo de cadeiras, deputado eleito ganha vaga de secretário e suplente vira distrital.

Há pouco mais de um ano das eleições de 2014, o governo eleito não teve coragem de colocar o dedo na ferida. Auditorias nas obras do Estádio Mané Garrincha e do BRT sequer foram iniciadas. Obras, que juntas, ultrapassam a casa de três bilhões de reais.

Recursos alocados há quase seis anos para obras de ampliação do metrô, da implantação do VLT, da ampliação das redes de água potável e coleta de esgoto dormitam nos agentes financeiros. Já se passaram três governadores e ainda faltam projetos, editais, estudos. Enquanto não saem, a economia local padece e o desemprego ultrapassa a casa de 200 mil pessoas. O Aurélio tem uma designação para quem não tem coragem de agir. Para os que são considerados fracos de ânimo; carentes de energia, aos que não possuem firmeza de decisão.

Brasília aguarda ansiosamente que o governador assuma suas funções. Que inicie o governo.

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Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasília - DF, Direitos sociais, Direitos trabalhistas, Distrito Federal, Educação & Ensino, Eleições em Brasília, GDF, Movimentos sociais, Polícia Militar, Secretaria de Educação, Sindicatos. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Entre bundas e bundões

  1. Ótima postagem.
    Enquanto o eleitor de Brasília der uma de bunda mole, teremos bundões no Buriti, e ficaremos com cara-de-bundão diante do descalabro com que o Estado é (des)governado. O povo será forçado a continuar a bundear de hospital em hospital sem encontrar médico, enfermeiro, equipamentos, remédios, nada.

    E os governadores continuarão desbundados com as delícias do cargo no Buriti enquanto mandam baixar a borracha na bunda e, principalmente nas costas e quengos dos trabalhadores.

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  2. Pingback: GDF gasta menos em Educação do que manda a Constituição | Brasília, por Chico Sant'Anna

  3. Thelio Braun disse:

    É, pode ser, mas o governo (????) anterior, hein? Até intervenção branca do petezinho teve, pq a vaca ia para a areia movediça.

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