Você conhece as aves de Brasília? Conheça aqui o Sabiá-laranjeira

Sabiá-laranjeira cantando João Rios

Por decreto presidencial, o sabiá-laranjeira foi designado símbolo representativo da fauna ornitológica brasileira. Foto de João Rios

Texto de Chico Sant’Anna, com base na WikiAves, a Enciclopédia  das aves do Brasil.
Fotos de Fernando Carvalho, João Rios, Leninha Caldas e Rita Marciano. 

O sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) está na cultura nacional mesmo antes dos portugueses aqui chegarem. Seu nome deriva do Tupi haabi’á e conta com uma infinidade de denominações populares, entre elas sabiá-cavalo, sabiá-ponga, piranga, ponga, sabiá-coca, sabiá-de-barriga-vermelha, sabiá-gongá, sabiá-laranja, sabiá-piranga, sabiá-poca, sabiá-amarelo, sabiá-vermelho ou sabiá-de-peito-roxo.

Sabiá-laranjeira Fernando Carvalho

O sabiá-laranjeira é visto com frequência percorrendo o solo, mas nunca longe das árvores. Foto de Fernando Carvalho.

Por ser uma das aves mais populares do Brasil, é considerado informalmente Ave Nacional do Brasil. Tem presença na literatura, na música, no folclore e mesmo na cultura erudita. Em 2.002, por ocasião das comemorações do Dia da Ave, foi designado por decreto presidencial como sendo “símbolo representativo da fauna ornitológica brasileira.”

Desde 1966, é símbolo do estado de São Paulo e também esteve presente no emblema oficial da Copa das Confederações de 2013, realizada no Brasil.

Sabiá-laranjeira em 15-07-2015, no jardim de casaLeninha Caldas

O sabiá-laranjeira se adaptou aos espaços urbanos e é comum encontrá-lo em jardins residenciais da Capital Federal, desde que haja água por perto. Foto de Leninha Caldas.

O sabiá-laranjeira  é uma ave comum na América do Sul. Além do Brasil, é nativo da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai.

Em espanhol é conhecido como tordo de vientre rufo, zorzal colorado, zorzal común.

Se faz presente em uma ampla área do continente, desde o Nordeste do Brasil até o sul da Bolívia e norte-leste da Argentina. Entretanto, não ocorre na Bacia Amazônica.

Sabiá-laranjeira na folhagem Fernando Carvalho

O sabiá habitava originalmente florestas abertas e beiras de campos, mas como é uma espécie bastante adaptável penetrou com sucesso nas áreas de lavoura e cidades. Fernando Carvalho.

O sabiá habitava originalmente as florestas abertas e beiras de campos. Com o avanço da urbanização e das lavouras sobre as áreas de vegetação nativa, ele se mostrou uma espécie bastante adaptável e  penetrou com sucesso nas áreas agrícolas e nas cidades, exigindo porém a proximidade de água.

Em Brasília é fácil visualizá-lo pelos gramados das áreas verdes urbanas e até nos pilotis dos blocos das superquadras. É visto com frequência percorrendo o solo, mas nunca longe das árvores.

O sabiá é uma ave territorial, mas relativamente tímida, comum nas zonas rurais povoadas e nas cidades, e por isso é sentido como uma ave familiar por grande parte da população. Não há na literatura especializada muitos registros de inimigos naturais do sabiá-laranjeira, mas já foi observado que o tucano Ramphastos dicolorus preda jovens e até exemplares adultos.

Em Brasília é fácil visualizá-lo pelos gramados das áreas verdes urbanas e até nos pilotis dos blocos das superquadras. Foto de Fernando Carvalho

Em Brasília é fácil visualizá-lo pelos gramados das áreas verdes urbanas e até nos pilotis dos blocos das superquadras. Foto de Fernando Carvalho

Sua população é considerada estável mas não foi quantificada, e é descrito como uma ave comum.

Em meio urbano o gato doméstico é um importante predador. Em algumas regiões está ameaçado pela destruição do habitat e pelo tráfico de animais silvestres.

Embora no Brasil seja crime a manutenção e/ou criação de animais silvestres em cativeiro sem a devida licença do Ibama, devido a cantoria muito apreciada, o sabiá tornou-se uma ave de estimação sendo avo para a criação em cativeiro com sucesso. A criação em cativeiro pode trazer danos severos ao animal. Além de exigir gaiolas grandes ele não tolera as mudanças em suas instalações, podendo apresentar distúrbios de comportamento e desenvolver pânico, que podem levá-lo à morte. Mesmo assim, a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais o classificou como espécie em condição pouco preocupante.

Estado de conservação

Status iucn3.1 LC pt.svg
Pouco preocupante (IUCN 3.1)

Sabiá-laranjeira , no bebedouro Fernando Carvalho

O laranjeira é o mais conhecido de todos os sabiás, identificado pela cor de ferrugem do ventre, mas existem variações. Foto de Fernando Carvalho.

Sabiá-laranjeira de costas Fernando Carvalho

Normalmente, tem o bico reto de cor amarelo-oliva, as patas cinza, o olho negro circundado finamente de amarelo e a penugem do dorso de um tom uniforme marrom-acinzentado. Foto de Fernando Carvalho.

O sabiá tem,em média, 25 centímetros. As fêmeas tendem a ser maiores que os machos.

Ele pertence à ordem Passeriformes e à família Turdidae, que migrou da Europa para a América há cerca de 20 milhões de anos. A denominação científica da espécie é Turdus rufiventris, tendo sido descrito pela primeira vez por Louis Jean Pierre Vieillot em 1818. Foram descritas duas subespécies: Turdus rufiventris rufiventris e Turdus rufiventris juensis.

Penugem

O laranjeira é o mais conhecido de todos os sabiás, identificado pela cor de ferrugem do ventre, mas existem variações.

Normalmente, tem o bico reto de cor amarelo-oliva, as patas cinza, o olho negro circundado finamente de amarelo e a penugem do dorso de um tom uniforme marrom-acinzentado. A garganta é esbranquiçada rajada de marrom, o peito é cinza-pardo, que vai mudando para um alaranjado opaco no ventre. As fêmeas tendem a ser um pouco mais claras no ventre. Pode, inclusive, ocorrer o leucismo, que é a perda parcial ou total de melanina, as vezes denominado erroneamente de albinismo.

Sabiá-laranjeira, ninho em 17-10-2014 no Parque da Cidade em Brasília Leninha Caldas

Como nesse caso, captado pelas lentes de Leninha Caldas no no Parque da Cidade em Brasília, o ninho é feito entre setembro e janeiro em arbustos, árvores de folhagem densa e cachos de banana.

A existência de colorações aberrantes, incluindo albinismo, não é rara, mas a causa disso não é bem esclarecida. Pode estar ligada a alterações no seu meio-ambiente ou mutações genéticas.
O ninho é feito entre setembro e janeiro em arbustos, árvores de folhagem densa e cachos de banana, empregando fibras e gravetos ligadas por um pouco de lama, num formato de tigela funda. Por dentro são revestidos de materiais mais macios como hastes de flores e capim. Põe de três a quatro ovos verde-azulados pintados de sépia, que medem 28 x 21 mm.

Sabiá-laranjeira filhotão Fernando Carvalho

Os filhotes nascem após treze dias de choco e em três semanas podem deixar o ninho. Foto de Fernando Carvalho

Os filhotes nascem após treze dias de choco, recebendo atenção de ambos os pais. Em três semanas podem deixar o ninho. Cada fêmea choca três vezes por ano e pode gerar até 6 filhotes por temporada. O sabiá-laranjeira pode viver até dez anos na natureza.

Hábitos e alimentação

Sua nutrição se compõe basicamente de artrópodes, larvas, minhocas e frutas maduras.

Pode se tornar um predador importante de sapos e rãs logo que deixam a fase de girino. É um importante dispersor de sementes das espécies frutíferas que consome, pois ou regurgita as sementes em outros locais ou elas saem em suas fezes fertilizantes e com isso se tornam mais aptas à germinação.

Sabiá-laranjeira em 15-07-2015, no jardim de casa Leninha Caldas2

O sabiá-laranjeira tem um canto melodioso, aflautado e longo. Pode ser ouvido a mais de 1 km de distância. Foto de Leninha Caldas.

Como outras espécies de sua família, pode se reunir em bandos mistos que empregam diferentes estratégias para melhorar suas chances de boa alimentação, o que lhe confere uma vantagem adaptativa para ocupação de áreas degradadas e urbanas.

Canto

De acordo com o ornitólogo Johan Dalgas Frisch, não existem dois sabiás que cantem da mesma maneira. É um canto melodioso, aflautado e frequentemente logo denuncia sua presença. O canto do sabiá é longo e pode ser ouvido a mais de 1 km de distância. Pode durar até dois minutos sem interrupção. A frase principal tem de 10 a 15 notas, mas ele é capaz de imitar as vocalizações de outras aves como o curiango e o joão-de-barro e assimilar trechos em seu próprio canto, em inúmeras variações. Canta principalmente no período reprodutivo, antes do amanhecer e ao anoitecer, para atrair a fêmea e demarcar seu território.

“os sons maravilhosos do sabiá desabrocham nos jovens corações veios poéticos, tão puros e belos como se um cego abrisse seus olhos ao ver a luz e as cores das flores na terra…. uma lenda indígena assegura que quando uma criança ouve, durante a madrugada, no início da Primavera, o canto do sabiá, será abençoada com muita paz, amor e felicidade” – relata Johan Dalgas Frisch.

Ouça o canto do sabiá-laranjeira no vídeo da Pássaro Brasil

 

Sabiá-laranjeira no coqueiro Rita 2

Como descreveu Gonçalves Dias no poema Canção do Exílio, o sabiá tem predileção pelas palmeiras. Foto de Rita Marciano, captada no Lago Sul – DF

Importância cultural

É citado por diversos poetas como o pássaro que canta o amor e a primavera.

Na literatura é frequentemente citado como o pássaro que canta o amor e a primavera, as origens, a terra natal, a infância, as coisas boas da vida, sendo imortalizado por Gonçalves Dias na abertura de seu célebre poema Canção do Exílio. Escrito em julho de 1843, em Coimbra, Portugal, o poema, por conta de sua alusão à pátria distante, tema tão próximo do ideário do Romantismo, tornou-se emblemático na cultura brasileira.

Confira no vídeo abaixo, produzido pela Poemate, a declamação do poema de Gonçalves Dias, na interpretação de Rodrigues Vanzuita.

Outros autores famosos também deram ao sabiá-laranjeira notoriedade artística, como Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado. Luiz Gonzaga, Milton Nascimento e Patativa do Assaré.

Sabiá-laranjeira em , no jardim de casa Fernando Carvalho

Chico Buarque e Tom Jobim também homenagearam o pássaro. Foto de Fernando Carvalho no bairro Jardim Botânico, em Brasília.

Chico Buarque e Tom Jobim também homenagearam o pássaro. Compuseram em 1968 em conjunto com  a canção Sabiá, que como o próprio título demonstra, traz a ave em destaque, embora ali a ave apareça com o gênero feminino, o que, segundo o autor, deriva dos usos dos caçadores.

 

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Abaixo, 48 outras aves comuns à Capital Federal.
Clique no enlace e confira. 

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Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasília - DF, Cerrado, Distrito Federal, Fauna & Flora, Meio ambiente e marcado . Guardar link permanente.

6 respostas para Você conhece as aves de Brasília? Conheça aqui o Sabiá-laranjeira

  1. carmen r dias disse:

    Muito bom saber tudo isso sobre os sabiás. Sempre me intriga o fato de que eles chegam em setembro e vão embora em janeiro. Para onde? É como se fosse sempre o mesmo sabiá que chega. Ele vem cantar no pé de manga, no pé de laranja do quintal, na sibipiruna da calçada da rua, e eu canto com ele, ele puxa, dá uma parada, eu entro buscando acertar o mesmo canto, mas dificelmente consigo. Ele vem várias vezes por dia, é encantador, mas daí ele vai embora, e é como se estivesse indo embora um grande amor. Eu sei que ele voltará. A Primavera virá, trazendo-o com as primeiras flores, com os verdes começando a vicejar.
    Ainda bem que há árvores nos viizinhos e o som do seu canto se demora mais.
    Muito bom ler tudo isto. Muito agradecida.

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