Por Aylê-Salassié F. Quintão*
  

O cidadão brasileiro não sabe nem a metade das histórias  sobre a quantidade de acidentes de trabalho e tragédias naturais que ocorrem no País. São mais de 800 mil eventos por ano. Desastres naturais provocados por pequenos tremores, vazamentos em barragens, desmoronamentos, enchentes, secas, queimadas chegam a perto de três mil. O restante fica por conta da indústria e da agroindústria. Assim, a catástrofe da mineração Samarco é apenas mais um desses acontecimentos graves que vem se somar aos sinistros do vazamento de mercúrio de uma indústria no rio Paraíba do Sul, às enchentes no vale do Itajaí, aos mais de cem desastres na aviação civil, as dezenas de barcos que afundam diariamente no rio Amazonas, aos acidentes rodoviários diários.

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Isso remete à Primeira Conferência Mundial de Meio Ambiente, na Suécia, em 1972. O chefe da delegação brasileira, ministro Costa Cavalcante, contestou, à época, as advertências públicas sobre os impactos ambientais das políticas industrializantes, convocando os empreendedores do mundo a vir poluir no Brasil, onde as normas de qualidade e segurança não eram tão rígidas. Precisava-se aqui de gerar empregos: a população crescia, a migração interna era incontrolável, os problemas urbanos  tornaram-se graves, a seca e a fome no Nordeste não arrefecia. E as empresas vieram. Havia incentivos fiscais, matéria prima à vontade, e mão de obra barata. O Brasil tornou-se o maior produtor mundial de celulose, passou a abrigar um dos mais pujantes parques automobilísticos do mundo, surgiu uma siderurgia moderna, e a construção civil levantou grandes hidrelétricas, aeroportos, portos. Tornamo-nos  uma grande economia.Chaminé fumaçaA busca por um lugar entre os exportadores industrializados exigiu novos planos energéticos, inclusive a diversificação das fontes geradoras limitadas até então as hidrelétricas e térmicas. Entre elas estava a energia nuclear. O Brasil precisava entrar no clube dos países atômicos.  Ajudou muito  os entreveros com a Argentina, que construía a sua Usina Atocha. O Brasil optou pela compra de dez usinas nucleares da Alemanha. Funcionaria como fonte de suprimento alternativa de energia, absorveria tecnologias sofisticadas, capazes inclusive de processar o urânio, já que se dispunha aqui de algumas reservas importantes.Contratou-se uma consultoria para reavaliar a qualificação da indústria brasileira para absorver a tecnologia que seria disponibilizada. Um estudo detalhado do parque industrial brasileiro descobriu, na época, que não havia uma empresa sequer que tivesse padrões de qualidade capazes de participar do programa. Foi um susto. As empresas existentes deveriam passar por um up grade visando elevar o nível de qualidade e segurança dos componentes que viriam a ser demandados. Mudaram-se os currículos das escolas visando à formação técnica, de preferência nos campos eletro e eletrônicos já no ensino médio, e centenas de técnicos e engenheiros, físicos e químicos foram realizar cursos e treinamentos na Alemanha. O País teve um enorme incremento na sua qualidade industrial. Para orientar a absorção tecnológica, criou-se a Nuclebrás.Usina de angraNo meio da negociação com a Alemanha, aconteceram grandes sinistros em usinas nucleares na Rússia, nos Estados Unidos e no Japão, acusadas de envenenamento do ar atmosférico e de contribuir para o aumento do buraco de ozônio, gás que filtra os raios solares ultravermelhos que descem sobre a terra, além de provocarem danos físicos locais de grandes proporções.Daí emergiu a exigência de relatórios de impacto ambiental e certificação de qualidade para os grandes investimentos tanto rurais quanto industriais, medidos pelo o que foi chamado de ISO (International Organization for Standardization). Era exigência para a participação do Brasil no comércio mundial. Tudo ficou muito nebuloso. Os custos, sobretudo industriais, quase inviabilizaram  as empresas brasileiras. O neoliberalismo fez novamente vista grossa aos padrões técnicos, e a economia de consumo amplo, emprego pleno e distribuição de renda os ignoraram.Ninguém nunca mais falou em Nuclebrás, em Inmetro, em Ibama, INPI e outros órgãos certificadores de qualidade que existem por aí.Gradualmente, esqueceu-se a necessidade da aplicação das normas ISO para garantir a qualidade e a segurança dos produtos.A construção civil passou a usar padrões próprios para suas obras. Os relatórios de impacto ambiental eram olhados com desconfiança, e a presidência da República intervinha aqui e ali para liberá-los, como foi na hidrelétrica do Xingu.Represa ParacatuAlém de ser uma aberração, os reservatórios de rejeitos químicos a céu aberto nunca mereceram fiscalização adequada. Eram tratados como algo morto, assim como os pequenos tremores de terra têm sido desprezados, e a seca no Nordeste vira literatura. Fisiológicos, os governos não tem tempo para pensar neles. Os atendimentos são casuísticos, e a Defesa Civil amarga com falta de recursos para prevenção. De conversa em conversa fiada, enterrando uma ou outra vítima, o brasileiro vai levando tudo numa boa. A dinâmica da vida social absorve rápido os grandes dramas, sem perceber o estágio civilizatório em que estamos.

Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais
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