Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna

 

Escritos achados no lixoOLYMPUS DIGITAL CAMERA

Não exalam boa procedência,

Talvez, nem decência, uma vez

Desabafos tardios de ofensas, mas…

 

Para você, que adora telas de Van Gogh,

Eu escrevi este poema gago,

Agora, revisitando galerias

De chicletes musicais insistentes.

 

Se você ainda está com raiva,

Sabe aquela versão de She,

Cantada em inglês por um francês,

Romântico, nome de abajur?

 

Há um trecho, “The mirror of my dreams”…

Uma vez, um cara me disse assim:

Isso é tipo trilha de motel.

Qual o repertório de sua mãe? [Perguntei].

 

Ele se foi, eu vim

Para casa ruminar com Bob Dylan.

“How many roads must a man walk down?”,

Até que ele respeite Joan Baez?

 

Músico com sax na neve PragaTem gente que distribui olds hits pelo Face,

Eu curto todos, mas com um certo luto.

Quantas biografias com bílis de Holliday?

Mas, até Hollywood descobriu Porgy and Bess.

 

Janis, o mesmo (sagrado, rasgado) Summertime.

Uma vez, indagada sobre esguichos,

Ela respondeu, muito simples,

Eu canto com a vagina.

 

Eu vi, meninas, eu vi,

Joe Cocker, no píer de Nova York,

“With a little help from my friends”,

Um certo cacoete, dedos espichados, em estertor.

 

Agora, me diga, qual a razão

Halopática, homeopática, holonômica,

De alguém gravar e ouvir a mesma faixa

Mil e uma vezes em mil e uma noites?

 

Pode ser uma forma monástica de açoite,

Maneira de purificar podres fossas,

Até que um dia, ‘here, comes the sun’,

Não haja mais enjoo, só abstinência.

 

Claves, tanto faz, seja fá ou faça sol,OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Se vier a calhar, até pestana em bemol.

Pode ser fado, tango, violino cigano…

Nessas horas, a alma nunca se engana.

 

Prefiro, é vero, vozes agônicas,

Das lúcidas, às mais líricas.

Tudo que eu queria dizer é que não me esqueci da sua dica:

Ouvir cem vezes “Hundred Miles”.

 

Hoje, tão distante, no tempo e no espaço,

Vago como nave, já na ultrapassagem de Plutão.

Eu nunca mais ouvi no rádio aquele bilhete brega:

‘Risque meu nome do seu caderno…’

 

Também nunca mais andei de terno,

Tampouco virei hippie eterno.

Shankar, family, friends e a sua Anoushka.

Às vezes, até eu imagino cítaras para Vênus.

 

Quando você reaparecer, já sei do que dizeri,

De quantas vezes me enganei,

Achando que aquela, sim, era a legítima lágrima,

De quando se misturam velhice e música.

 

Não disse, não avisei?

Eram tão somente rabiscos,

Mas, depois de esperto copy,

Viraram revival, bolachão de long play.

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