Comércio de Brasília na contramão do País

O resultado magro das vendas já se revela no desempenho do comércio candango vis-à-vis com a realidade nacional. DF apresenta queda de 6,84%  nos setores de comércio e serviços. 

Por Chico Sant’Anna

Quem mora em Brasília sabe que muitos produtos apresentam aqui preços mais elevados do que os praticados em outros Estados ou mesmo nas lojas virtuais da Internet. A diversidade de marcas também não é a mesma, em, especial quando se compara com as Regiões Sul e Sudeste. Há quem diga que os impostos e a mão-de-obra da Capital Federal são mais elevados do que em outros locais e ai pressionam os preços. Mas há também quem analise que os comérciantes do Distrito Federal trabalham com margens de lucros mais elevadas e que estão perdendo a corrida da modernização de seus negócios.

Independentemente de quem tem razão, o resultado magro destas vendas, caracterizadas por preços mais caros, já se revela no desempenho do comércio candango vis-à-vis com o desempenho nacional. A recém divulgada Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, referente ao mês de fevereiro, revelou que as vendas no varejo em todo o Brasil apresentaram alta de 1,2%.

Para o mesmo período, os dados candangos do IBGE apresentam um tímido crescimento de 0,3%. Entretanto, a Pesquisa Conjuntural de Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal, realizada pelo Instituto Fecomércio, apresenta queda de 6,84%  para os setores de comércio e serviços do Distrito Federal .

Muitos consumidores pesquisam nas lojas, mas fecham negócio no mundo virtual do e-comércio.

É certo que a crise tem afugentado os consumidores, mas Brasília, assim, apresenta um comportamento inverso ao registrado em dezessete das 27 unidades da federação.

No Brasil, como um todo, o volume vendido pelo comércio varejista apresentou a taxa mais alta registrada desde julho de 2013, quando o avanço foi de 3,0%. A alta no volume das vendas de fevereiro foi impusionada pelas boas vendas vendas de veículos, motos, auto-peças, (+3,8%); e material de construção, (+3,3%),

Já na Capital Federal, segundo a Fecomércio, entre o segmentos que registraram queda em fevereiro no Distrito Federal destacam-se: Cama, Mesa e Banho (-16,46%); Cosmético e Perfumaria (-16,36%); Vestuário e Acessórios (-13,11%); Auto-peças e acessórios (-11,69%); Ferragens e Ferramentas (-11,33%); Minimercados, Mercearias e Armazéns (-11,14%); Joalheria (-10,44%); Farmácia (-9,18%); Calçados (-6,64%); Padaria e Confeitaria (-5,91%); Ótica (-5,47%); Papelaria e Livraria (-4,18%) e Móveis (-3,42%).

Suprimentos de informática e material de construção têm apresentado bom desempenho nas vendas no DF

Na contramão, os únicos setores que apresentaram alta nas vendas foram: Material de Construção (9,53%); Suprimento de Informática (8,93%); Artigos de Armarinho, Souvenires e Bijuterias (4,65%) e Comércio Varejista de Bebida (0,50%).

Esse baixo desempenho do comércio candango tem reflexos no nível de emprego e na arrecadação do ICMS, um dos principais receitas fiscais que formam o caixa do GDF. No mesmo mês de fevereiro, o desemprego na Capital Federal atingiu níveis alarmantes de 265 mil desempregados, segundo pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Dieese e da Codeplan. A taxa de desemprego de 17,2%, foi vitaminada exatamente pelos setores de Serviço e Comércio que, respectivamente, fecharam naquele mês 17 mil e 1.000 vagas de trabalho.

Metade da renda do Distrito Federal advem dos salários de servidores públicos distritais, federais e funcionários de organismos internacionais. Essa característica propicia uma tranquilidade financeira aos comerciantes, pois não estão vulneráveis a desequilíbrios financeiros monetâneos. Entretanto, esses mesmos servidores têm muita facilidade em comprar os bens que necessitam em outros Estados e até países, bem como fazer compras pela internet. O chamado e-comércio tem se mostrado uma excelente alternativa na busca de bons negócios para o consumidor, apresentando faturamento muito acima do registrado no varejo tradicional. Para este ano, preve-se um crescimento no faturamento deste segmento comercial de 8%.

A proliferação de quiosques – alguns mantidos até por comerciantes que também atuam legamente – não contribui para a geração de empregos e arrecadação de impostos no DF.

Falta ao comerciante local uma visão mais agressiva, que permita inclusive atrair compradores de outros Estados, como acontece com São Paulo. Parte dessa mudança de comportamento passa pela modernização de suas estruturas de vendas, capacitação de seus profissionais e, principalmente, reduzir a ganância. Uma margem de lucro mais realistica, certamente desmotivaria os consumidores candangos a buscarem além fronteiras os bens que necessitam. Um bom exemplo é o preço da gasolina e do alcool combustivel.

O governo do Distrito Federal também tem que fazer sua parte para um melhor desempenho do Comércio e Serviços no Distrito Federal. Seu papel passa necessariamente pelo combate à informalidade. A proliferação de quiosques – alguns mantidos até por comerciantes que também atuam legamente – não contribui para a geração de empregos  e arrecadação de impostos. Ipea estima hoje que a economia informal em todo o Brasil gere cerca de 40% da renda nacional. Brasília não deve estar longe disso.

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasília - DF, Brasil, Comércio & Serviços, Distrito Federal, Economia & Finanças, Emprego & Mercado de Trabalho, GDF. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Comércio de Brasília na contramão do País

  1. Luiz Hogem disse:

    Quando políticas de valorização do microempresário foram irrelevantes para o Governo Federal, indo na contramão de uma governança voltada ao incentivo fiscal, investimentos em setores produtivos, infraestrutura viária, portuária e fomento em energia limpa, por efeito cascata a crise veio a galope e o descompasso social evidente.

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