Catador em bicicleta (2)
A pesquisa revelou que o uso de bicicleta no Brasil é uma opção que se faz mais presente entre os mais pobres. Foto de Chico Sant’Anna.

Na comparação com outras regiões metropolitanas, o DF possui a menor proporção de deslocamento em bicicleta, tanto entre os mais ricos quanto entre os mais pobres em ambos os sexos.

Por Chico Sant’Anna

O velho adágio de que Lúcio Costa projetou Brasília para um ser humano formado por cabeça tronco e rodas parece persistir no cotidiano da Capital Federal. O Distrito Federal é a região metropolitana do Brasil onde existe a menor frequência de deslocamentos a pé ou de bicicleta, tanto por homens, quanto por mulheres. Os dados são da pesquisa Diferenças socioeconômicas e regionais na prática do deslocamento ativo no Brasil, de autoria de Thiago Hérick de Sá, Rafael Henrique Moraes Pereira, Ana Clara Duran e Carlos Augusto Monteiro, recém-publicada na Revista de Saúde Pública, editada pela Universidade de São Paulo.

Leia também:

tabela uso de bicicleta no BrasilCom base nos dados coletados pela Pnad 2008, os pesquisadores avaliaram os hábitos de deslocamentos em dez de suas regiões metropolitanas (Belém; Belo Horizonte; Curitiba; Distrito Federal; Fortaleza; Porto Alegre; Recife; Rio de Janeiro; Salvador e São Paulo). Foram considerados fatores como perfil de renda, escolaridades, idade, sexo e local de trabalho- se área urbana ou rural.

Foto de Chico Sant'Anna
No Brasil, aproximadamente, um terço dos homens e mulheres se desloca ativamente para o trabalho em bicicletas. Foto de Chico Sant’Anna.

A pesquisa revelou que o uso de bicicleta no Brasil é uma opção que se faz mais presente entre os mais pobres. “A depender da região metropolitana, a prática de deslocamento ativo entre os mais pobres é de duas a cinco vezes maior do que entre os mais ricos. Em ambos os sexos, esta proporção diminui com o aumento da renda e da escolaridade e é maior entre os mais jovens, entre os que residem em área rural e naqueles residentes na região Nordeste.”

“Quanto ao Distrito Federal – diz o trabalho científico -, na comparação com outras regiões metropolitanas, a menor proporção de deslocamento ativo tanto entre os mais ricos quanto entre os mais pobres em ambos os sexos parece ser reflexo da singularidade do planejamento urbano de Brasília – pautado no deslocamento por automóveis – e das longas distâncias que boa parte da população precisa percorrer entre as cidades-satélites e a capital, onde se concentra a maior parte dos empregos.”

Bicicleta no Park Way
No Distrito Federal, a falta de vias adequadas para o deslocamentos em bicicletas contribui para um percentual menor de cidadãos que usam esse meio para ir ao trabalho. Foto de Chico Sant’Anna.

Aproximadamente um terço dos homens e mulheres se desloca ativamente para o trabalho no Brasil, proporção similar àquela encontrada em países europeus, como França (34,9%) e Holanda (37,9%), e inferior à encontrada na China (46,1%).

No Brasil, o deslocamento ativo para o trabalho é mais frequente entre os homens em apenas algumas regiões metropolitanas (Recife, Belém e Fortaleza), na zona rural e entre os mais velhos (a partir dos 55 anos); sendo superior entre as mulheres nos estratos superiores de renda e escolaridade.

No Distrito Federal, cerca de 5%dos homens mais ricos usam a bicicleta ou se deslocam a pé para o trabalho, proporção que pula para 20%, quando são analisados os homens mais pobres. Dentre as mulheres, a proporção é de, aproximadamente, 3% para as mais ricas e de 17%,para as mais pobres. Entretanto, a Capital Federal é a região metropolitana pesquisada que apresenta a menor diferença entre pobres e ricos.

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