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Bogotá: a população colombiana se dividiu, praticamente, na metade entre os que apoiavam o acordo de paz e os que eram contra. Foto de Chico Sant’Anna

Por Aylê-Salassié F. Quintão*

Enquanto alguns brasileiros ocupam-se surpresos da derrota do PT nas eleições municipais, um clima de insegurança e frustração toma conta da vizinha Colômbia. O povo colombiano recusou (02/10) também o acordo do governo central, assinado estratégica e previamente, antes do plebiscito popular, com as Farc –  Forças Armadas Revolucionárias, e que, supostamente, levaria à supressão das atividades guerrilheiras no País.

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Aqui a dor é grande, lá é ainda maior. Em nome da reforma agrária, as Farc, que terminaram por ser financiadas pelo narcotráfico, protagonizaram episódios de extrema violência , que resultaram na morte de mais de 200 mil pessoas, a maioria civis, ao longo de 50 anos de atividade. Com o acordo , mediado por Havana, pretendiam as partes jogar para debaixo do tapete, atos de suprema covardia, como em La Chinita, uma vila pobre a noroeste da Colômbia.

Ali, um grupo de jovens guerrilheiros invadiu a festa de uma escola para arrecadar fundos, e sem titubear e executou friamente 35 pessoas na frente dos familiares, dos professores e dos estudantes – e pasme-se – muito antes da degola de civis promovida pelos militantes do Estado Islâmico (EI), que tanto assusta o mundo.

Era uma disputa de espaço entre grupos políticos de esquerda. Isso aconteceu há 22 anos. A maioria dos civis sobreviventes da chacina está ainda viva e, surpreendentemente, foi induzida, pelo governo, à passividade do perdão, num estilo que só Mahatma Ghandi soube conduzir na luta dos indianos contra os ingleses. A ação violenta das Farc, ao invés de estimular a reforma agrária, provocou uma debandada de 6,9 milhões de pessoas do campo, desestruturando a produção agrícola do País.

Para um perdedor, as Farc, um exército revolucionário de inspiração comunista, constituído em torno da temática da reforma agrária, e que chegou a ter perto de 50 mil militantes, distribuídos em mais de 40 focos pelos interior daquele país, o acordo levaria ao fim das suas atividades armadas. Com ele, as Farc, transformadas em partido político, ganharia dez cadeiras no Parlamento, os guerrilheiros individualmente seriam contemplados com uma espécie de bolsa família por dois anos, casa para morar, e perdão para um grande número de atos explicitamente criminosos. Submetido o acordo a um plebiscito, a população o rejeitou, gerando um novo impasse político para o País, de rumos imprevisíveis.

A Colômbia, um país que, mesmo em guerra com as Farc e mais dois ou três movimentos revolucionários, tem apresentado resultados favoráveis na economia- superou o Brasil nas exportações de café – sinalizava, com o acordo, para uma expansão econômica incomum na América Latina nos próximos anos.
A situação na Venezuela bolivariana poderia estar ainda mais grave, não fosse a Colômbia suprindo de alimentos às populações da fronteira. Por isso, pode-se dizer que se aqui há um desolamento com a saída do PT das luzes dos holofotes da política, lá é frustração acompanhada de desesperança, pior que o acordo do Brexit – da saída da Inglaterra da União Européia .

O que pode significar essa rejeição popular:
1 – que a tomada do Poder pela força não se sustenta nem na Colômbia, nem no Brasil. O mundo do trabalho (ou do desemprego) tem outra configuração daquele que deu origem no Brasil, a CLT ou às mobilizações operárias do início do século passado;
2 – Que a população não é tão idiota quanto imaginam aos pequenos grupos que se propõe à salvação da Pátria;
3 – que a população não apóia a luta armada, nem as atividades de movimentos do tipo Black Bloc;
4 – que a população não quer se ver diante do chamado caos pré-revolucionário, que no Brasil tomou, inclusive, rumos inesperados, com seus líderes deixando-se seduzir pelas fantasias da acumulação privada do capital.

Já que o brasileiro é pouco ligado a assuntos da América Latina – e tampouco conhece o que está acontecendo na Colômbia – é recomendável mesmo sempre passar a limpo, junto à opinião pública, as configurações de mundo de organizações construídas no submundo da política ou surgidas de interesses patronais e sindicais. Ignoram quase sempre os amplos direitos da cidadania, e agem na direção que lhes convém. Nunca parecem se preocupar, de fato, com a população, nem com os milhares de desempregados.

O bom senso recomenda pensar, neste momento, em saídas mais honrosas, do que em reajustes salariais absurdos e atitudes fora de contexto, mais próximas do chantagismo, até no serviço público, e propor soluções mais convergentes.

As eleições brasileiras demonstram, com a derrota dos supostos revolucionários – inclusive os armados – que os 200 milhões de brasileiros não são tão ignorantes, e que o povo não se ilude com a paz e a segurança virtualizados nos discursos otimistas, nem há espaço para o caos , seja a título do que for.

*Jornalista, professor e doutor em História Cultural

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