Em escolas ocupadas, adolescentes dão aula de cidadania

 

ocupa-escola-coletivaTexto e foto por Roberto Seabra*

Entre o final dos anos 70 e início dos anos 80 do século passado, freqüentei o Centro Educacional Gisno, que na época se chamava Ginásio do Setor Noroeste. Mudou o nome, mas a sigla permaneceu. Lá fiz a sétima e a oitava séries do antigo Primeiro Grau. Foram meus últimos anos em escola pública. Fiz o Segundo Grau, atual Ensino Médio, em um colégio privado. Era o início do declínio do ensino público, com o arrocho salarial aos professores e as primeiras greves da categoria.

No feriado de 2 de novembro de 2016, quase quarenta anos depois, voltei ao Gisno, agora para acompanhar uma coletiva à imprensa, dada pelos estudantes que ocupam as escolas públicas do DF, em protesto contra a reforma do Ensino Médio, via medida provisória, e contra a PEC que limita os gastos públicos pelos próximos 20 anos.

Uma das frases ditas por um estudante de dezessete anos, aluno do Setor Leste, ecoa até agora. “Queremos uma escola democrática, que escute os alunos e onde a comunidade participe do seu dia a dia.”

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Outra aluna, da mesma idade, disse que muitos estudantes abandonam a escola pública não apenas pela má qualidade do ensino ou das instalações. “A evasão também está ligada ao preconceito. Racismo, homofobia, machismo, tudo isso nos afasta das escolas”, disse.

Um terceiro estudante, de apenas dezesseis anos, lembrou que o governo quer, por medida provisória, repito, instaurar o ensino integral de sete horas. “Nós não agüentamos ficar aqui cinco horas, vão nos obrigar a ficar sete? Fazendo o quê?”

As falas desses três jovens resumem bem o que eles querem e o que falta à proposta do governo para o Ensino Médio: escola democrática, currículo inclusivo e conteúdo atrativo, que faça a ligação entre o mundo do saber e a vida lá fora.

Durante as três horas que fiquei no Gisno, vi adolescentes preocupados em melhorar as instalações do colégio (chegaram a arrumar uma porta de uma sala de aula que estava em vias de desabar). E ouvi avaliações certeiras sobre a situação política e econômica do Brasil: “Melhor do que reduzir os gastos públicos é fazer uma auditoria da dívida pública. Não podemos cortar na educação e permitir que os investidores continuem ganhando rios de dinheiro com a especulação”, disse um deles, com razoável conhecimento da realidade do país.

Pensei nos meus 16 ou 17 anos, quando me importava mais com futebol e namoradas, e senti um pouco de pena desses jovens. Ainda nem entraram no mercado de trabalho e já precisam se preocupar com taxa de juros e outros temas que só passei a conhecer na universidade.

Mas o que vi ontem no Gisno é também um alento. Os jovens de hoje, pelo menos aqueles que conheci, não são alienados, como muitos pensam, nem entraram nesse movimento apenas em busca de aventura. Eles brigam pelo futuro deles, deles e do país, pelos próximos vinte anos.

 

*Roberto Seabra é jornalista, professor  e servidor público federal

Sobre Brasília, por Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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2 respostas para Em escolas ocupadas, adolescentes dão aula de cidadania

  1. Aplausos para o autor do artigo. Mais aplausos ainda para a garotada inquieta e que sabe o que deseja que nosso país se transforme. E luta por essa transformação.
    Ainda há esperança, pois há jovens como os que ocupam as escolas. Eles merecem todo o apoio de quem quer um país melhor. Um povo forte.

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  2. Roberto Seabra disse:

    Obrigado Taciano. Essa garotada merece mesmo todos os nossos aplusos

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