O paraíso perdido das assombrações

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A semana dos mortos é hoje também cercada por um espírito burlesco. Fantasiada de mortos vivos, fantasmas ou feiticeiras, a juventude realiza enormes festas privadas. Foto de Chico Sant’Anna.

Por Aylê-Salassié F. Quintão* Foto de Chico Sant’Anna.  

Durante uma semana, contada a partir do dia 28 de outubro, os mortos vão inquietar o espírito de pessoas que tem medo de assombrações, tomando conta das ruas, das igrejas, das casas e dos corações. É o Dia de Finados, em que  simples lembranças de parentes e amigos mortos os  libertarão na memória,  nas conversas  , nos sermões nas igrejas, nas visitas aos cemitérios. Esses ausentes estarão imaterialmente presentes na vida  dos humanos e, quiçá, até  no espaço da política, como é o caso de Chavez,  “ O passarinho”, na Venezuela.  Pela internet será possível conversar com  milhares, senão milhões, deles. Emails não cancelados são utilizados pelos mais próximos e também políticos, com o fim de celebrar seus mortos ou usá-los para as suas conveniências.

Preocupa saber que as celebrações dos mortos sempre surpreendem não apenas por excessos de consternação, pela irreverência da juventude, mas também pelo seu caráter  virtualmente aterrorizante.  Há, no mundo, gente sem muito apego aos valores da vida material e que, inspirada pelo Halloween,  parece disposta a praticar atos de extrema violência  contra pessoas.  Aqui perto, no Pará, no município de Altamira  foi preso há alguns anos um grupo de místicos, que sequestrava crianças para extrair delas os órgãos sexuais, com o propósito de transformá-los em objetos de rituais ocultos. Em Brasília, sem pedir para ninguém, o patologista retirou, na autópsia, o coração de Luís Eduardo, ex-presidente da Câmara, filho de ACM,  e o guardou num armário: “interesse científico”, justificou, ao ser descoberto.

Na França, reproduzindo o comportamento de pessoas infectadas pela peste nos séculos XIV e XV, as pessoas disfarçavam-se cobrindo o rosto para não serem identificadas com os mortos-vivos vítimas da epidemia, mas ainda vivos. Multiplicaram-se daí as missas, as festas dos defuntos, as danças macabras para homenagear os mortos e os que estavam próximos ao desenlace da vida.

No México, ao contrário,  e em alguns países da América Central,  os familiares promovem verdadeiros  banquetes dentro dos cemitérios, com o propósito de atrair seus mortos para a vida.

A semana dos mortos é hoje também cercada por um espírito burlesco. Fantasiada de mortos vivos, fantasmas ou feiticeiras, a juventude  realiza enormes festas privadas, encenando a presença dos mortos na vida das pessoas na Idade Média, quando fiéis, adornavam as paredes dos cemitérios no dia de Finados, com imagens do diabo puxando uma fila de gente para a tumba: papas, reis, damas, cavaleiros, monges, camponeses, leprosos. Afinal, a morte não respeita ninguém.

A celebração aos mortos teve início  com os pagãos celtas, muito antes de Cristo. De tanto ser contada, reverenciada e perseguida, a prática  ganhou materialidade própria. No dia 31 de outubro os espíritos saíam dos cemitérios para se misturar aos vivos durante uma semana. Com o fim de se proteger e assustá-los, os vivos decoravam suas casas com caveiras, máscaras, ossos e ferramentas de tortura. O evento terminou estigmatizado pelos cristãos como “Dia das Bruxas”, que se tornou em motivo de agitação entre os jovens. O evento foi, entretanto, fonte de inspiração para a Inquisição instituir o crime de “bruxaria”. Os acusados eram queimados em praça pública, levando tais práticas a tornarem-se clandestinas por muito tempo.

Embora quatro séculos antes de Cristo os sírios já festejassem  seus mártires, somente nos anos 600 é que o Papa Bonifácio IV decidiu acolher esses tipos de manifestações, transformando o Panteão, templo romano dedicado aos heróis e aos deuses, em um lugar para homenagear os santos com vigílias e orações. Fixou, para isso, o dia  2 de novembro. A data chegou aos britânicos , sobretudo da Cornuália, pelas invasões romanas e ganhou o nome de All Hallow’s Eve (Vigília de Todos os Santos) e, entre eles, a abreviatura de Halloween, caracterizando o evento mesmo como o Dia das Bruxas, e abrindo espaço, inclusive, para o seu reconhecimento público. Recuperada, a tradição deu vida longa ao paganismo, que sobreviveu, na Europa em pequenos grupos e em algumas liturgias  do próprio cristianismo que as copiou dos pagãos.                    

Resistindo bravamente ao cristianismo, os sacerdotes druidas transmitiram, clandestinos e oralmente, seus segredos entre as gerações,  atuando como médiuns de familiares vivos e mortos, e administrando os espíritos dos que retornavam para visitar seus antigos lares. Orientavam os jovens sobre o outro mundo, inclusive nos momentos que antecediam as batalhas . Para estimular soldados à luta, pregavam que os mortos habitavam um lugar onde não havia fome, nem dor. A reinterpretação terminou por agregar, entre vários povos e religiões mesmo, a idéia de um paraíso, onde havia, além disso, mulheres à vontade para os mártires recém-chegados.

*Jornalista, professor, doutor em História Cultural

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Crítica social, Cultura, Festas & Eventos, Folclore, Religião, Sociedade. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para O paraíso perdido das assombrações

  1. Novembro
    2

    Dia de Finados

    No México, os vivos convidam os mortos, na noite de hoje de todo ano, e os mortos comem e bebem e dançam e ficam em dia com as intrigas e as novidades da vizinhança.

    Mas no final da noite, quando os sinos e a primeira luz da alvorada lhes dizem adeus, alguns mortos se fazem de vivos e se escondem nas ramagens ou entre as tumbas do campo-santo. Então as pessoas os espantam a vassouradas: vão embora de uma vez, deixem a gente em paz, não queremos ver vocês até o ano que vem.

    É que os defuntos são desse tipo de visita que gosta de ir ficando.

    No Haiti, uma antiga tradição proíbe levar o ataúde em linha reta até o cemitério. O cortejo segue em zigue-zague e dando muitas voltas, por aqui, por ali e outra vez por aqui, para despistar o defunto, e para que ele não consiga mais encontrar o caminho de volta para casa.

    No Haiti, como em todo lugar, os mortos são muitíssimos mais que os vivos.

    A minoria vivente se defende do jeito que dá.

    Eduardo Galeano no livro ‘Os filhos dos dias’,
    2ª edição, página 348, L&PM Editores

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