Poema de Fim de Semana: Se eu fosse gatuno

Interior da sede do ministério dos Negócios Estrangeiros da República Islâmica do Irã.

Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna

 

 

Roubaria o que?
Se tudo que posso levar são imagens,
Lembranças, quanto mais remotas, mais cofre,
Tesouros não avaliados, pois,
O que é do coração não vai a leilão.
Certa noite que passamos juntos?

Muitos se apegam a contas.
Suíça, Bahamas, algum paraíso,
Escondidinho fiscal, último baile?
Houve um tempo, cobiçava montanhas:
Alpes, Atlas, Ilimani, Machu Pichu… E
Cidades imaginárias do Himalia: Jambalaia, Xangri-Lá…

De quem quis furtar
Beijos, não consegui
E nem a minha timidez permitiu;
E nem o acanhamento acelerou.
E, depois, a cotação dos olhares furtivos é baixa,
Nenhuma bolsa os valerá no pregão.

Como surrupiar o perdão
De uma pessoa ofendida
E que nunca mais vi?
Roubaria uma noite de chuva
Ao lado de quem tanto senti,
Mas ela só queria um amigo.

Como garimpar riquezas
Que não brilham aos avaros?
Oh! Quanto um porto no crepúsculo da Ribeira!
Oh! Minha Lisboa antiga, de tantas cantigas!
Oh! Minha parenta, Amália Rodrigues!
O fado se canta é de olhinhos fechados.

Então, lampejos, ganas de ladrão.
Quanto ganho de larápio, cardápio erótico,
Fantasias de Mil e uma Noites, sultão
Solto no Village, multidão de casais,
Agarradinhos, fazia frio no cais,
Fim de noite numa casa de jazz.

Ah! Se querem uma delação premida:
Um tango em Buenos Aires,
Um banho escuro em Águas Calientes,
Titicaca, Puno, Cuzco, Arequipa…
Apetites limenhos ou, já me mudei para Argel.

Marrocos! Ah! Casablanca, Rabat, Fez…
Minha corrupção vai além de Marrakesh,
Mas, nada ficou no caixa, senão miragens.
Uma vez, subi, era Paris, mas era minarete
De um monte de notas falsas, cartões postais.

Não contem para ninguém, outro dia,
Nem achei que desse mais poesia,
Beijei um retrato, consagrado,
Primeira namorada, hoje, risadas.
Amanhã, quem sabe, direi a Borges:
Eu, sim, rabisquei, fui Pero Vaz de Caminha.

Sobre Brasília, por Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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