A história se repete: Temer 2016 imita Sarney 1986

badernaco-86-manif-vov-2016-2Por Chico Sant’Anna. Fotos de Orlando Brito e de populares

Novembro de 1986

O Brasil convive com inflação alta, desemprego, dívida pública incontrolável, economia em crise.

Novembro de 2016

O Brasil vive um quando semelhante.

Novembro de 1986

Plano Cruzado II libera preços de produtos, aluguéis e serviços, camufla os indicadores de inflação, definindo nova metodologia de cálculo. Impostos são majorados.

Novembro de 2016

Diante de dívida pública e de uma taxa de inflação crescentes, Temer anuncia pacote calcado até agora em seis pontos:

  • Privatização das Estatais, parques, aeroportos, rodovias.
  • Abertura do Pré-Sal às petroleiras estrangeiras
  • Reforma da previdência, para dificultar o acesso à aposentadoria,
  • Flexibilização de leis trabalhistas, com o intuito de baratear mão de obras.
  • Fixação de Teto das despesas públicas, inclusive Saúde, Educação, Segurança públicas, de forma a não contemplar evolução de gastos decorrentes do crescimento populacional, ou mesmo mudança do perfil da sociedade ( mais idosos, mais doentes crônicos, etc).
  • Reforma do Ensino Médio de forma a eliminar as disciplinas reflexivas, priorizando às técnicas, as que formam “apertadores de botão” e não “cidadãos pensantes”.

badernaco-86-manif-vov-2016Novembro de 1986 e de 2016

Trabalhadores, estudantes convocam manifestações contra as medidas econômicas governamentais. Em 86, a Esplanada dos Ministérios foi tomada por uma multidão até então só comparada à campanha das Diretas Já. Este ano, Brasília registra, após as manifestações de 2013, a Esplanada dos Ministérios volta a ser tomada por uma multidão, estimada em 10 mil pessoas, pelas autoridades policiais, e em 50 mil, pelos organizadores.

Em ambas as manifestações, tudo ocorria com tranquilidade – com as provocações que são costumeiras nesses protestos -, até que explosões de bombas de efeito moral começam a explodir. Há pânico e manifestantes são pressionados a recuar. Um recuo que deixa rastros de destruição e que, neste ano, a exemplo do verificado em 86, poderia ter se transformado numa catástrofe na Rodoviária.

manifestacao-pec-teto-coctel-molotovExpertise

As imagens de 1986 e de 2016 revelam uma expertise de depredação incomum, mesmo para movimentos sociais desta natureza. Nos dois protestos poucos foram os vândalos presos, embora largamente fotografados.

Em 86, tudo isso deixou uma pulga atrás da orelha do então governador José Aparecido – PMDB. Ele determinou uma investigação com a participação de entidades civis, como OAB e Sindicato dos Jornalistas. No final, comprovou-se que a depredação, inclusive a queima de viaturas policiais, tinha tido a participação de agentes do Estado, inclusive do militares à paisana.

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant'Anna, no semanário Brasília Capital.

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, no semanário Brasília Capital.

Em 2013, foi constatado que nas depredações do Itamaraty participou um militar dos Fuzileiros Navais. Até hoje, não foi explicado se ele estava ali como cidadão, ou à paisana, agindo para insuflar as massas. Ninguém sabe o que aconteceu com essa pessoa. Se houve punição.

As manifestações de agora explodiram e saíram do controle repentinamente. Será que tantos policiais não seriam capazes de evitar que o carro da TV Record fosse virado de cabeça para baixo? Será que o incêndio em veículos na Catedral não poderia ter sido apagado pelo Corpo de Bombeiros que estava com duas viaturas a poucos metros?

Por que com tantos recursos tecnológicos de segurança adquiridos para a Copa do Mundo, praticamente, ninguém foi preso no momento da depredação?

manifestacao-pec-teto-carro-virado2As fotos que circulam pelas redes sociais mostram pessoas virando carros, jogando coquetel- molotov com uma destreza especial.

Nada justifica a depredação e a violência. Mas muita coisa ainda não foi explicada. A exemplo de José Aparecido, o governador Rodrigo Rollemberg deveria determinar uma sindicância transparente, com a participação de entidades da sociedade, e apurar exatamente o que houve, se havia gente infiltrada desejosa de tumultuar e por que com tanta tropa na rua, não foi possível evitar o quebra-quebra que aconteceu.

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Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Ética na Política, Brasília - DF, Brasil, Congresso Nacional, Corrupção, Direitos Humanos, Direitos sociais, Distrito Federal, Economia & Finanças, Esplanada dos Ministérios, GDF, Governo Federal, Movimento Estudantil, Movimentos sociais. Bookmark o link permanente.

2 respostas para A história se repete: Temer 2016 imita Sarney 1986

  1. Pingback: A história se repete: Temer 2016 imita Sarney 1986 — Brasília, por Chico Sant’Anna | O LADO ESCURO DA LUA

  2. Quem viu o que viu na Esplanada em novembro de 1986, especialmente na via por trás da Catedral e na Rodoviária do Plano Piloto, local em que alguns veículos da polícia foram atingido por fogo e pedra, não há de ter alguma dúvida de quem provocou o conflito no último dia 29 de novembro.
    Aliás, quando a cavalaria desceu a ladeira próxima ao que hoje é o espelho d’água, e a tropa acuou e começou a agredir as pessoas que foram para junto do Ministério da Fazenda, ficou muito claro o que o governo queria. Como quis neste 29 de dezembro. A baderna provocada pelo governo. Queria o discurso para desmoralizar os protestos.

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