Subsolo de Brasília: artes colorem passagens subterrâneas no Eixão

arte-passagem-subterranea-4-rinoceronte-fotos-por-gabriel-limaReportagem de Bruno Santa Rita e Gabriel Lima. Fotos por Gabriel Lima*

As passagens subterrâneas no Eixo Rodoviário (o Eixão) atraem desconfiança de brasilienses que precisam atravessar uma das principais vias da cidade. Se por um lado, evitam o risco de atropelamentos, há quem evite esse caminho por medo de assalto. Quem percorre esse subsolo da avenida pode conferir uma verdadeira galeria de arte urbana, com intervenções que incluem imagens em grafite, colagens de figuras em papel (lambe-lambe) e pichações.

A pesquisadora em comunicação Ursula Diesel coordenou uma pesquisa acadêmica sobre o assunto que chegou à conclusão de que essa arte humaniza a cidade e que as passagens subterrâneas tornaram-se verdadeiras galerias de arte. “Quando a gente observou o espaço urbano, nós percebemos um grande objeto de comunicação. Tudo isso vira material para se pensar a cidade, a vida das pessoas deste local”, afirmou.

Para a professora, essas pinturas vão além do que está representado na parede. “Eu vejo as intervenções visuais urbanas deste tipo como uma tentativa de comunicação. Uma busca por expressar no espaço público urbano pensamentos, reflexões e sentimentos. Inclusive uma das coisas que orientou nosso projeto foi a percepção de que elas nem sempre são uma agressão”, disse.

Nossa pesquisa traz as intervenções urbanas como uma mostra do que a arte pode fazer para as pessoas”, Mayra Alves de Oliveira.

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A estudante Mayra Alves de Oliveira, que observou as intervenções artísticas de Brasília, comentou que o projeto partiu de uma hipótese de que as intervenções urbanas podem humanizar a cidade de alguma forma. “Gostei de saber que a maioria das pessoas tem uma percepção boa quanto às manifestantes. Traz certa liberdade e dá voz às intervenções”.

arte-passagem-subterranea-fotos-por-gabriel-limaSubterrâneos sociais

Em uma caminhada pela passarela, na travessia entre as quadras 205 até a 105 da Asa Norte, entre goteiras e odor de urina, é possível observar obras com temáticas sociais e políticas. Entre elas, figuras lambe-lambe, de “Senhor N”. A caminhada, por conta dessas artes e, segundo pessoas que passavam pelo local, deixa a sua passagem mais colorida e mais viva.

“Sim. Considero. Podemos dizer que temos um museu de arte contemporânea ao ar livre. Artes que trazem diversas mensagens com reflexão, mensagens positivas”, Mayra Alves de Oliveira.

A artista plástica Brixx*, 29, que atende artisticamente por “Brixx”, é artista plástica e também exibe suas artes nos subsolos do plano. “Esse é um espaço a mais na cidade e você, ao mesmo tempo em que o seu trabalho é visto pelas várias pessoas que passam por ali, é um lugar em que você corre um pouco menos o risco de ser vista e ser repreendido”, expôs.

“próprio cidadão que pode se incomodar e pode ligar para polícia, ele pode te agredir, te denunciar” , Brixx.

Uma das dificuldades que ela aponta é o risco que isso pode causar a sua integridade. “Na verdade, eu acho que é questão de aceitação social. Você não corre só o risco da polícia te ver e te abordar, como do próprio cidadão que pode se incomodar e pode ligar para polícia, ele pode te agredir, te denunciar”..

“Senhor N”, 19, sempre foi apaixonado por museus de arte e por intervenção urbana. Foi assim que ele teve a ideia de unir os dois colando “lambe-lambes” (colagem de posteres) com o conteúdo de obras de artes renomadas junto a placas com as informações das obras. O artista procurou colar seus lambes em paradas de ônibus e nas passagens subterrâneas que, segundo ele, são mais tranquilas e com um grande fluxo de pessoas.

arte-passagem-subterranea-5-fotos-por-gabriel-lima“Eu sempre fui muito interessado por intervenção urbana e por museus de arte, mas nunca fui de produzir arte, de fato. Eu sempre quis levar isso para as pessoas. Aí comecei a sair colando obras de arte por aí”, Senhor N.

“Particularmente eu gosto de ver a cidade rabiscada, isso mostra que ela está viva e em constante transformação”, Jão.

Outro artista, Jão*, além de grafiteiro, era sócio de uma loja de tintas. “No caso da venda de produtos, existiram algumas lojas voltadas exclusivamente para o grafite, pichação e street art aqui em Brasília mas que infelizmente não foram pra frente por falta de público”, disse. Apesar de todos os empecilhos como artista, ele nunca sofreu nenhuma apreensão de materiais. Ainda segundo ele, era para existir uma fiscalização a respeito das vendas, mas, na prática, não existe.

Ele, ao contrário, não tem nenhum motivação especial para pintar no subterrâneo, apenas porque faz parte da cidade.Na opinião dele, as pinturas são importantes para a população. “Particularmente, eu gosto de ver a cidade rabiscada, isso mostra que ela está viva e em constante transformação. O que eu me incomoda é porque muitas pessoas que ocupam esses espaços hoje em dia, não sabem o que os motiva a fazer isso, e acabam fazendo por modismo, ou por interesse”, afirmou.

Ele não se importa com a opinião crítica do público. “Eu não penso nisso, apenas faço o que eu quero. Mas de uma forma geral, hoje em dia as pessoas aceitam bem o graffiti e a street art”, concluiu.

arte-passagem-subterranea-3-fotos-por-gabriel-limaMuseu subterrâneo

“É uma galeria do registro dessa comunicação urbana. Um museu dinâmico, vivo e em constante transformação”, Úrsula Diesel 

Na avaliação da pesquisadora Úrsula Diesel, existe um museu vivo onde há intervenção visual e efemeridade. Ursula ainda ressalva a ideia de que as obras têm um caráter militante que abordam contextos e discussões atuais. 

Jão compreende o espaço da mesma forma. “Hoje ainda é possível vermos trabalhos antigos de muitas pessoas que continuam, ou não, fazendo parte do movimento e que são trabalhos expostos na cidade resistindo à ação do tempo, ao mesmo tempo em que vemos novos trabalhos aparecendo nas ruas”, declarou.

Já para “Senhor N”, ainda falta muito de arte de rua em Brasília. Para ele, a cidade não é que nem São Paulo, uma “cidade viva” com expressão da população por meio da arte do pichação. “Eu acho que Brasília falta muito disso. Aqui eu acho muito sem vida. Eu tinha um amigo que falava que a capital era uma cidade muito limpa”, afirmou.

Para Brixx, a arte do grafite em Brasília ainda está começando a ganhar corpo e a criar uma identidade. Com a adesão de artistas, para ela, Brasília está passando por um processo de consolidação da arte urbana. “Pelo fato de a cidade ser nova, Brasília ainda está caminhando. Talvez exista um museu assim em SP, talvez no rio, mas Brasília ainda está nos seus primeiros passos”, disse.

arte-passagem-subterranea-2-fotos-por-gabriel-limaComo ela é vista pela a população

A professora Úrsula Diesel acha que existem os dois lados da moeda. “Algumas pessoas interpretam a pichação de forma negativa, como algo agressivo. Enquanto o grafite e a colagem já são vistos como arte, como algo que enfeita a cidade. A interpretação das pessoas depende também do local no qual se encontra a arte”, falou.

“Tudo colorido é bem melhor do que cinza”

A reportagem da Agência de Notícias UniCeub percorreu quatro passagens subterrâneas na Asa Sul (106, 109) e Asa Norte (105) para saber a opinião daqueles que passam diariamente por aquele local. Maria Bárbara Melo, 61, diarista concorda que os grafites são melhores do que as pichações. “Tudo colorido é bem melhor do que cinza”. Maria do Carmo, 50, que trabalha como doméstica, passa pela mesma passarela sempre que está em Brasília. “Acho feio palavrão. Os desenhos, quando são bem feitos, deixam o meu caminho muito mais bonito”, afirmou.

John Norton, 40, é analista de sistema e discorda de como é disposta as passagens subterrâneas. “Esse espaço deveria estar disposto de lojas. Além de arrecadar impostos para o governo, traria segurança para as pessoas que passam por aqui”, pontuou. Apesar disso, ele considera que essas artes tornam a paisagem muito bonita.

A Secretaria de Segurança informou que não há dados a respeito de assaltos ocorridos nas passagens subterrâneas, apenas para assaltos ocorridos no Plano Piloto, em geral.

*Estudantes de Jornalismo do UniCeub

Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
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