maquina-de-escrever-douradaPoema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna

 

Escritura sagrada do dia-a-dia,
Refúgio de dez dígitos para orações,
Geralmente, simples sílabas.
Mas, eis, que, surpreendentes,
Um som, om, fonema, poema, ei…

Eu já habito, já há algum templo,
Esse mergulho, cardume de possibilidades.
Creio, por aqui estarei,
Mesmo quando se for de todas as idades,
De todas as cidades de algos e algas a relatar.

Praia de letrinhas, sopa de sopros,
Inspirações rasas e profundas,
De seixos voadores sobre superfícies
Ou, quem sabe, funduras de celacanto,
Invisíveis peixes de insondáveis sombras.

Parte indivisível de mim e de meus móveis.
Teclas e telas de onde retiro achados
Por determinação aleatória, devaneio,
Ou, por missão, profissão, profecia…
Uma vez, até um seguro dos dedos.

Ora, diria o prócer Líbero,
Nem é com as mãos que escrevemos,
Mas de toda lavra, lava de cérebro,
Sinta-se você gente, ou indulgente
Larva que tece espelho quando rastro.

“Eu sou aquele que ficou pelo caminho”
Acariciando pretinhas, hoje, de silêncios.
Algumas já foram de ferro e encaixes.
Outras, lisas de tanto desgaste
Na consagração de letras, carinhos.

Sou do tempo das fitas e dos tipos.
A literatura, partitura de ruídos.
Pintores ainda querem tintas?
Pois, nós, ainda somos caligrafia,
Mesmos quando nos supomos mortais.

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