sucata-exercito4Na Estrutural, sucatas metálicas de propriedade do Poder Público são comercializadas diretamente a empresas de ferro-velho. E a receita da venda não reverte ao Estado. Trabalhadores terceirizados, servidores de instituições do GDF, do Governo Federal e até militares participam do esquema.

Por Chico Sant’Anna. Fotos de Alexandre Amaral Bedran.

Um verdadeiro esquema de vendas paralelas de sucata metálica de propriedade do Poder Público veio à tona na Estrutural. Ele envolve seis empresas de ferro-velho, trabalhadores terceirizados, servidores de instituições do GDF, do Governo Federal e até militares. Veio à tona a partir de queixas de catadores do lixão da Estrutural. Denunciam que sucatas metálicas (o filé mignon dos catadores) não estavam sendo despejadas no lixão e que iam direto para as empresas que compram e vendem ferro-velho.

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Dois caminhões com a logomarca da Novacap foram fotografados comercializando sucata metálica. A Novacap alegou tratar-se de caminhões terceirizados e que já não mais prestavam serviço a empresa, embora ainda estivessem portando “irregularmente” adesivo da empresa.

Documentação fotográfica feita pelo presidente da Associação das Micro e Pequenas Empresas da Estrutural – Ampec/Scia, Alexandre Amaral Bedran, flagrou a comercialização de metais recicláveis de diversos órgãos públicos. A meta de Bedran não era denunciar o desvio de patrimônio público. A preocupação era mostrar o prejuízo dos catadores. Segundo ele, esse esquema de receptação de sucata pública representaria cerca de R$ 18 mil a cada dois dias. Ao longo do mês, representaria quase R$ 300 mil, já que o negócio não parou nem pro Natal. Os recursos não iriam para os órgãos públicos.

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A Comunicação Social da Caesb alegou que a Kombi fotografada é de empresa terceirizada e que pediu à contratada que apurasse o ocorrido.

Bedran flagrou caminhão do Exército, veículos com logomarcas da Caesb e da Novacap, do Ministério do Planejamento e da própria Valor Ambiental, contratada pelo Serviço de Limpeza Urbana – SLU. Eles vendiam sucatas metálicas e a receita da venda não reverte ao Estado nem às empresas públicas envolvidas.

Somente o Exército reconheceu o ocorrido e disse que tomaria as medidas necessárias. Nas fotos o material comercializado seriam ferraduras velhas do Regimento de Cavalaria de Guarda, mas em nota, a Comunicação do Exército afirma tratar-se de “material inservível” recolhidos no interior do Setor Militar Urbano numa ação de prevenção da Dengue.

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant'Anna, no semanário Brasília Capital
Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, no semanário Brasília Capital

“Imediatamente, ao tomar ciência do fato, o Comando da Unidade determinou que o valor arrecadado, R$ 183,00, fosse recolhido ao Fundo do Exército, como regem as leis e normas que regulam esse tipo de ação. O Comando do Regimento, também, determinou a elaboração de orientações sobre como proceder em ações dessa” disse em nota.

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Consultado, o Ministério do Planejamento sequer respondeu por que e como veículos de sua propriedade estavam comercializando sucata metálica.

Os demais órgãos não assumiram responsabilidades. O Ministério do Planejamento sequer respondeu à consulta formulada. A Novacap alegou tratar-se de caminhões terceirizados e que já não mais prestavam serviço a empresa, embora ainda estivessem portando “irregularmente” adesivo da empresa. Na Caesb, que teve registrada a ação de uma Kombi e de um caminhão, nos dias 23 e 24 de dezembro, a história foi parecida. A Kombi é terceirizada e a empresa pediu que a contratada apurasse o ocorrido. O caminhão portaria “descarte de entulho de obra”, mas que a luz das imagens irá investigar. O SLU disse que a venda de sucata pela Valor Ambiental fere as normas internas e que “os resíduos recicláveis são encaminhados pelas empresas contratadas, de forma exclusiva e gratuita, às cooperativas de materiais recicláveis cadastradas no SLU”. Mas não explicou porque isso não acontece.

Enquanto o Poder Público fechar os olhos, os reis da sucata vão enriquecendo.

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