O Plano Piloto é azul. Ou melhor, branco.

mapa-racial-do-plano-pilotoPor Chico Sant’Anna


Pesquisa Distrital
por Amostra de Domicílios, de 2015, aponta que dos residentes no Plano Piloto, 67,79% declararam-se brancos.

 

“A Terra é azul” disse, em 1961, o russo Yuri Gagarin, primeiro astronauta a ir para o espaço. Se olhasse hoje para o Plano Piloto, Gagarin repetiria com o mesmo espanto: o Plano Piloto é azul. Na verdade, branco. É o que retrata o Mapa Racial do Distrito Federal, elaborado a partir dos dados do Censo do IBGE de 2010. No mapa, cada cidadão representa um ponto e a cor desse ponto é definida em função da raça auto-declarada pelos cidadãos moradores na Capital Federal. O local desse ponto é a residência de cada individuo.

A maior parcela dos brasilienses não brancos só vem ao Plano Piloto para buscar sustento e estudos. Residem nas cidades mais distantes. Foto de José Roberto Bassul.

A maior parcela dos brasilienses não brancos só vem ao Plano Piloto para buscar sustento e estudos. Residem nas cidades mais distantes. Foto de José Roberto Bassul.

No chamado grande Plano Piloto, que inclui os bairros do Lago Sul, Norte, Sudoeste, Cruzeiro, Octogonal e as vilas Planalto e da Telebrasília, se verifica a maior concentração de pontos azuis, ou seja, de cidadãos brancos do Distrito Federal. Somente nas duas vilas citadas, que foram acampamentos de construtoras nos primórdios da capital, a densidade branca não é tão elevada. Existe presença significativa de pessoas que se identificaram como pardas. O mesmo acontece no bairro do Cruzeiro Novo e Velho e no Setor Militar Urbano.

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No mapa, além do azul, que representa as pessoas brancas, o verde são os pardos, vermelho são os pretos, marrom são indígenas e o amarelo são os orientais, com base nas classificações adotadas pelo IBGE. Elaborado para todo o Brasil, agrega 190 milhões de pontos. É uma ferramenta interativa elaborada pela empresa Pata, que atua na visualização de dados, criada por três programadores brasileiros. O projeto é inspirado numa tecnologia do Cooper Center for Public Service da Universidade de Virginia – EUA.

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Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, do semanário Brasília Capital

Cidade igualitária

Considerando que Lúcio Costa, ao projetar Brasília, estabeleceu áreas para populações de diferentes níveis sociais, destinando, especialmente, as quadras 400 e parte das 700 a servidores públicos desfavorecidos economicamente, chega a ser revelador a predominância branca da área central da capital do país. Coube às cidades-satélites abrigar majoritariamente as populações pardas e negras, e também as indígenas e asiáticas, que quase não aparecem no mapa.

Morar fora do Plano Piloto é muito mais do que uma questão de CEP. Está, em muitos casos, inserido uma questão de qualidade de vida. Melhores serviços públicos: Educação, Saúde e Segurança, menos tempo para deslocamentos casa-trabalho ou casa-estudos. Com raras exceções, as diversas regiões administrativas não garantem as mesmas oportunidades e benefícios que o Plano Piloto propicia.

Em seu projeto, Lúcio Costa defendeu a ideia da existência de quadras populares no Plano Piloto e que as quadras deveriam permitir “num certo grau, a coexistência social, evitando-se assim uma indevida e indesejável estratificação”.

Teria fracassado, então, a utopia de Lúcio Costa de uma cidade igualitária?

Sérgio Jatobá, pesquisador do Núcleo de Estudos de Urbanismo da /UnB, lembra que há uma correlação entre predominância de população branca e alta renda no DF. “O Plano Piloto sempre concentrou a população de maior renda, maior escolaridade e melhor qualidade urbana do DF, desde os primeiros anos da cidade, e isto se acentuou com o passar dos anos.”

Pela coloração do Mapa Racial do DF, percebe-se que aqueles que não se identificam como brancos residem majoritariamente nas cidades satélites.

Pela coloração do Mapa Racial do DF, percebe-se que aqueles que não se identificam como brancos residem majoritariamente nas cidades satélites.

Para ele, a coexistência social, de fato, só aconteceu, e em certa medida, no inicio da cidade, quando funcionários públicos de menor renda receberam apartamentos nas 400 e casas em algumas quadras das 700. “Nem todas eram populares, existiam os HP 5 da 704 e da 705, e os funcionários não eram os candangos que nunca puderam viver no Plano Piloto. Esses foram mandados/assentados diretamente nas cidades-satélites.”

Casa Grande e Senzala

Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios, de 2015, dos residentes no Plano Piloto, 67,79% declararam-se brancos e 28,94%, pardos. A cor preta é representada por apenas 1,43% dos residentes. Na Asa Norte, os brancos representam 67,96% e, na Asa Sul, 70,56%. No Lago Norte, incluindo o Varjão, 59,56% declararam-se brancos e 31,75%, pardos. A cor preta é representada por 2,79% dos residentes. E no Lago Sul, 69,55% são brancos e 28,78%, pardos. A cor preta é representada por 1,49% dos residentes. Na Cidade Estrutural, por exemplo, a realidade racial é a inversa: 62,57% declararam-se pardos e 26,35%, brancos. A cor preta é representada por 11,08% dos residentes

Para outro especialista em urbanismo, Antônio Eustáquio dos Santos, o Mapa Racial do DF materializa o que ele chama de sociedade da Casa Grande e Senzala. “Urbanista não faz revolução. As cidades refletem o que a sociedade é: violenta, desrespeitosa, autoritária. Sem escola de qualidade para todos não sairemos dessa Casa Grande e da Senzala. O modelo de Escolas Classe e Escolas Parques, concebido por Anísio Teixeira, e que permitiria um diferencial às gerações subsequentes à inauguração, foi abandonado pela elite branca do Plano Piloto. Por que outras Escolas Classes e outras Unidades de Vizinhança, como a existente na SQS 108, não foram executadas? O regime militar e a ação das elites brancas impediu que ideias de Lúcio e Anísio prosperassem” – conclui.

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O Plano Piloto sofreu um processo de “gentrificação”, ou seja, substituição da população mais humilde original por populações de maior poder aquisitivo.

Gentrificação

Professor de Arquitetura e Urbanismo da UnB, Frederico Flósculo, salienta que o Plano Piloto sofreu um processo de “gentrificação”, ou seja, substituição da população mais humilde original por populações de maior poder aquisitivo.

“As 400 desde o começo foram ocupadas pelos funcionários públicos cariocas e mineiros majoritariamente. As 700 São muito menos ortodoxas e foram ocupadas por pessoas mais ligadas à construção da cidade, como engenheiros e funcionários do governo local. A meu ver, os objetivos originais dos projetos das 400 e 700 atingiram os seus objetivos, sobretudo nas décadas de 1960/1970. Em ambos os casos ocorreu um intenso processo de gentrificação, iniciado nos anos 1980 e em ação até os dias de hoje” – explica o pesquisador.

A pesquisa da Codeplan apontou que 53,34% dos 221,2 mil habitantes do Plano Piloto têm nível superior e nenhuma criança entre 7 e 14 anos estava fora da escola. A renda média familiar mensal, naquele ano, era de 13.489,93. Já na Estrutural, R$ 2.004,00.

“Creio que a cidade socialmente justa nunca existiu de fato. Brasília sempre foi um retrato da desigualdade social brasileira, aqui expressa na forma de uma segregação sócio espacial muito explícita. Muito mais, do que a que existia, por exemplo, no Rio de Janeiro, onde as favelas sempre existiram lado a lado com as áreas mais nobres da cidade” – explica Jatobá.

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Sobre Chico Sant'Anna

Sou jornalista profissional, documentarista, moro em Brasília desde 1958. Trabalhei nos principais meios de comunicação da Capital Federal e lecionei Jornalismo também nas principais universidades da cidade.
Esse post foi publicado em Brasília - DF, Cidadania, Cidades Satélites, Cruzeiro - DF, Desenvolvimento Urbano, Desigualdade Social, Direitos sociais, Discriminação, Distrito Federal, Estrutural, Lago Norte, Lago Sul, Minorias sociais, Miséria & Pobreza, Moradia & Habitação, Transparência, Urbanismo. Bookmark o link permanente.

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