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Sem um controle e proteção das nascentes e córregos que abastecem o Lago Paranoá, a qualidade da água ali existente sempre correrá riscos. Placa de alerta Foto de Dênio Simões/Agência Brasília.

Por Chico Sant’Anna

O GDF vai usar o Lago Paranoá para o abastecimento d’água potável no Distrito Federal. A curtíssimo prazo, a missão é diminuir a emergência hídrica por que passa a Capital Federal e, a médio e longo prazo, fazer parte do sistema normal de abastecimento. São elaborados dois projetos de captação: o emergencial nas imediações da Península Norte e o outro, próximo a Ponte JK. A grande dúvida é quanto à qualidade e a quantidade d’água existente no Paranoá.

Previsto para funcionar em 180 dias ao custo de R$ 50 milhões, o projeto emergencial captaria 700 litros de água por segundo, o que representa 7,3% de toda água produzida hoje no DF. Beneficiaria a Península Norte, Setor de Mansões do Lago Norte, Taquari, Varjão, Paranoá e Itapoã. Localidades abastecidas pelo sistema de Santa Maria, segundo informou a Caesb para justificar o não racionamento nesta parte do DF.

Vem então a primeira pergunta: Se essas localidades estão fora do racionamento, porque um sistema emergencial para elas? Porque o sistema emergencial não reforça o abastecimento das áreas atendidas pela barragem do Descoberto? Ou então, se é necessário reforçar o volume d’água, porque não incluir essas localidades no racionamento?

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Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, no semanário Brasília Capital.

A outra questão se refere à qualidade d’água. É sabido que o tratamento da água fornecida pela Caesb é terciário baseado em três fatores: Higiênicos – remoção de bactérias, protozoários, vírus e outros micro-organismos, redução do excesso de impurezas e dos teores elevados de compostos orgânicos; Estéticos – correção da cor, sabor e odor; e Econômicos – redução de corrosividade, cor, turbidez, ferro e manganês.

Hormônios e antibióticos

Ao tratar a água, a Caesb não retira substâncias químicas usadas pelos brasilienses, tais como hormônios, antibióticos e até drogas ilícitas.
Técnicos da secretaria de Meio-Ambiente são seguros ao afirmarem que as águas do Paranoá possuem alta presença desses químicos. A presença de resíduos de drogas ilícitas seria, inclusive, utilizada nas investigações da Polícia Civil para indicar quais áreas do Plano Piloto mais consomem drogas.

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Também não há controle sobre a presença de agrotóxico e pesticidas que eventualmente venham a ser depositado nas águas do Lago, via seus afluentes. A agricultura do Distrito Federal é uma das campeãs em uso intensivo de agrotóxicos.

Tudo isso se deve ao fato de o Paranoá receber esgotos, tratados, – há estações na Asa Sul e na Asa Norte – e também os jogados in natura nos córregos que desaguam no Lago.

O Córrego do Seco, um dos tributários do Ribeirão do Gama, é constantemente agredido pela grilagem de terras.
No Park Way, o Córrego do Mato Seco, um dos tributários do Ribeirão do Gama, é constantemente agredido pela grilagem de terras.

Córregos e nascentes

Recentemente, o trecho do Lago Paranoá que vai do Pontão do Lago Sul até a foz do Riacho Fundo ficou impróprio para banho e pesca. Que dirá para beber. Motivo: florescimento desregulado de cianobactérias, que reduzem o oxigênio na água, resultando até na morte de peixes e tornando-os impróprios para o consumo. O surgimento dessas algas é atribuído à descarga in natura de esgoto.

O GDF decidiu investigar o que acontece ao longo dos córregos que abastecem o Paranoá. Se há lançamento de esgoto clandestino.

O Poder Público não tem dado à devida atenção às nascentes e córregos que formam as principais bacias hidrográficas candangas.

Vila Cahuí e Mato Seco

Nos fundos da administração regional do Núcleo Bandeirante, na já chamada Expansão da Vila Cahuí, uma vasta área que margeia o Riacho Fundo foi grilada no final do ano passado. Lotes de 200 metros quadrados foram vendidos por R$ 80 mil. A Polícia Ambiental documentou tudo, mas, até hoje, o Buriti não ordenou a retirada dos invasores. Ali mesmo, funciona um lava-jato que, clandestinamente, usa água do Riacho Fundo e a devolve ao leito do rio cheia de óleo, graxa e gasolina. Todo mundo vê e o GDF nada faz.

Por conta da grilagem, a Vila Cahui ganhou uma Expansão. No Park Way, Córrego do Mato Seco é alvo de desmate.
Por conta da grilagem, a Vila Cahui ganhou uma Expansão. No Park Way, a calha do Córrego do Mato Seco é alvo constante de desmatamento.

 

Na APA do Gama, a grilagem come solta na nascente do córrego do Mato Seco, um dos principais tributários do Ribeirão do Gama que deságua no Paranoá. Denúncias, abaixo-assinados, representações, o que se pude imaginar, a comunidade do Park Way já fez. Mas nem o GDF, nem o Ministério Público, nem a Polícia traz uma solução definitiva para preservar o córrego. Para os moradores é preciso transformar a área, próxima ao Catetinho, em um Parque Ambiental. Há anos, essa proposta tramita nos gabinetes do Buriti. Até requerimento do senador Reguffe a Rodrigo Rollemberg já foi feito, mas o que se constata cotidianamente é o barulho dos machados e das serras elétricas destruindo a mata de galeria do Mato Seco.

Não adianta projetar uma captação d’água no Paranoá, se não há cuidados com os córregos que o abastecem. O Lago é apenas um imenso reservatório. Quem o mantem cheio ou vazio, com água boa ou ruim são os diversos córregos que serpenteiam o Distrito Federal.

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