Depois de seis anos, coletivos estudantis de esquerda voltam a comandar o DCE-UnB.

Por Chico Sant’Anna, com base no texto de Jadson Lima e Scarlett Rocha, publicado originalmente no Esquerda online. Fotos de Mídia Ninja

Depois de seis anos afastado do comando d o Diretório Central de Estudantes da Universidade de Brasília – DCE-UnB, o movimento estudantil de esquerda volta a comandá-lo. A chapa Toda as Vozes, formada por estudantes considerados independentes ou ativistas de coletivos da juventude de esquerda, foi a grande vencedora da eleição que movimentou nas urnas mais de 12 mil estudantes. Foram 7.017 votos para chapa 2 – Todas as Vozes, contra 4809 para a Chapa 1 – Aliança Pela Liberdade, considerada conservadora.

Desde 2011, o DCE da UnB estava sob a gestão do grupo político de direita Aliança Pela Liberdade, uma organização que se esconde atrás de um discurso pretensamente apartidário e neutro, que defende a presença ostensiva da Polícia Militar no Campus, a privatização dos serviços públicos, se perfila no campo de defesa das reformas patrocinadas pelo governo Temer, e que se notabilizou por esvaziar as instâncias legítimas e históricas do Movimento Estudantil na universidade.

A participação dos universitários na eleição do DCE foi uma das maiores na história da UnB.

A chapa vitoriosa reúne representantes de diferentes correntes de esquerda que tradicionalmente se apresentavam isoladamente nos processos eleitorais. A nova direção do DCE conta com o apoio de dez coletivos de juventude da esquerda, dentre os quais o Juntos, a Juventude do MAIS, RUA, Levante Popular da Juventude, Juventude Revolução e UJS.

A nova direção estudantil terá na reitoria da Universidade de Brasília gestores também considerados progressistas e de esquerda. E, setembro de 2016, Márcia Abrahão, foi eleita em primeiro turno, como a nova reitora da instituição, para um mandato até 2.020. A primeira mulher reitora da UnB estava à frente de uma chapa considerada de esquerda e que venceu o então reitor Ivan Camargo, que tentava a recondução.

Embora seja um resultado restrito a uma universidade federal, analistas políticos acompanharam com atenção o desenrolar do processo eleitoral, pois ele pode representar um termômetro de como a juventude vem pensando politicamente.

Fica evidente que o pensamento majoritariamente vitorioso é o daqueles que são contra a privatização do ensino e em defesa de uma universidade pública, gratuita e de qualidade. Um posicionamento contrário às medidas governamentais de reduzir verbas para pesquisa, alterar o ensino médio por medida provisória e de extinção do programa Ciências sem Fronteiras.

Exaustos, os estudantes acompanharam a contagem de votos que começou às 2h30 da manhã e só terminou às 8h50 da manhã desta sexta-feira, 7/4.

Os depoimentos dos estudantes que apoiaram a chapa 2 e que circulam nas redes sociais não escondem leituras dessa natureza:

Essa é uma vitória dos estudantes da UnB e das forças populares, progressistas e do campo da esquerda.

– Essa vitória com certeza ira repercutir em todo o Brasil, não só no Movimento Estudantil, mas em todas as frentes.

– Essa eleição serve de recado àqueles que querem retroceder nos direitos sociais dos brasileiros.

– “A vitória indica a disposição da maioria dos estudantes da universidade de enfrentar, nas ruas, as reformas que condenam o futuro da juventude, o racismo, o machismo e a LBTfobia dos grupos de direita.”

História

Em seus 55 anos de existência, a Universidade de Brasília desempenhou importante papel na resistência política. Foi assim nos períodos de chumbo da Ditadura Militar, foi assim no governo Collor, quando as verbas para o ensino público começaram a rarear. Seguindo o exemplo da onda de ocupações de escolas realizadas pelos estudantes secundaristas de São Paulo e do Paraná, no ano passado os estudantes da UnB ocuparam a universidade para lutar contra a PEC do Teto dos Gastos, o golpe parlamentar e pelo fim do governo Temer.

Como continuidade da resistência, os estudantes reconheceram seu papel diante da atual realidade do país e decidiram construir uma campanha histórica, pautada por uma grande unidade da esquerda, com o objetivo fundamental de derrotar a direita que dirigia o DCE e colocar o DCE a serviço das lutas contra as reformas da Previdência e Trabalhista, contra as terceirizações, contra todas as formas de opressão e em defesa da educação pública e dos serviços públicos.