Por Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna

 

Disse Marx, padroeiro do trabalhador:
“Só o trabalho produz valor”.
Agora, há quem diga: ‘O negócio está no ócio’.
“Que preguiça!”, geme Macunaíma.

Trabalhar em romano era tripalium,
Instrumento de tortura, mas, que doçura,
A abelha a lidar com flor, pólen e mel.
Mania de besouro é rolar pelota.

Enquanto há digestão, a matéria come pão.
E o patrão vê no vil apego
A chama do umbigo,
O lucro que não se apaga.

“Eu não vim para ser labrego”,
Resmunga, o colonizador,
Até hoje, donatário,
Dom de fazer do outro otário.

Na poesia, propôs o crítico Faustino:
Há que surgir um Andrade
Capaz de juntar os três: Mário, Oswald e Carlos.
Eu sou é gente, saruê é que é um bicho.

Não vivo nu, quando muito, ameríndio.
Reservem para mim esse cantinho,
Predileto, do seu ombro, cativo ninho
De quem dorme para sonhar com beijinhos.

Labora et ora. Ora et labora.
Questão de laboratório.
Destino é mistério do além,
Até para quem não é beneditino.

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