Por Chico Sant’Anna

 

Em francês, a palavra sutiã (soutien) significa sustenta, substantivo derivado do verbo sustentar. Mas são nove mil sutiãs que poderão derrubar o deputado Izalci Lucas (PSDB) da corrida ao Palácio do Buriti. Não se trata de nenhum movimento feminista para acabar com o projeto político do tucano. É mais uma das ações enviadas ao STF pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, antes de deixar o cargo.

Izalci é acusado pela PGR de ter utilizado mercadorias apreendidas como contrabando pela Receita Federal para fazer agrados ao eleitorado de Brasília. Na condição de secretário de Ciência e Tecnologia do governo Arruda, entre 2009 e 2010, ele solicitou uma série de produtos que oficialmente seriam utilizados no programa de inclusão digital, tocado por ele.

A titulo dessa inclusão digital, além dos nove mil sutiãs, a Receita repassou 324 fixadores de dentadura, 28 varas de pescar, 12 rolos de linhas, 870 baralhos, 720 escovas de dente, oito mil pares de meias, dois mil perfumes, 200 pulseiras, 169 máquinas de costura, 1,4 mil capinhas e 300 baterias de celular, 65 vídeo games, além de filmadoras, calculadoras, computadores e fones de ouvido. O valor global somava em 2010, R$ 245.176,94.

Cerca de 200 computadores e monitores de vídeo, doados pelo Tribunal de Contas da União à secretaria, também não foram incorporados ao patrimônio do GDF. Na denúncia, consta que alguns desses equipamentos teriam sido vistos à época no escritório político de Izalci. Ao Correio Braziliense, afirmou ter doado a Fundação Gonçalves Ledo, no Recanto das Emas, para ações sociais. Já à TV Globo informou que foi um programa de ação social desenvolvido com paróquias da cidade.

Publicado originalmente na coluna BRASÍLIA POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital

O problema é que a secretaria de Ciência e Tecnologia nunca registrou a entrada da doação desses bens, muito menos a saída deles e os respectivos destinatários. A suspeita é que todos esses bens, que faziam parte do patrimônio Federal, tenham sido usados como brindes eleitorais.

Lista de devedores

O caso está agora no Supremo Tribunal Federal que decidirá se avança ou não com o processo. Se a ação penal for recebida pelo STF, Izalci se torna réu nos processos por peculato. Do tempo da secretaria de Ciência e Tecnologia, há outro inquérito instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF) para investigar Izalci Lucas em um suposto esquema de desvio de recursos públicos no Programa de Inclusão Digital, da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP/DF). Supostamente, verbas para bolsas de apoio à pesquisa científica eram usadas para remunerar cabos eleitorais e simpatizantes do parlamentar. Izalci também está inscrito na Dívida Ativa da União. Segundo a Procuradoria Nacional da Fazenda, ele aparece como devedor de impostos em dois processos, totalizando R$ 458.028,38.