Mesmo sendo considerado o melhor aeroporto do país, Terminal JK foi superado pelo de Fortaleza para ser o centro de conexões da Air France e KLM.

Políticas de incentivo fiscal aprovada pela Câmara Municipal de Fortaleza influenciaram na decisão das companhia aéreas em criar um centro de  conexões na capital cearense

 

Por Chico Sant’Anna

Embora tenha um dos melhores aeroportos do país, foi eleito pelos usuários o melhor do país entre os terminais com fluxo de passageiros superior a 15 milhões ao ano, quando a questão é vôo internacional, Brasília está perdendo espaço para as outras cidades. E não é só para Rio de Janeiro e São Paulo. Diversas empresas nacionais e estrangeiras cancelaram nos últimos anos os vôos que daqui partiam.

Depois de cancelar o voo Paris-Brasília, a Air France acaba de jogar um balde de água fria nas pretensões candangas de se transformar num importante ponto de conexão aérea, um hub na linguagem técnica. O Aeroporto de Fortaleza será o centro de conexões de voos das companhias Air France, KLM e Gol a partir de maio de 2018. As operações terão início com três voos da KLM para Amsterdã, na Holanda, e dois voos para Paris, operado pela Joon, empresa de baixo custo do grupo Air France. De lá, a Gol fará as interligações com o restante do Brasil.

Não foram só as belas paisagens cearenses que levaram as empresas a tomarem tal decisão. No ano passado, a Câmara Municipal da cidade aprovou uma política de benefícios fiscais a empresas aéreas que lá instalassem hubs. Entre as medidas, estão isenção de Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) sobre os serviços relacionados à implantação e operação do centro de conexões e redução de 5% para 2% do tributo para serviços como manutenção de aeronaves, hospedagem das tripulações e venda de passagens aéreas e de pacotes turísticos.

Desemprego

Para uma cidade que vivencia uma das mais elevadas taxas de desemprego, com cerca de 300 mil brasilienses na rua da amargura, chega ser até irresponsável a falata de visão estratégica para transformar Brasília num efetivo polo turístico. A existência de vôos internacionais e, em especial, de centro de conexão num determinado aeroporto é estratégico para o desenvolvimento não só do turismo de uma localidade, mas também para a economia dela como um todo. Com o hub passam a existir centro de manutenção, empresa de catering (fornecedora de alimentação de bordo), limpeza, ativa os setores de hotelaria, restaurantes, taxistas, o comércio em geral. Mas é claro, a cidade precisa reativar seus atrativos culturais. Não dá pra atravessar mais um ano com o Museu de Arte de Brasília e o Teatro Nacional fechados.

É preciso ter criatividade e criar programas específicos para quem deseja fazer turismo especializado, por exemplo em urbanismo e arquitetura, em meio-ambiente, intercâmbio de estudantes, dentre tantos outros.

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Por ser um município, o único incentivo fiscal que a municipalidade poderia oferecer é exatamente sobre o ISS. Já o Distrito Federal, uma Unidade da Federação, além do ISS, também pode definir incentivos baseados no ICMS.  Brasília ainda tem o diferencial de estar no centro do País e da América do Sul. Pela posição estratégica se credencia para ser um hub. Mas faltam incentivos. Já passou da hora do GDF e da Câmara Legislativa do DF se concentrarem na elaboração de políticas de estimulo ao turismo mais estruturantes para o desenvolvimento do DF.

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, no semanário, Brasília Capital.

Brasília – Paris

Em 31 de março de 2014 foi inaugurado o voo direto da Air France. Os franceses estão em oitavo lugar no ranking dos turistas estrangeiros que visitam o Brasil. Em  500 mil pessoas visitam nosso país a cada ano e Brasília é a terceira preferência dos franceses na área de negócios. Logo depois das Olimpíadas, a Air France cancelou a conexão Brasília-Paris, seguindo os passos de outras companhias aéreas nacionais e estrangeiras.

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Uma disputa pelas redes sociais entre a secretaria de Turismo do DF e a revista especializada Leitura de Bordo trouxe à tona a precariedade da difusão do turismo candango. A revista denunciou que o stand estava vazio. O GDF nega, mas as fotos apresentadas revelam uma pobreza na divulgação turística de Brasília

Turismo às moscas

No mundo inteiro, cidades e países buscam atrair turistas, pois o setor é responsável pela entrada de divisas, geração de empregos e, na maioria dos casos, de desenvolvimento sustentável. Mas turista não cai do céu. Precisa ser cativado. Sua atenção e curiosidade precisam ser alimentadas para que ele decida ir a esse ou aquele lugar. Políticas públicas precisam ser aprovadas e uma marketing competente implantado.

Estados economicamente mais frágeis, como Maranhão e Rondônia, apresentaram estruturas de marketing de turismo bem mais competente para divulgar as cidades aos turistas.

Uma das estratégias principais são as feiras de turismo. Nelas, tantos os agentes de turismos quanto os próprios turistas são informados sobre as novidades, ofertas, oportunidades.

No Brasil, um dos espaços mais estratégico é a Feira da Associação Brasileira de Agência de Viagens – ABAV. Cada Estado deve montar seu stand com o que de melhor tem a oferecer. Deveria ser assim, mas com o GDF é diferente.

Uma disputa pelas redes sociais entre a secretaria de Turismo do DF e a revista especializada Leitura de Bordo trouxe à tona a precariedade da difusão do turismo candango. Com fotos, a revista denuncia que o stand do DF estava vazio. Também com fotos, o secretário Jaime Recena mostra que o stand estava equipado. Mesmo tomando como verdadeira a afirmação do secretário de Turismo – e comparando-se com os stands de outros Estados, até os economicamente mais frágeis, como Maranhão e Rondônia, percebe-se que não há uma estrutura competente para divulgar a cidade aos turistas. Alguns folhetos não serão atrativos suficientes para fazer a mente de um viajante.
O GDF nada pagou pela participação na feira. Tudo foi bancado pelo governo Federal. Poderia então ter caprichado mais. Como sugere a revista, se não tinha recursos, que convidasse os operadores locais, o chamado trade, as agências, os hotéis e até organizasse com os municípios do Entorno, como os da Chapada, uma ação conjunta. Perdeu a oportunidade.