Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna.

 

Escrevi para ela um bilhete e reservei
Para ser aberto 50 mil anos depois.
Mas, sob o risco de me incinerar ou,
No mínimo de queimar as mãos,
Ou, ainda, de ficar cego e demente;
Ser visto qual protozoário ao microscópico,
Ou, sem nenhum sinal de escuta ao esteto…
Não resisti à estética do tempo e fui abrir
Em qualquer página O Livro de Areia (Borges).

Por ser infinito, tanto faz a lágrima.
Então, nem estátua de sal, nem mármore;
Tão somente mergulhar num girassol,
Espiral de Fibonacci pelo avesso,
Até hoje, não terminei de cerzir
A incompletude do caracol.
Tenho carregado um templo nas costas,
Qual um Atlas a zelar pelo mundo.
Inútil temer o caos, se tudo é recomeço.

Ilusão é doce. Ácida é a chuva
Que insiste ser triste em Blade Runner
E nos amedronta no pesadelo

De que um dia não haja samambaias.
Acorda, foi só um susto, abre a janela.
Oh! Minha amiga, ombro que andou vazio,
Diz que, agora, você está bem.
E, então, poderei alternar iluminuras,
Uma a uma, os dourados da nossa geração.

Jamais poderemos admitir que algo foi fugaz.
Que a fé nunca nos permita desconfiar
Que alguém por humano seja peso.
Oh! Santo Antônio! Volta a pregar.
Tudo bem, que os peixes ouçam mais
A palavra de Deus que as orelhas
Dos que mais têm a ouvir do que a rezar.
Contemplar é tudo que o silêncio quer de nós.
Que possamos nos conhecer melhor numa desconhecida mudez.