Por Aylê-Salassié Quintão*

Morre-se em agosto, ressuscita-se em novembro.  É finados. Os mortos vão inquietar o espírito de pessoas que têm medo de assombrações, ocupando espaços nas ruas, nas igrejas, nas casas e nos corações. As lembranças de parentes e amigos mortos os libertarão na memória, em conversas, sermões nas igrejas e visitas aos cemitérios. Esses ausentes estarão imaterialmente presentes na vida dos humanos.  Pela internet será possível conversar com milhares, senão milhões. E-mails não cancelados são utilizados pelos mais próximos e também pelos políticos,  com o fim de  celebrar seus mortos ou usá-los para as suas conveniências.

         As manifestações sempre surpreendem por excessos de consternação, pela irreverência da juventude e pelo seu caráter virtualmente aterrorizante.  Inspirado pelo Halloween, há quem pratique atos de extrema violência. No Pará, no município de Altamira, foi preso há alguns anos um grupo de místicos que seqüestrava  crianças para extrair delas os órgãos genitais, e transformá-los em objetos de rituais ocultos. Em Brasília, sem pedir para ninguém, o patologista retirou, na autópsia, o coração de Luís Eduardo, ex-presidente da Câmara, filho de ACM, e o guardou num armário: “interesse científico”, justificou, ao ser descoberto.

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           Reproduzindo o comportamento de pessoas infectadas pela peste nos séculos XIV e XV, na França,  nesse período,  um grupo de pessoas cobre alegoricamente o rosto como se fora um morto-vivo. Multiplicam-se daí as missas, as festas dos defuntos, as danças macabras para homenagear os mortos e os que estavam próximos ao desenlace da vida. No México, ao contrário, e em alguns países da América Central, os familiares promovem verdadeiros banquetes dentro dos cemitérios com o propósito de atrair seus mortos para a vida.

             A semana dos mortos é hoje cercada por um espírito meio burlesco. Fantasiada de mortos vivos, fantasmas ou feiticeiras, a juventude realiza enormes festas privadas, encenando a presença dos mortos na vida real. Retornam à  Idade Média, quando fiéis adornavam as paredes dos cemitérios em Finados, com imagens do diabo puxando para as campas  papas, reis, damas, monges, camponeses, leprosos e políticos . Afinal, a morte não respeita os mortos, e nem os vivos.

               A celebração ou a festa aos mortos teve início com os pagãos celtas, muito antes de Cristo. Chegado o cristianismo, eles começaram a ser  perseguidos, e a prática ganhou materialidade ambígua. Relatava-se que no dia 31 de outubro, os espíritos saíam dos cemitérios, misturando-se aos vivos durante uma semana. Para defender-se, os cristãos decoravam suas casas com caveiras, máscaras, ossos e ferramentas de tortura. O evento terminou inspirando a Inquisição, ao instituir o crime de “bruxaria”. Os acusados eram queimados em praça pública, o que levou tais práticas a tornarem-se clandestinas.

            Mas, seguindo os passos dos sírios que festejavam seus mártires,  nos anos 600, o Papa Bonifácio IV transformou o Panteão romano, dedicado à Santa Maria,  em um lugar para  homenagear santos e mártires com vigílias e orações. Fixou, para isso, o dia 2 de novembro. A data chegou aos britânicos, sobretudo da Cornuália, por meio dos exércitos e ganhou o nome de AllHallow’sEve (Vigília de Todos os Santos). Contudo, os protestantes a abreviaram para   Halloween  caracterizando-a  como o Dia das Bruxas.  Recuperada aqui e ali, a tradição pagã sobreviveu em pequenos grupos e em algumas liturgias dentro do próprio cristianismo.

                Atuando como médiuns de familiares vivos e mortos, e administrando os espíritos dos que retornavam para visitar seus antigos lares, os sacerdotes druidas foram transmitindo  clandestina e oralmente seus segredos as gerações. Orientavam os jovens soldados à luta, pregando que os mortos habitavam um lugar onde não havia fome, nem dor. As reinterpretações contemporâneas terminaram  por agregar, entre vários povos e religiões, a ideia da busca do paraíso. Na modernidade, tornou-se motivo de agitação  lúdica entre os jovens,  com festas de mortos-vivos, mas serviu também de inspiração para o Estado Islâmico.
Os pagãos não tem templos. Em Brasília encontram-se, vez por outra, no Parque da Cidade.

*Jornalista, professor, doutor em História Cultural